Em anos recentes, pouquíssimos artistas de eletrônica lançaram álbuns tão interessantes quanto os de
Steven Ellison - produtor americano conhecido como
Flying Lotus. Para quem não o conhece, uma audição prévia é o melhor caminho para ter uma ideia do que se trata o som do rapaz. Chamá-lo de hip-hop experimental seria óbvio demais. Trip-hop? Cosmic-jazz?
Seu segundo disco,
Los Angeles (2008), foi uma pedrada da qual muita gente ainda tenta se recuperar. Este ouvinte que lhes fala, por exemplo, se mantém escravo da cítara hipnótica de "GNG BNG" - faixa que, dois anos depois, não para de tocar no meu
Grooveshark. (Culpa também da bateria coxa e daquele baixo que parece ter saído do estômago dum ruminante.)
Flash Content
Flying Lotus - GNG BNG (mp3)
Por isso,
Cosmogramma - terceiro e novíssimo álbum do Flying Lotus,
já disponível em streaming - não poderia vir cercado de pouca expectativa. E nem foi graças ao anúncio de que
Thom Yorke, vocalista do
Radiohead, estaria entre os colaboradores. Nada contra os versos do inglês, que fez um bom trabalho aqui emprestando sua voz chorosa em
"And the World Laughs With You". Mas a carga poética nos arranjos de Ellison já garante uma boa (e profunda) viagem dimensional.
Vamos ao disco: constam no pacote 17 faixas (aê!), algumas com pouco mais de um minuto. Funcionam como pequenos trechos de intenso laboratório musical em que sons não-identificados se cruzam frenéticos, sem direção prevista. Dessa maneira,
"Clock Catcher" abre numa corrida contra o tempo: em seu 1'12" sobram samples bizarras, entrecortadas por belas melodias de harpa.
"Pickled" entrega um pós-drum'n'bass hipnótico, com dedilhados ligeiros de baixo cantando sobre um rangido eletrônico.
Flying Lotus tocando "Idioteque", do RadioheadComo em
Los Angeles, muitos títulos passam por temáticas siderais e místico-futuristas, a exemplo de
"Do the Astral Plane" - com seu grave lo-fi fazendo fundo a uma mistura de teclados atmosféricos e saxofone.
Um sax abafado também aparece na introdução de
"Recoiled" - ponto alto de
Cosmogramma. Lá pelo meio da música, emergem samples que lembram o som dum motor falhando. Quando o ouvinte se dá conta, está cercado por uma percussão saída do vácuo - e que vai crescendo com a inclusão de palmas, chiados e guinchos industriais. Tudo pontuado por um synth elástico, que segue num ziguezague atordoante.
Outro momento primoroso que se apoia no uso de instrumentos orgânicos é
"Intro/A Cosmic Drama". Grandiosa, a faixa começa ao som de violinos e harpas oníricas. Em seguida, mergulha numa melodia ao teclado de espremer o coração - ritmada pela bateria tipicamente desengonçada do Flying Lotus.
Aos poucos, vamos sacando que a linha de força em
Cosmogramma se contrói em torno desse amálgama inusitado entre orgânico e sintético: a coexistência de timbres profanos saídos dum chip de videogame e o som celestial de instrumentos de sopro e de cordas. Nas quatro músicas que encerram o álbum, não resta dúvida. E em
"Dance of the Pseudo Nymph", Elisson até parece tentar emular o som do nylon vibrando, mas com os timbres dum sintetizador recauchutado.
Pode parecer uma conclusão óbvia, extraída dos títulos dos álbuns, mas falo sério: enquanto
Los Angeles soava mais urbano, "sujo" e cheio de gírias-não-pronunciadas,
Cosmogramma sugere uma tentativa sincera de sondar os mistérios do universo - utilizando ondas sonoras, claro. Num primeiro momento, a música do Flying Lotus pode inspirar tanto mistério quanto o
Bóson de Higgs. Mas, depois de uma audição cautelosa, a sensação é de ter vislumbrado a explosão de uma
Supernova.
Looking to find the right guitarist for my '∞' band. Cosmic dirty Jazz (obviously) Serious LA inquires only flyinglotus1983@gmail.com
:)
Live set de primeira, mutio bom!!!