Planeta Terra 2010: vinte mil pessoas no melhor festival do ano
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ficha técnica
Nota: 4.5 / 5
Ano: 2010
Selo: B/Ferraz
Estilos: indie, pop
fotos
Planeta Terra 2010
22.11.10 15:55
Planeta Terra 2010
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Planeta Terra 2010: vinte mil pessoas no melhor festival do ano
22.11.10 15:15
Em sua quarta edição, a segunda no Playcenter, o festival Planeta Terra reuniu 20 mil pessoas de acordo com estimativas oficiais, em quase 10 horas de música em São Paulo.

Foi uma edição marcada por falsetes do pop e do glam rock colorido de of Montreal e Mika, além do rock noventista e nostálgico de Pavement e Smashing Pumpkins, todos atrações do Main Stage. Correndo por fora, Hot Chip, Yeasayer e Passion Pit destacaram-se no palco indie Gilette Hands Up, que teve ainda Empire of the Sun, Girl Talk e os brasileiros Holger e Hurtmold.

O Playcenter parecia de fato mais cheio que a edição de 2009, tendo em vista que os ingressos ao público estavam esgotados desde o começo de setembro. O tradicional parque de diversões paulistano recebeu o evento em uma abafada e bonita tarde de primavera, bem quente. Sem muitos incidentes notáveis, o Terra correu bem, com a mesma estrutura de 2009. Entre os problemas, vale menção às longas filas para comprar tickets e alguns gargalos de gente andando pelo parque quando acabavam os shows de cada um dos palcos. Vale comentar também a ausência do Looping Star, montanha-russa atrás do palco indie que está interditada após um incidente há poucos meses - nem as luzes noturnas foram mantidas -, e uma evacuação dos camarotes vips por alguns instantes, com a suspeita de que a estrutura não poderia aguentar o excesso de pessoas e de peso.

Hurtmold & Holger

O rraurl chegou cedo e viu o bonito show dos paulistanos do Hurtmold, sexteto tão associado ao experimentalismo e que no festival fez um show calmo e bem gostoso. Cowbells, bongôs, xilofone, sintetizadores e brincadeiras com o bass que variavam do funk e do dub deram o tom no show do grupo, que tem um pé inegável na música brasileira instrumental, mas sem cair para as formatações tão características (e caricaturáveis) da MPB - sem vocais, sobra tempo e espaço para o Hurtmold ir longe na criatividade, com os integrantes mudando de postos e instrumentos a cada música. Perfeito para abrir um festival, eles saíram ovacionados.

Enquanto no Main Stage os Novos Paulistas (coletivo formado por Dudu Tsuda, Tatá Aeroplano, Thiago Pethit, Tiê e Tulipa Ruiz) traziam a variedade de seus talentos, o Holger se preparava para começar sua apresentação no palco secundário. Pela primeira vez no Planeta Terra, os paulistanos do Holger mostraram carisma e segurança no palco tocando os sucessos do Sunga, recém-lançado álbum de estreia. Com o dia caindo ao lado do Castelo dos Horrores, a banda de integrantes multiinstrumentistas empolgou a plateia com sua fusão de ritmos que vão do eletrônico ao axé, deixando um ar de micareta indie no ar.

of Montreal

Foi dos esquisitões americanos do of Montreal o primeiro showzaço do palco principal. Kevin Barnes só apareceu depois de uma marionete de carpa gigante (!), armada de metralhadoras. Eram oito músicos no palco, com figurinos que iam da pelúcia a um japa tímido vestido de Elvis, fora os incansáveis dançarinos que trocavam de roupas a cada música: lycras de corpo inteiro, alieníginas furta-cor, máscaras de porco e outros absurdos, e o frontman Kevin Barnes vestido de uma colegial velha, numa ótima interpretação glam rock.

Of Montreal


O show foi baseado no excelente álbum de 2007 Hissing Fauna, Are You the Destroyer, fonte de hits e variações malucas de humores sonoros, disco esse que tirou o grupo do aninomato para o panteão célebre do indie experimental. "Coquet Croquette", do recente False Priest, abriu o show com guitarras afiadas e público bem doido, cantando junto. Ponto alto do show foi ver Kevin comandando como um maestro o falsette funky de "Gronlandic Edit", aquela faixa que tem o refrão cortado por uma brincadeira de coral bem "Bohemian Rhapsody" (Queen).

Mesmo com Kevin auxiliado por um bom punhado de playback e bases vocais pré-gravadas, esta música ao vivo mostrou o caos bem organizado do grupo. "A Sentence of Sorts in Kongsvinger", a faixa mais sentimental do disco de 2007, encerrou o show ao lado de um pôr do sol quente e lilás, celebrado também por Kevin.

Após o of Montreal entrou no palco um soundsytem cavernoso de dubstep, que musicou as intervenções do Mapping Video, apresentação audiovisual comandada pelo VJ Spetto. Para quem sentiu falta da eletrônica "de verdade" no evento, este momento lavou a alma: tenso, picotando hits como "Jahoova" e umas serras elétricas que disputavam o estouro da caixa com o bass. Sensacional.

