Nos últimos 20 anos, a gravadora inglesa
Warp fez mais que lançar bons discos de artistas inusitados. O trio de fundadores - Steve Beckett, Rob Mitchell e Robert Gordon - ajudou a tornar ainda mais confusa a questão: quais os limites da música enquanto veículo de ideias? Com a caixa de coletâneas
Warp20, que comemora o aniversário do selo com coletâneas especiais, podemos pensar um pouco no assunto enquanto ouvimos a algumas mostras do que houve de melhor na música alternativa das duas últimas décadas.
Dentre os álbuns selecionados para o pacote,
Warp20 (Recreated) se destaca pela proposta audaciosa. Artistas da gravadora, como
Maxïmo Park e
Tim Exile, foram convidados para reelaborar faixas de seus colegas de selo. Desnecessário dizer que
Aphex Twin,
Autechre,
LFO e
Jamie Lidell participaram do exercício.

Muitas das músicas acabaram com arranjos mais orgânicos. É o caso de "Japanese Electronics", do projeto
Elecktroids (ouça abaixo), cujos vocais ganharam cor e vida na versão assinada por Jimi Tenor. Dá para sentir a distância entre o teclado e os microfones usados em sua captação. Esse uso do espaço, somado a efeitos de eco, ajudam a tornar a música mais humana. O mesmo vale para a melancólica "Vordhosbn", de Aphex Twin, que perdeu a bateria alucinada para ficar apenas com as notas vagarosas de piano.
Outras músicas tiveram seu lado sintético acentuado. Em "A Little Bit More", os vocais de Jamie Lidell foram submersos numa tigela viscosa de graves e batidas descompassadas que lembra as composições de artistas como Burial e Skream. "LFO", do projeto homônimo, perdeu um pouco da velocidade daquele ano de 1990, quando foi lançada. Mas
Luke Vibert manteve os timbres houseiros e a linha de baixo martelada que a tornaram um clássico da música repetitiva.
A maleabilidade da gravadora não se ouve apenas nas produções amalucadas de
Russell Haswell (que fez um cover insano de
"Cabasa Cabasa", do Wild Planet) ou dos rapazes do
Boards of Canada. A possibilidade de abrigar artistas tão distintos quanto
Hudson Mohawke e
Seefeel faz de seu catálogo uma prova de que é possível imprimir um estilo sem acatar a um único gênero.
Warp20 (Recreated) é um atestado contra os que acreditam que a música experimental se resume ao trabalho sobre formas incomuns. Estes covers mostram que há também ideias por trás de tanta estranheza. Mesmo nas mãos de outros artistas, com timbres diferentes e arranjos refeitos, eles continuam com o espírito contestador das originais - o mesmo espírito da Warp.
A Warp e a Designers Republic formaram uma relação simbiótica em suas respectivas empreitadas ainda mais poderosa do q a Factory tinha com o Peter Saville. DR acabou criando O visual canônico do Techno nos 90, em grande parte graças ao trabalho com a Warp.
http://1.media.tumblr.com/tumblr_koobjvqO4L1qzn6tmo1_r1_500.jpg
@Raul Cornejo
Insossa? agora tem twiter e last fm, q absurdo vc dizer isso kkk.
Mas o seu comentário à matéria (todo ele, nao so essa parte que eu ironizei aqui) é bem real.
O mais engraçado é ver os Top 5 de todos os tempos dos bambambans convidados e ver q, na esmagadora maioria das escolhas, parece q a Warp tem 14 anos, ao invés de 20.
Todo mundo esquece o quanto ela foi visionária até 95. Mas é o preço q a gente paga quando uma instituição q prezamos tanto faz a manobra do crossover - com elegância e potência, diga-se de passagem, ainda mantendo o ímpeto descobridor - e cai nas graças do público hipster/pseudo-intelectualóide q constitui a insossa geração Pitchfork.