Poucas vezes temos consciência dos raros momentos da vida em que a história está acontecendo diante dos nossos olhos. Estamos mais vidrados na rotina do que gostaríamos de admitir e, apesar de tanta gente distraída fazendo social e tomando drinks (no camarote, pelo menos) o quarto show do LCD Soundsystem em São Paulo foi um desses momentos.

A banda de James Murphy fez uma apresentação épica, digna de ser lembrada e recontada ainda por bastante tempo. A empolgação do público com a banda era tamanha que o festival No Mondays ficou eclipsado: não se falou sobre a banda do filho do Mick Jagger, sobre os DJs.
Não só por ser o ultimo show do LCD Soundsystem em São Paulo, onde a banda já havia passado outras três vezes (a saber: em uma edição do Sónar em 2004, no Skol Beats 2006 e em show no Via Funchal em 2007) nem por despertar essa sensação de estar vivendo um momento único na história da música. O simples fato de ouvir o próprio James Murphy cantando (melhor do que nunca) os hits que ouvimos incansavelmente nos últimos anos e poder berrar junto à plenos pulmões tornou a noite do dia 18/02 rara e especial.
Que não temos casas de shows à altura de apresentações como essa, também estamos carecas de repetir. É sempre a mesma prosa. Detalhes como esses acabam por enfraquecer o que poderia ter sido uma noite perfeita. Mas estamos também escolados e sabemos que a vida não é perfeita, e por isso, talvez, o show do LCD tenha sido um dos mais emocionantes que vi recentemente, quiçá nos últimos tempos.
É impagável e impossível não ficar com os olhos marejados e os pelos do corpo arrepiados quando Murphy está ali, acompanhado por sua ótima banda (destaque especial para o sempre afiado Pat Mahoney e a rainha cool Nancy Whang) com o convidado especial Al Doyle, do Hot Chip, empolgadíssimo e sem camisa - o calor era cruel, a piada na pista foi que o show era "LCD SAUNAsystem".
Melhores do que nunca, com três álbuns notáveis nas costas e um show onde todas cada canção é hit cantado em coro pelo público, o LCD Soundsystem se despede com a moral de quem continua fazendo a história acontecer com suas músicas lindas e sinceras que embalaram nossas baladas, ressacas e dias e noites andando por aí, a esmo.
Destaques foram as perfeitas fusões roqueiras dançantes, como a energética "Daft Punk is Playing in My House" e "Yeah", que foi esticada numa gritaria de quase 10 minutos, seguidas na sequência pela sempre épica "Someone Great" e James Murphy reclamando do calor e saindo do palco, talvez para se refrescar?
Do disco novo, "I Can Change" veio um pouco meia-bomba, mas "Home" só poderia ter emocionado e "You Wanted a Hit"foi o ápice do atual momento da banda, musicado numa ótima crise existencial que resume a situação: "
Can you tell me what's real? There's lights and sounds and stories, music is just a part". Sim, há muito além da música, e é isso que a James e sua banda vão buscar agora.
Depois do show, levou um tempo até James e Pat assumirem as picapes da pista ao lado. Num espaço lotado com suadouro, eles destilaram seu já conhecido combo de disco e house, sempre aquele clima hedonista exacerbados, passinhos infinitos, uma técnica não necessariamente perfeita e um enfoque nos vocais festivo e divertido. Teve até um mais empolgado que não se aguentou e subiu em cima das picapes (!), sendo arrancado fora pelos seguranças mas cumprimentado por James.
O show passou, com o mesmo sucesso, por Rio de Janeiro e Porto Alegre. A tour agora segue para outras cidades da America Latina. A banda faz então sua última apresentação em Nova Iorque, no Madison Square Garden, em 02/04. Não, não tem mais ingressos...
fotos e vídeo: Marcelo Fubah, Camila Mazzini
the dream is over? i don't belive in james!