Mika

E se o falsetto do neo glam rock deu o tom no fim de semana - vale lembrar o show do Scissor Sisters essa semana em SP, banda que seria perfeita no Terra ao lado de Mika e of Montreal -, o Main Stage do Playcenter virou uma epopeia do pop colorido, bem gay e cabaré com a apresentação grandiosa do inglês Mika, que não cansou de dizer que estava há cinco anos tentando vir para o Brasil. Mika é um pastiche que convence de tudo que o pop eletrônico já criou: tem a correria synth-pop de um Pet Shop Boys, a celebração de Kylie Minogue, o piano universal de Elton John, a pose de um George Michael juvenil e a voz e os passos de dança de um Freddie Mercury, responsabilidade que ele mesmo puxa pra si em "Grace Kelly", um dos hits que foram surpreendentemente cantandos em coro pelo público no festival.

MIKA


"Billy Brown" foi o ápice do palco bonito de Mika, uma faixa grandiosa que ilustrava o palco meio de ópera do cantor, cheio de flores, palcos pneumáticos e figurinos clássicos de marinheiro, de dança de salão e muita pose gay. Afetado, poser, e também superficial ao tentar fazer um número playback de percurssão a la "Stomp", Mika é como um Stewie ("Family Guy") crescido: arrogante, cheio de si e teatralmente divertido. Foi a maior experiência pop que o Terra já teve, e olha que o evento já teve Lily Allen, CSS. E numa semana marcada por violência e falatório sobre gays e homofobia, foi bonito ver a pista do Terra virar uma boate gay bem grande no principal evento de música alternativa do país.

YEASAYER, PASSION PIT E PHOENIX

Aqui o Terra mostrou a extensão do acerto do lineup: três bandas em ótimos momentos. O Phoenix, a mais antiga delas, está em momentos finais da tour de divulgação do excepcionalmente bem-sucedido Wolfgang Amadeus Phoenix e fez um show belo mas nada além de correto. É uma banda diferente daquela que veio a São Paulo no Nokia Trends 2007, bem mais experiente e certa de seu sucesso por onde quer que vá. O repertorio do show é cheio de hits: teve "If I Ever Fell Beter", teve "1901" (com direito ao já batido crowd surfing do vocalista), teve "Liztomania", teve "Long Distance Call". Grande show, sem surpresas.

Surpreso ficou quem deu chance ao Yeasayer e Passion Pit, ambos no pequeno palco "indie". O primeiro vem de dois álbuns lançados e é aposta do rraurl desde 2008 e fez um show animado com direito a anuncios empolgados do vocalista ("hey, minha exposa é brasileira, as brasileiras são as mulheres mais bonitas do mundo!") e empolgação do público em semi-hits como "Madder Red", "One", "Ambling Alp" e "Wait for Summer".

Yeasayer


E o Passion Pit fez o muita gente considerou o melhor show da noite - pena que para pouca gente, já que foi na mesma hora do Phoenix. É uma banda com apenas um álbum lançado, mas com segurança no palco e mais que um punhado de ótimas músicas.



SHAKING A FIST COM O HOT CHIP

Num palco cheio de sintetizadores, baterias e percussões meticulosamente montando pela própria banda, o Hot Chip foi o show mais bacana do palco indie, exemplo de uma banda em seu ápice, em plena forma. Joe Goddard mostrava fôlego para acompanhar a velocidade incessante de seus diversos sintetizadores, e Alexis Taylor canta como quem nasceu para fazer isso. Al Doyle corre de um lado por outro cantando, tocando guitarra e mexendo num latão estranho que fazia efeitos bem orientais e malucos para faixas como "Over and Over", "Shake a Fist", "One Life Stand" e "Boy From School" - foi uma saraivada de hits um atrás do outro, numa disputa muito bem tocada entre o orgânico e os beats, tão grandiosa que lá pelo final atingiu um estado progressivo maluco, já que a banda não se preocupava muito em parar para receber aplausos.

Empire of the Sun

E quem continuou no palco indie viu que o Hot Chip tocou muito quando os australianos do Empire of the Sun subiram no palco. Luke Steele veio bem maquiado e com um cocar pesado bizarro de facas de inox (!!). Cada música levava cinco minutos para pegar no tranco e atingir aquele estado de extâse techno-pop dos hits do único CD do grupo. Mas isso porque os beats tinham uma cara de base pré-gravada e eram caídos, fracos. O visual, que é todo cheio de um conceito de geleiras, landscapes, montanhas e elementos espaciais, são na real uma ideia que só faz sentido na cabeça de Steele e ao vivo parece uma grande proteção de tela de Windows, com bailarinos fazendo o que o Fischerspooner fazia melhor há oito anos.

Se o Hot Chip deixou todo mundo chacoalhando o pulso em "Shake a Fist", a cara de tédio de grande parte do público durante o Empire of the Sun era evidente. O show mais datado e brega em anos.

