John Legend é o tipo de menino prodígio que volta e meia surge na música dos Estados Unidos. Assim como Trombone Shorty e outros, começou a tocar muito cedo (aos cinco anos), de Ohio foi ao superestrelato e reconhecimento mundial - com
Get Lifted, seu debut lançado em 2004, levou para casa três Grammy: melhor álbum e cantor de r&b e artista revelação - sempre acompanhado por seu piano.
Já o grupo The Roots sempre esteve à margem das luzes da ribalta do rap. Na cena desde 1989, os nativos da Filadélfia são parte de uma geração de bandas de hip hop que trouxe para o lado dos samples e das batidas pré-gravadas (ou para seu lugar) instrumentos tradicionais e elementos de jazz, funk, soul e rock; e trocou o discurso ‘o pobrema é do sistema' por mensagens positivas ou simplesmente pela ausência de rimas (estão nesse balaio Arrested Development, De La Soul e Fugees, para citar só três).
Em comum, Legend e The Roots tinham até pouco tempo o amor pela música dos anos 60 e 70 e um amigo: Barack Obama, também conhecido como Presidente dos EUA. Desde setembro último, têm também um disco:
Wake Up! (sim, o nome vem
da cover do Arcade Fire tocada por eles, e que não entrou no setlist do álbum).
A parceria começou durante a campanha de Obama à presidência da terra do tio sam; unidos pela política, os rappers - se é que se pode encaixar o The Roots aí - e o cantor/pianista tocaram juntos algumas canções soul de viés politizado, canções estas que de alguma forma refletiam o clima da campanha do então futuro primeiro presidente negro da América. Yes, we can!
De uma música à outra, a coisa toda evoluiu para as 12 tracks de
Wake Up!. Com exceção de "Shine", última do álbum, todas as outras são côveres de faixas em geral obscuras da soul music panfletária da época dos panteras negras, do pós-Woodstock e da guerra do Vietnã, quando os negros norte-americanos buscavam afirmação e procuravam se expressar também através da música.
A crítica "Hard Times", lançada em 1975 por Curtis Mayfield, ganha roupagem funkeira e põe lado a lado a voz polida de Legend e as rimas pesadas de Black Tought (rapper do The Roots), e dá a dica do que vem a seguir no disco. O poder de fogo da banda servindo de apoio e por muitas vezes suplantando os dotes vocais do cantor.
"Wake Up Everybody", originalmente gravada por Harold Melvin & The Blue Notes em 76, traz os convidados Melanie Fiona e Common soltando o gogó (também participam de Wake Up! C.L. Smooth e Malik Yusef). O álbum pega fogo em "Our Generation (Hope Of The World)", côver de Ernie Hines feita sob medida para gastar sola de sapatos.
Uma boa surpresa é a versão para "Humanity (Love The Way It Should Be)" de Prince Lincoln Thompson, um reggae que mantém muito do original, onde John Legend mostra que poderia abandonar o r & b, deixar crescer dreadlocks e trocar os martinis pela taba jamaicana sem o menor problema.
Há outros bons momentos no disco, claro. "Compared To What", de Eugene McDaniels, tem as batidas quebradas do dap funk; "Little Ghetto Boy", composta por Donny Hathaway, abre como um rap para depois se tornar a mais jazzy do álbum, e a côver de Marvin Gaye "Wholy Holy" emociona quase tanto quanto a versão original presente no clássico de 1971 What's Goin' On. Mas...
Fica no ar a impressão de que
Wake Up! foi gravado numa determinada circunstância (Obama, lembra?) e lançado especificamente para o público norte-americano. E deixando de lado a ‘análise política' e focando na música, há duas perguntas que não calam ao se ouvir o disco: O The Roots conseguiria fazê-lo sem John Legend? Yes, they could! E John Legend, conseguiria fazê-lo sem o The Roots?
Apenas uma pequena observação em relação à seu texto: A canção Hard Times, antes da versão citada por você, fora lançada (e penso eu composta) por Baby Huey, que faleceu precocemente em 1970.