O quinto álbum de estúdio de
Kanye West é um rito de passagem. Quem
acompanha a trajetória do rapper e produtor norte-americano sabe que sua carreira está no limiar entre o esquecimento e a posteridade - fanfarrão, egocêntrico, megalomaníaco, contraditório e imprevisível, West transformou sua imagem de artista promissor na figura caricata de um homem fora de controle que serve como motivo de chacota.
Descontrolado, o músico arrancou o microfone da delicada Taylor Swift, que havia acabado de ganhar o prêmio de Melhor Vídeo na cerimônia do VMA em 2009, interrompendo o discurso da cantora e afirmando que na verdade o prêmio pertencia a Beyoncé. Depois de muitas explicações contraditórias e bizarras, discursos sem sentido e um hiato musical de um ano, o rapper retornou aos holofotes com uma única certeza - é agora ou nunca. Ou será uma recuperação magistral, ou sua imagem cairá no esquecimento, ao lado de tantos artistas cujo ego não foi capaz de produzir excelência musical. Mas Kanye West conseguiu.
My Beautiful Dark Twisted Fantasy é tão exagerado quando seu título sugere, mas aqui a megalomania de West serviu bem a seus propósitos artísticos. O rapper conseguiu direcionar os elementos autodestrutivos de sua personalidade para a música, criando uma epópeia da vida moderna nos EUA e de sua própria existência dentro da exigente e enlouquecedora indústria do showbiz.
"Sorry for the night, demons still visit me. The plan was to drink until the pain is over, but what's worse: the pain or the hangover?", pergunta West na primeira faixa do álbum, que começa com um sample manjado de "In High Places", de Mike Oldfield. Esta faixa dá o tom do álbum: metalinguagem (Kanye West falando de Kanye West, claro), boas melodias, produção esmerada e impressionante e uma vontade de ser épico, magistral e vários outros adjetivos ostentosos. Com certeza o rapper tinha um dicionário só deles na cabeceira da cama enquanto escrevia este álbum.
"Gorgeous", faixa com a participação de
Kid Cudi e Raekwon, traz um pouco da já habitual polêmica de West, com versos como "I treat cash the way the government treats AIDS. I won't be satisfied 'till all my niggas get it, get it?". Mas o que parecia apenas ser uma letra vazia em sua polêmica se transforma em algo a mais com outros questionamentos do rapper, que tenta compreender o papel do hip hop no mundo hoje. Como toda reflexão levantada pelo rapper, há um pouco de fanfarronice, ingenuidade e falta de profundidade nos argumentos, mas a inquietação é verdadeira - "Is hip hop just a euphemism for a new religion? The soul music of the slaves that the youth is missin'".
O tom grandioso das perguntas de Kanye West é o aperitivo para a dose completa de
My Beautiful Dark Twisted Fantasy. Se você já leu uma história que trata de grandes arquétipos, de heróis e heroínas, de reis poderosos de outrora, de mitologias de civilizações antigas e se imaginou como o protagonista de uma das canções de menestréis, sabe exatamente do que Kanye West, o garoto que gostaria de ser um super-herói, está falando.
Todos nós já quisemos ser super-heróis. Na infância e até mesmo no começo da adolescência, sonhamos em participar de grandes narrativas, de histórias tão importantes quanto o próprio mundo. E Kanye West criou neste álbum a epopéia perfeita de quem busca por essa utopia de viver em um mundo heróico criado a partir da própria imaginação. Em "Power", o músico questiona seu papel dentro dessa fantasia: "nenhum homem deveria ser todo-poderoso".
Kanye West provavelmente era aquele garoto que, se assistisse Matrix, teria a certeza de que é O Escolhido para salvar o mundo do poder das máquinas; se lesse Harry Potter, saberia que é O Eleito para acabar com a vilania de Lord Voldemort; e se estivesse dentro da fantasia de J.R.R. Tolkien, com certeza seria o Senhor dos Anéis em pessoa. Kanye West é um personagem que vive de mitologias, e cria para si mesmo, a cada nova música, um universo particular no qual é intocável e pode dizer o que quiser.
Kanye West é senhor dos próprios mitos, e, a partir deste mundo particular e caricato de
My Beautiful Dark Twisted Fantasy, conseguiu criar um dos trabalhos mais significativos, interessantes e necessários de 2010. Todo mundo riu do fanfarrão que afundou na chacota depois VMA, mas aqui está ele de volta, criando pérolas como "All of The Lights", cheia de orquestrações e participações especiais, a triunfante "So Appalled" ("everything I dream, motherfuckers, I'm watching is take shape. While to you, I'm just a young rich nigga that lacks faith"), a paradoxal "Lost In The World" ("You're my heaven, you're my hell") e a psicótica "Monsters", com participação de Jay-Z, Rick Ross, Bon Iver e a raivosa Nicki Minaj.
O que esse álbum desperta é um pensamento curioso: reclamamos (com razão) de que Kanye West é tão exagerado em sua urgência que não merece ser levado a sério. Mas será que, no fim das contas, não é mais interessante um popstar que leve as coisas a sério demais do que artistas que fazem música como se esta fosse apenas um produto consumível, perecível e de fácil substituição? O que é melhor: a megalomania ou a indiferença?
OK OK, Kanye exagera (em "So Appalled", o rapper chega a dizer que "I wear my pride on my sleeve like a bracelet. If God had a iPod, I'd be on his playlist"), mas é inegável que é essa visão distorcida e grandiosa do mundo que transformou
My Beautiful Dark Twisted Fantasy em um álbum significativo. Ótimas músicas, coerência musical, produção certeira e melodias viciantes - este é um grande álbum, concordando com a visão de mundo representado por ele ou não.
My Beautiful Dark Twisted Fantasy está longe de ser perfeito, e Kanye West está longe de ser o maior artista negro dos EUA, como proclama aos quatro ventos. Mas provou que consegue mandar bem de uma maneira tão particular que é impossível desviar os olhos de seus próximos trabalhos.
"America was a bastard, the illegitimate daughter of the mother country whose legs were then spread around the world, and a rapist known as freedom, free doom". É esta frase, seguida pela pergunta "who will survive in America?", de um sample de Gill Scott-Heron, que encerra o álbum. Se ele vai sobreviver ou não, ainda não sabemos. Mas uma coisa é certa: Kanye pode se gabar de ter terminado o ano de 2010 com um excelente álbum na bagagem e uma honra ainda mais distinta - ter sido definido pelo ex-presidente dos EUA George W. Bush como "o momento mais desastroso de seu mandato". Way to go, Kanye West!
Parabéns pela resenha.
Jade: but a good one =)
Bruno: acho que é arte, sim. Já Flying Lotus... é poesia!