O americano Brendan Angelides cria um dos álbuns mais inesperados do ano, unindo a arte de fazer batidas a uma entrega pessoal comovente.
2010 foi o ano da consolidação dos beatmakers americanos como forças motrizes de uma nova musicalidade eletrônica. Depois de anos e anos de um cultura amplamente influenciada pelo hip hop, nada mais natural que o surgimento de uma nova geração de produtores americanos que não tem o menor pudor em subverter os métodos tradicionais, desconstruindo uma sonoridade gasta e cheia de clichês e usando os milhões de cacos que restaram para construir algo fresco. E o americano Brendan Angelides traz muita dinamite pra ajudar na implosão.
Produzindo beats desde 1999, Brendan reside na ensolarada São Francisco e já lançou faixas por selos de renome como
Warp e
Planet Mu. Sua carreira inclui 2 LPs prévios, lançados por conta própria. Até então, Eskmo usava a manjada tática de se prender a estruturas amigáveis a djs para ganhar notoriedade. Mas tudo começou a mudar com seu envolvimento com figuras proeminentes dessa eletrônica mais solta e livre, como o brasileiro
Amon Tobin,
Nosaj Thing e
Flying Lotus. E nisso, uma sonoridade poderosa surgiu.
"Durante esses dois últimos anos, sinto que me livrei dessas fórmulas e apenas estou escrevendo as canções que eu quero escrever. Foi um retorno ao que me excitava na música eletrônica quando comecei, criar esses pequenos universos sonoros e compor músicas". E de fato, os universos sonoros criados por Brendan em seu primeiro álbum, lançado pelo conceituado selo
Ninja Tune, são de tirar o fôlego.
"Cloudlight", a faixa de abertura do disco, já dá indícios do que vem a seguir. Uma qualidade material forte cria tensão pelo espectro sonoro. A voz rouca e torpe de Angelides ecoa de forma melancólica por sobre as batidas secas e acordes menores. Um blues eletrônico naturalista. A voz muito característica de Eskmo aparece por todo o álbum. Apesar de não ser o maior dos crooners, suas cordas vocais tem uma textura que agrada (uma lição muito bem ensinada pelo mais recente xerife de detroit
Matthew Dear: intenção clara muitas vezes conta mais do que técnica apurada).
Em faixas como "Moving Glowstreams", Eskmo é imagético. Cada som remete a uma propriedade física muito específica de um objeto, uma correspondência física com o mundo material. Beat Concreto. Quase uma influência poltergeist das frequências sonoras sobre um cenário determinado. Fechando os olhos se imagina: copos tilintando sobre uma mesa, talheres se agitando e se chocando com louça branca, janelas abertas, cadeiras flutuando e pads que movimentam uma brisa colorida que preenche a atmosfera e arrepia os pêlos do antebraço.
E logo em seguida, a psicodelia no seu sentido mais poderoso, da total desconexão com as causalidades. Em faixas como "Starships", Brendan Angelides cria sons impossíveis, gerados por objetos impossíveis, em planos de existência remota e completamente desconhecidos. Coisa de ficção científica muito avançada. Tudo com uma clareza de dicção, uma assertividade muito interessante, que lembra a mesma firmeza de propósito de gente como
Richard D. James e
Tom Jenkinson.
Flash Content
Eskmo - Moving Glowstream (mp3)
Flash Content
Eskmo - Starships (mp3)
Flash Content
Eskmo - We Have Invisible Friends (Washed Mix) (mp3)
Musicalmente, os ritmos se encadeiam de forma errática. Batidas quebradas, batidas que fogem inesperadamente do andamento e deixam você um tanto quanto perdido. Mudanças bruscas de tempo. Em alguns momentos, a sonoridade se fratura de forma tão abstrata que a única coisa a fazer é se soltar e deixar-se envolver pelas belas melodias de forma completa, observando atônito todas formas e cores e ângulos. Se George Braque, o pintor cubista, vivesse hoje fazendo beats via Ableton Live, ele e Brendan Angelides seriam muito bons amigos.
"My Gears Are Starting to Tremble" fecha o álbum de forma agonizante. Um trabalho de tamanha entrega pessoal, desenvolvido com tamanha destreza e sinceridade deve ser mesmo extenunate. Pena que o disco chegou no finalzinho de 2010. Caso tivesse mais tempo para ser absorvido por mais gente, figuraria fácil em grande parte das listas de melhores do ano.
;)