Apesar do nome da banda, da precisão das batidas e dos vocais sussurrados, Fujiya & Miyagi não é uma dupla japonesa. Mesmo que sua sonoridade traga à mente o krautrock, o grupo não é alemão, nem foi formado nos anos 70. Esse quarteto britânico não é óbvio como pode parecer para alguns, e seu último álbum é uma complexa jornada.
O F&M está na ativa há mais de uma década. Chamou a atenção da crítica com os grooves e com o rigor de seu segundo álbum, Transparent Things, de 2006. Lightbulbs, de 2008, apresentou um sentimento mais pop, afastando-se das influências que tornaram o grupo uma possibilidade tentadora.
A cada novo disco, a banda procurou inovar, mas Ventriloquizzing trabalha para restaurar o equilíbrio do F&M. Retomando o experimentalismo do álbum de estréia, Electro Karaoke In The Negative Style, de 2003, o grupo parece estar em busca de uma linguagem própria. Os ritmos e as latejantes linhas de baixo foram atenuados, enquanto texturas foram exploradas com crescentes camadas de sintetizadores analógicos e teclados.
As influências do F&M são diversas, mas a maneira como ele assimila e dispõe suas referências torna sua sonoridade peculiar. O grupo deve muito ao pulsante motorik do Neu! e aos grooves do Can, mas sua sonoridade não se restringe a isso - o disco tem variedade.
A faixa-título, por exemplo, apresenta uma introdução neo-clássica, mas progressivamente flerta com o industrial obscuro. O teclado satânico de "Minestrone" lembra The Doors. "Cat's Got Your Tongue" é dançante, mas convive harmoniosamente com o ruído ao fundo que surge em determinados momentos, como uma espécie de pane no sistema.
"Pills" e "Spilt Milk" mostram o aspecto hipnótico do álbum. Alguns poucos bleeps na primeira são suficientes para lhe dar uma atmosfera alucinatória e charmosa ao mesmo tempo, enquanto a segunda flutua no espaço graças a sua falta de ritmo. Outro aspecto importante a respeito de Ventriloquizzing é o fato de ser mais escuro do que seus antecessores. Os vocais paranóicos do cantor e guitarrista David Best colaboram para isso. Em "Sixteen Shades Of Black And Blue" e na ótima "YoYo", por exemplo, os sussurros acrescentam uma sensação sinistra de mau presságio. Talvez a conclusão do disco, a sombria "Universe", seja ainda mais inquietante.
Mas ainda que o álbum seja sombrio e as letras abordem temas como vício, estupidez e solidão, as músicas geralmente têm uma dose de alegria. O funk da faixa quatro, "Taiwanese Roots", é irresistível e inspira a dançar ao invés de refletir.
Assim, Ventriloquizzing encontra o quarteto mais experimental, embora não tenha abandonado sua estética dançante. Em outras palavras, o disco é simultaneamente familiar e único. Só não espere o pop de antigamente, pois não se trata de um álbum imediato. Como na experimentação os ritmos foram atenuados, o disco é difícil de ser absorvido.
Mas não desista. Após diversas audições, o álbum revela seus tesouros em uma mistura cerebral e visceral. Nesse trabalho, o Fujiya & Miyagi explorou novas sonoridades e referências, e o resultado é consistente e interessante.
Vivian Reis Vivian é jornalista e vê a música como um meio de comunicação.
Bom album .. bem diversificado e como disse na resenha buscando sua identidade. Mas prefiro o Lightbulbs, de 2008 que foi mais inovador para a época hoje muuuita coisa linearmente parecida por ai.