Quem ouviu com alguma insistência o ótimo Alegranza, de 2008, ainda deve sentir aquelas samples ensolaradas rodopiando em algum espaço profundo da cabeça. Alegria colorida, embriagada, um produtor de Barcelona perdendo a mão no uso de loops repetitivos - que de alguma maneira não soavam monótonos. E dá-lhe tambores, pratos e guitarras latinas junto aos cânticos desconexos de Pablo Diaz-Reixa.
Desde aquele disco, o homem por trás do projeto El Guincho se mostrou um cara cheio de boas ideias. Em julho deste ano lançou um EP todo feito por regravações de temas tradicionais de compositores latino-americanos (cubanos na maioria): Piratas de Sudamérica, que mostrou à molecada como aqueles velhinhos eram bons. (Já escutou "Frutas Del Caney"?) E agora Díaz-Reixa incursa por um caminho menos hipnótico e menos chapado: o álbum Pop Negro, lançado pela Young Turks e disponível para streaming.
Os vocais ininteligíveis ouvidos em Alegranza deram espaço a versos lineares, cantados num espanhol de acento acessível, quase radiofônico. O timbre de Pablo combina dum jeito preciso com a sonoridade do disco: juvenil, rasgado, parece emergir direto do pulmão. E apesar de Pop Negro soar menos inconseqüente que seu antecessor na forma, ainda há transgressão aqui: os arranjos se constroem sobre remendos instrumentais, misto de marimbas, teclados esfumaçados, percussão abafada...
Ouça com atenção a sequência de abertura "Bombay" e "Novias", duas saborosas doses de felicidade parassimpática, garantidas pela sonoridade metálica e flutuante das faixas. Materializam uma noite quente sob as estrelas, à beira do mar em Barcelona. O mesmo vale para "FM Tan Sexy", mais sensual e escorregadia, encerrando a trinca das melhores canções do álbum.
Não espere, portanto, encontrar aqui uma continuação do hipnótico Alegranza. E mesmo que as bandas da ultra-explorada chillwave tenham feito essa sonoridade do El Guincho soar velha conhecido, Diaz-Reixa conseguiu manter suas samples refrescantes. Mesmo num cenário repleto de gente tentando reproduzir seu pop negro.