A década acaba com sonoridades DIY a todo vapor, com a cena chill wave emplacando um nome atrás do outro. E se Ariel Pink fecha o ano com "
Round and Round" como uma das melhores músicas lançadas em 2010, conheça a banda e a sonoridade lo-fi de sua namorada, a bonita e esquisitona Geneva Jacuzzi, que já vem lançado faixas esparsas há algum par de anos e este ano compilou seu primeiro álbum autoral,
Lamaze.
Se o som do Ariel Pink e a banda Haunted Grafitti é uma reinvenção amadora e pós-punk do R&B mela-cueca das FMs,
Lamaze é um tratado do synth-pop performático e fashionista - "cresci ouvindo Duran Duran inconscientemente no rádio", conta Geneva, 28 anos de idade.
Drama

O maior hit do disco é uma música lançada lá em 2008, "Love Cabooze", em que Ariel Pink toca os teclados, arruma os samples ao longo da faixa e masteriza a canção (ele também fez o acabamento do álbum da cantora). A música é como se
Gina X tivesse menos de 30 anos e fosse crescida em festinhas de electroclash em Nova York: afetação, glamour, abravanismo, bom-humor e muita sensualidade, num grude sem refrão certo, os teclados e a percussão falhando de vez em quando, como manda os dogmas do lo-fi.
O clipe é espacial e dionisíaco, todo esfumaçado, daqueles que passam de madrugada na TV e te deixam surpreso. Sente o drama.
LOVE CABOOZEÉ curioso perceber em
Lamaze os paradoxos do lo-fi. Enquanto as referências são explícitas - quase um pastiche, a espontaneidade de se fazer o que bem entende é mais do que divertida, acaba gerando uma identidade sempre difusa, pop e experimentalóide ao mesmo tempo, já que todas as faixas do álbum são bem acabas e hipnóticas. "Bad Moods" tem outro clipe divertido (alguém vai acabar comparando com Lady Gaga), e mistura uma levada reggae nos vocais com synths a la Human League em seus primórdios com um 8-bit difuso.
BAD MOODSMas no caso deste álbum da moçoila americana, a pasteurização ao longo da audição do álbum é inevitável. Sem refrões muito audíveis, o disco é progressivo e contínuo demais em sua lenga-lenga synth e pode entendiar o ouvinte mais acelerado. Pontos altos são quando os synths estão afiados, caso dos dois singles acima, e de outros momentos inspiradas como "Clothes on the Bed". Em faixas como "Nonsense Nonsense" e "Future Past" é um pouco agonizante como Geneva se perde nos ecos, quase uma fritação espacial.
O disco rendeu a Geneva uma consistente turnê europeia entre outubro e novembro, com dezenas de datas pelas capitais que importam e até por cidades como Istambul. Ela também abriu o show dos ainda mais esquisitos do Ratatat. A piração synth vem de seu passado goth, quando ela tocava na banda Bubonic Plague (!), que diz ela ter feito sucesso entre os deprimidos roqueiros de Los Angeles. Neste caldeirão de referências dark, é louvável sua evolução para um pop experimental, performático e fashionista, tendo em vista que hoje em dia ser deprê e indecifrável parece ser o mote da música dark atual (vide Fever Ray, Zola Jesus e a tal cena witch house).

"Do I Sad?" é a única música inédita gravada para
Lamaze e tem toda uma melancolia de versos fáceis e de poucas palavras, com o backing vocal computadorizado ao fundo. A percussão é bem A-Ha e o teclado está grandioso, cantando com muito mais harmonia que a própria Geneva. Ela é linda, e num tempo de máscaras e nome de bandas indecifráveis (TRI▲NGLE CORE?), seu synth-pop adocicável tem apelo forte e seu nome deve continuar por aí num futuro próximo, já que seu namorado Ariel Pink virou um nomão e pode catapultá-la para maiores audiências.
"Gray Wave City" e "Sand Strap" fecham o álbum mais cavernosas, duas pérolas lo-fi bem produzidas e que perdem um pouco a cara de demo - soam um pouco como um Ladytron juvenil, punk e erótico. E se o disco cansa pela linearidade ao longo de suas 15 músicas, é uma boa pedida para o shuffle nosso de cada dia, pois Geneva apesar de ser chill-lo-fi-demo-wave, faz um electro-pop divertido e consistente, e é isso que importa neste contexto.