A soul music tem vivido os seus momentos de hype. Muitas vezes, de forma meio patética. Em outras, mais inspirada. O produtor Travis Stewart assina como
Machinedrum e é definitivamente um desses artistas que, talvez até inconscientemente, transmuta a soul music em algo completamente novo. Aqui não há espaço para muitos clichês. Existe a referência, que é ultrapassada e deixada no espelho retrovisor, a caminho de novos baratos. Nada da chupinhação inócua e preguiçosa de Adeles, Duffys e Amy Winehouses. As dezenas de vocais picotados em pitchs adulterados, profundamente filtrados e lavados, transparecem claros como ecos purificados de cantores e cantoras soul do além. Esses fragmentos vocais flutuam etéreos por cima de batidas incansáveis, que rasgam o chão em andamentos acima dos 160 bpm. A redenção em curto-circuito, amplificada e digital.
Pós-dubstep, pós-oldschool rave, pós-qualquer coisa. Na realidade, Stewart nunca foi um produtor de dubstep (ou de música de pista, para todos os efeitos). Desde 2001 produzindo batidas que vão desde o downtempo até o hip hop abstrato, o Machinedrum tem como fio condutor algo que é até meio óbvio: o trabalho rítmico intenso. Em faixas como "The Statue", "GBYE" e "Now U Know the Deal 4 Real" baixos focadíssimos pontuam um ritmo frenético, porém continuo, que é acompanhado por sequências de acordes que remetem à música 4x4 clássica de Detroit ou Chicago. Soulful e extremamente vigoroso.
Flash Content
Machinedrum - Now U Know The Deal 4 Real (mp3)
Flash Content
Machinedrum - GBYE (mp3)
Flash Content
Machinedrum - The Statue (mp3)
Flash Content
Machinedrum - U Don't Survive (mp3)
Essa clareza de foco é tanto uma benção quanto o ponto fraco do disco. A potência e movimento retilíneo propostas por Stewart são bastante interessantes, mas o disco não desenvolve outros movimentos e pode soar monótono se ouvido de cabo a rabo. Para estabelecermos uma comparação com outro disco recente, o produtor inglês
SBTRKT consegue erguer a cabeça um pouco acima da camada instrumental digital e oferece momentos mais criativos, enquanto Stewart se foca no que está imediatamente a sua frente. Escolha ou falta de percepção? De qualquer forma, falta um pouco de variedade.
Talvez a grande façanha de
Room(s) seja conseguir acelerar muito sem perder o controle. Ao ler sobre a tal barreira dos 160 bpms, a primeira coisa que vem a mente são espancamentos auriculares sem a menor finesse. Música de frito, para ser mais claro. Porém,
Room(s) não tem nada de frito. Na realidade, o disco é bem o contrário disso e soa como uma construção bem meticulosa de um compositor que conhece suas capacidades. Tendo em vista os últimos trabalhos lançados por Stewart, tanto como Machinedrum quanto como uma das metades do excelente
Sepalcure, vemos um claro movimento de evolução.
Room(s) ainda não é o destino final, mas aponta que o caminho para a grandeza está traçado.
post-dubstep rulz