AS FAIXAS FORAM RETIRADAS A PEDIDO DA GRAVADORA DA ARTISTA. SORRY!Uma boa voz pode transformar a música. Pode ser o toque de ouro que resgata algo perdido, que traz uma beleza a mais ou mesmo o instrumento principal que mostra para a melodia o caminho a seguir. Cantar não é algo fácil: é a tarefa de transformar alguns poucos acordes em notas tão significativas que tudo em volta parece mais límpido, mais importante e mais necessário.
Mas grandes vozes podem se reduzir a nada quando pensadas como mero instrumento de preciosismo técnico ou malabarismos vocais. Se muitos cantores acabam caindo nessa armadilha,
Adele não está nessa categoria. É a sua voz única que transforma composições por vezes apenas medianas em pérolas. Exatamente por esse talento, seu segundo álbum de estúdio, que chega às lojas ainda este mês, é um dos lançamentos mais esperados de 2011.
A inglesinha tímida cresceu: seu primeiro álbum,
19, traz como título a idade que a cantora tinha quando compôs as músicas do disco, que falam sobre depressão, amor, abandono e melancolia. A sonoridade delicada e feita para emocionar foi pensada ao lado de uma garrafa de whisky e de seu piano, cercada por lembranças de amores antigos e perspectivas para o futuro. Agora com
21 (o título de seu novo trabalho), Adele está pronta para retomar a beleza de sua voz em um álbum mais regular e com composições mais trabalhadas que em seu primeiro trabalho.
O primeiro elemento que chama a atenção no novo álbum de Adele é uma mudança em sua proposta: a cantora começou sua carreira chamando a atenção em uma fase em que Amy Winehouse ditava mudanças colocando seu soul vintage com elementos contemporâneos em um contexto mainstream diretamente para as paradas de sucesso.
Adele, assim como Mayer Hawthorne, Raphael Saadiq e Eli "Paperboy" Reed, compartilham do gosto por esse neo-soul, refazendo os passos do passado com um novo frescor - se aliando assim ao trabalho de artistas veteranos como Cee-Lo Green e Sharon Jones & The Dap Kings, que há tempos vinham investindo nesse som mas sem ter o mesmo apelo entre o grande público.
Em
21, entretanto, esse caminho mudou um pouco - em vez de continuar seguindo sua sonoridade à risca, Adele resolveu tomar esses elementos do soul como pré-concepção de sua identidade como artista, absorvendo suas influências ao mesmo tempo em que começava a pensar em novos rumos.
O novo álbum da cantora é essencialmente pop, repleto de canções contagiantes, com refrões fáceis, coros para cantar junto e melodias de fazer o mais cético dos críticos esboçar um sorriso. A produção de Paul Epworth (que já fez remixes para artistas como Florence + The Machine e U2) e do mago Rick Rubin (Johnny Cash, Rage Against The Machine e Beastie Boys) fez bem às novas músicas de Adele, que parecem mais bem resolvidas do que em seu álbum de estreia e assumindo com mais segurança seu lado pop.
A comparação pode parecer estranha, mas Rick Rubin fez com Adele o mesmo que fez pelo Linkin Park. A banda, que estava perdida e procurando por uma nova sonoridade, encontrou aquilo que sempre quis ser sob a produção de Rick Rubin, e foi isso que aconteceu com Adele - a cantora encontrou seu rumo e finalmente consegue colocar para fora todo o seu talento sem precisar fazer concessões.
19 é um álbum encantador, mas só tem duas canções realmente memoráveis, os singles "Chasing Pavements" e "Hometown Glory". Já
21 pode dizer mais do que isso, com "Rolling In The Deep" (definida pela cantora como uma música "dark bluesy gospel disco tune"), "Turning Tables", "Don't You Remember" e "Lovesong", cover do The Cure.
As composições deste novo álbum são bastante diferentes entre si, mas seguem o mesmo padrão em um elemento crucial: a simplicidade. Não simplismo - porque as músicas são muito mais complexas e bem produzidas do que em seu álbum de estreia -, e sim uma noção segura de que seu som se adapta melhor a uma sonoridade mais discreta do que a grandes arroubos técnicos.
21 é um álbum mais contido, que utiliza poucos elementos para causar mais efeito. E funciona.
21 é um álbum sobre amor incondicional. As pessoas podem ficar para trás, assim como as histórias, mas as sensações e lembranças permanecem - nem que seja apenas no eco da voz de Adele. Não é um álbum perfeito (tem altos e baixos e perde um pouco o ritmo em alguns momentos), mas como um todo é exatamente o trabalho que a cantora precisava para entrar de vez no mainstream e renovar sua imagem.