EOTS


Rock on: PAVEMENT vs SMASHING PUMPKINS

A aguardada disputa entre os ícones dos anos 90 acabou por não acontecer. Pelo menos não de forma clara. Os resistentes fãs de Smashing Pumpkins não arredaram pé do gargarejo no palco principal e aguentaram com resignação a gritaria do público do Pavement em "Range Life", em que ironicamente a banda liderada por Stephen Malkmus avacalha com a turma de Billy Corgan e cia chamando-os de "vendidos".

Polêmicas à parte e com arena do Main Stage visivelmente esvaziada, o Pavement fez um show correto e tocou tudo o que todo mundo queria ouvir após o hiato de quase uma década sem apresentações. Talvez pelo fim da turnê ou pelo cansaço dos palcos que os levaram a parar em primeiro lugar, Malkmus aparentava desânimo e sua perfomance foi amuada, ao contrário da energia e disposição que demonstrou lá no começo da temporada, no Primavera Sound, em Barcelona. Os fãs fervorosos pouco se importaram ou notaram o peso dos anos na apresentação do vocalista de uma das principais bandas alternativas da década de 90, cantando alto e celebrando a onda de revivals que trouxe o Pavement de volta. A banda se despediu com uma linda execução de "Here", a balada do álbum Slanted and Enchanted, de 1992. Sem bis.

Pavement


Pouco depois o palco principal do Terra começou a encher de novo, era chegada a vez do Smashing Pumpkins e banda mostrarem serviço para sua horda de fãs saudosos. Billy Corgan e banda tocaram durante uma hora e meia e finalizaram a noite com "Heavy Metal Machine" do Machina, de 2000. A escolha do setlist certamente desagradou aos fãs de ocasião, já que Corgan privilegiou faixas mais obscuras de seus trabalhos e alterou os arranjos de tantas outras, possivelmente querendo provar que sua música muda com o tempo. As mumunhas de Billy Corgan serviram para tornar sua apresentação chata e desinteressante, comentário unânime entre os que iam embora frustrados sem poder ouvir hits como "1979". Como saldo, o Smashing Pumpkins comoveu apenas os mais fieis.

Girl Talk

Se em 2009 Etienne de Crecy e Anthony Rother fizeram bons encerramentos no evento, em 2010 coube ao americano Girl Talk encerrar o evento com uma tal 3rd Band, que imaginávamos que fosse algo diferente de sua apresentação no TIM Festival 2007, mas tratou-se apenas de um monte de gente dançando no palco ao lado do cara, todo mundo bem doidão no melhor estilo Crew de ser. O mash-up de Girl Talk é um pouco baseado demais nos vocais de rappers e MCs, mas dosa bem os samples de linhas secundárias de vocais. Poderia dar atenção mais ao bass, a um tipo de beat b-more ou ao estilo gordo de Snoopy Dogg. Mas ele pelo menos deixa certos refrões rolarem inteiros, sem ser aquele tipo de DJ de mash-up que faz coito interrompido. Foi o caso em "Thriller", do Michael Jackson.

Com um pouquinho de mau-humor de ver aquela gente dançando e curtindo "demais", dá para criticar e dizer que era um momento perfeito para algum artista que constroi beats de verdade, tipo um Flying Lotus ou um DJ Yoda (perfeitos no Terra, não?), nomes mais interessantes ao invés de um branquelo bombando pra caralho tocando "Uh Tererê" e jogando papel higiênico pro alto. Mas foi divertido aquele monte de bexiga estourando papel picado, e geral já estava com alma lavada depois de tanto show e, principalmente, experiências sonoras e de entretenimento, coisas que o Terra tem proporcionado tão bem a cada ano, fazendo jus ao fato de ser o festival mais esperado para quem gosta de música alternativa. Que venha 2011!

GT


fotos: Marcelo Fubah

Jade Augusto Gola
Jade Augusto Gola
Ilegal, imoral e engorda
Mariana Rezende
Mariana Rezende
Gaía Passarelli
Gaía Passarelli
comentários
4 comentários
renato paiva
renato paiva(24.12.10)
0AprovadoQueima
Q bom ver q o rraurl acompanhou um dos melhores shows do ano...passion pit. Foi inusitado não conhecia a banda comecei a assistir e não pude arredar o pe do palco independente do terra!
Pra mim os melhores foram Smashing Pumpkins e Hot Chip...
fueloop
fueloop(23.11.10)
3AprovadoQueima
...queria ir só pra ver empire of the sun, adoro!
Lucas Borchardt
Lucas Borchardt(22.11.10)
2AprovadoQueima
Achei o Planeta Terra 2010 um dos melhores festivais que já tivemos no Brasil...as filas são normais (como qualquer outro festival), nada fora do comum. Só acho que o Girl Talk foi além do que foi escrito aqui. Para um fim de festival, não da para negar um artista que manda hits em mashups botando MUITA gente para dançar...me impressionei com o número de pessoas que estavam lá, vibrando, gritando, pulando...além do mais, cá entre nós, ele sabe os momentos certos de botar cada refrão...valeu Planeta Terra, valeu as bandas, valeu a organização...que venha 2011!!!