Muito se falou sobre a Amy Winehouse no Brasil: que ela tropeçou no palco, que dava goles de uma bebida misteriosa no palco, que coçou o nariz, que foi pra balada após o show em SP e quase bateu com a cara num poste, que errou letra de música. E é uma pena que esse frisson meio tétrico em torno da notória cantora tire o brilho musical do que é fácil um dos festivais mais legais que pintaram no Brasil recentemente: o Summer Soul Festival.
Com datas em Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo, o Summer Soul criado pela produtora Mondo Entretenimento não é um festival de soul music, e sim um festival de verão. Mas a vertente que batizou esse primeiro lineup pode (e, na nossa opinião, deve) continuar nas próximas edições - a produtora já avisou que o evento deve se repetir em 2012.
A edição que o rraurl.com viu foi a de São Paulo, naquele feio espaço chamado Arena Anhembi que a Prefeitura insiste em forçar para os eventos na cidade. A chuva que castiga o sudeste desde o fim do ano passado deu uma trégua pelo menos nessa noite, o que permitiu que o público (estimado em 30.000 pessoas) chegasse com calma e sem dramas no local - a saída após o último show não foi tão suave, com falta de táxis e congestionamentos consideráveis no entorno do Anhembi.
A parte nacional do lineup fez os primeiros dois shows: Miranda Kassin e André Frateschi e o coletivo Instituto esquentaram o palco enquanto o público começava a tomar suas distantes posições - uma larga e vazia "pista premium" (pela qual os pagantes desembolsaram algo entre R$500 e R$700 por cabeça) ocupava o espaço entre o palco e a galera.
Com um ligeiro atraso o norte-americano de Detroit
Mayer Hawthorne e sua banda The County, tomaram o palco do Summer Soul Festival por volta das 20h20. Apenas parte do público havia chegado ao Anhembi e a tal "pista premium" foi aos poucos sendo ocupada. Talvez por isso a apresentação de Hawthorne, apesar de seu enorme carisma e esforços para interagir com o público tenha sido um pouco fria. Possivelmente quase ninguém conhecia sua música, recente demais para os padrões do mainstream brasileiro: seu primeiro álbum
A Strange Arrangement (que o rraurl comentou lá em 2009,
leia) acabou de sair aqui.
Durante pouco menos de uma hora, Hawthorne e banda embalaram a tímida plateia com ótimas execuções das faixas de seu curto repertório. Ao som de "Maybe So, Maybe No", "Your Easy Lovin' Ain't Pleasin' Nothin'", "Just Ain't Gonna Work Out" e até uma cover de "Beautiful" do rapper Snoop Dog, o músico de Detroit mostrou que faz jus às suas origens inclusive na forma de se vestir e falar.
Logo após a apresentação de Hawthorne, foi a vez da promissora
Janelle Monáe, que tem apenas 25 anos, energia, personalidade e poder vocal invejável. A escolha do setlist do show da cantora pode soar um tanto descoordanada, alternando momentos explosivos com algumas baladas como "Smile" esfriando um pouco o público, que se surpreendeu quando Monáe começou a pintar um quadro no meio de sua apresentação.
Bizarrices à parte, Janelle Monáe fez um excelente show, esbanjou energia e habilidades com sua voz e dançou a ponto de despencar seu topetão com bastante fôlego ao performar canções como os hits "Tightrope", "Cold War" e "Faster" lá pelo meio do show.
Se
Archandroid, de 2010, não é exatamente empolgante ao contar a história de uma androide com sentimentos que se apaixona por um humano, ao vivo Monáe e sua banda são o oposto. A jovem cantora fez espetáculo admiravelmente bom, que certamente vai melhorar com tempo e experiência.
Daí por volta de 23h40 o público, tanto da pista premium quanto da pista comum, se acotovelava impaciente esperando
Amy Winehouse aparecer. A cantora foi ovacionada quando deu o ar da graça caminhando acanhada até o centro do palco decorado com uma enorme e desnecessária bandeira do Brasil que levava seu nome. Amy mal se comunicou com a plateia, que subia nos calcanhares tentando a todo momento capturar algum deslize da inglesa que mexia no nariz, coçava o cotovelo esquerdo e cantava, muitas vezes fora do microfone, com a voz oscilante olhando para o nada.
Enquanto Amy titubeava nas canções que fizeram seu álbum
Back To Black de 2006 um dos mais vendidos na década, o público não vacilava e cantava em coro hits como "Tears Dry On Their Own" e uma versão empobrecida de "Rehab", entre outros. A cantora também lançou mão de versões para músicas de Tony Bennett, "Boulevard Of Broken Dreams", The Specials "You're wondering now" e Lovers Never Say Goodbye", The Flamingos. O bom momento do show foi logo no começo, quando, embalada pela voz do público, Amy mostrou do que é capaz quando consegue manter o foco:
Como esperado, a cantora saiu do palco durante a apresentação e deixou o microfone nas mãos de Zalon Thompson, membro de sua banda, que aliás segurou vocalmente boa parte da performance de Winehouse. Já no bis a cantora soltou a voz e com alguma empolgação cantou "Valerie" da banda The Zutons, além de "Me And Mr. Jones" e "You know That I'm No Good", que encerrou a noite e a turnê de Amy no Brasil.
Alguns problemas na decorrer do Summer Soul Festival deixaram transparecer a precariedade no planejamento de eventos desse porte em São Paulo. Faltou bebida, faltaram táxis na saída e a famigerada pista premium prejudica quem não pode pagar pelo valor abusivo dos ingressos VIP e ainda por cima ficou sem ver parte do show de Amy em decorrência de falhas no telão.
Dicas para uma próxima edição? Em primeiro lugar uma área VIP lateral que permita ao público ficar perto do show independente do valor pago. E, musicalmente, Jamie Lidell, Eli "Paperboy" Reed, Aloe Blacc, John Legend and The Roots, Adele e Fitz & The Tantrums.
A combinação de talento e profissionalismo promete um futuro com mais e mais sucesso para Janelle. Já o futuro de Amy, obviamente, permanece incerto. E isso é triste, considerando o enorme potencial dela. Ela parece completamente desestruturada.
Seja lá como for, enquanto não se recupera totalmente, ela já sabe q pode vir ao Brasil garantir a compra do mês [do ano] sem fazer nada. Como disse o André Barcinski, "Foi a grana mais fácil que ela já ganhou.".