Estrelando: Misstress Barbara, Damian Lazarus, DJ T., Steve Bug e Blackbelt Andersen
Que tempos paradoxais esses. Enquanto a indústria fonográfica mingua em sua antiga concepção de "álbum", a cena eletrônica busca na idéia de LP a confirmação do potencial de um músico. Se tanto artística quanto financeiramente muitos já pensem em lançar apenas faixas soltas e pequenos EPs (Radiohead, por exemplo), outros ainda insistem na idéia de um CD que represente um conjunto de idéias em torno da música, da imagem, de uma abstração ou de um tema proposto.
Na eletrônica, ter um álbum pode significar status, impulso na carreira. DJs e produtores (ou quem faça os dois) - já manjados nas pick-ups e seguros de lançar suas próprias músicas -, enxergam a criação de um LP como uma etapa em suas carreiras para legitimar a criatividade na composição - e claro, desta forma ganhar maior falatório, retorno e audição por parte da cena, da mídia e de seus ouvintes.
Mas há uma máxima na dance music que funciona bem: "nem todo bom DJ é produtor, nem todo produtor é bom DJ", e em muitos casos DJs e produtores que se arriscam na criação de um disco inteiro podem apenas confirmar este aforismo.
Misstress Barbara, Damian Lazarus, Steve Bug, DJ T. e Blackbelt Andersen

COMPOSITORES DE HOJENesta resenha especial listamos as tentativas de alguns artistas relativamente conhecidos na saga do disco autoral. Começando pelas damas, a histórica DJ italo-canadense
Misstress Barbara, e depois com o Crosstown Rebel
Damian Lazarus, o electrohouseiro
DJ T., o minimalista alemão
Steve Bug e o Daniel Tjus Andersen aka
Blackbelt Andersen, da escola norueguesa da space disco.
MISSTRESS BARBARA
I'm No HumanMAPLE MUSICNota: 4.1O primeiro disco totalmente autoral de Mss. Barbara é fácil de ser incompreendido. Também pudera, na capa ela está envolta em fogo, e sua novidade techno-pop vem acompanhada de faixas cantadas por ela em italiano, inglês e francês. Fora que o tema
I'm No Human, vamos combinar, é um clichê eletrônico, ainda mais que as letras do disco são puramente pessoais e, hm, do cotidiano "clubber" sem nenhuma referência robótica.
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Misstress Barbara - I'm No Human (mp3)
Mas o disco é bom. Na verdade, muito bom, ao mesmo tempo que é estranho.
Avacalhada pela mídia que não sabe enxergar além do techno pretensioso, Barbara tem uma interessante voz anasalada que não disputa atenção com o 4x4 pop de pegada electro 00s, tudo muito bem produzido como manda o figurino techno-pop. É mais interessante que a desgastada Miss Kittin, e lembra a fase
Berlinette/
Thrills de Ellen Allien, só que com um tempero napolitano.
O selo Maple Music lançou o disco com pompa. A DJ-produtora-cantora tem se apresentado com minibanda, e
I'm No Human há uma versão de "Dance me To The End of Love", além de reprises radio-mix do épico Underworldista "I'm Running" e convidados como Brazilian Girls e o Bjorn do Peter, Bjorn and John, que canta na ácida "Is it Ok".
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Misstress Barbara - Is It OK (Feat. "sweet" Bjorn Yttling) (mp3)
Seria mais fácil para Barbara continuar tocando mundo afora (ela já veio ao BR bastante) e abastecendo cases com um EP ou outro. Mas o disco não busca conquistar o mundo e trata-se mais de uma pós-graduação autoral, tentativa de conciliar a expressão pessoal (tão abstrata no techno puro) com a música eletrônica. Porque mesmo com a engraçada "Etna" (em italiano), ela está sempre falando do
four to the floor, da noite e das relações psicotropicamente alteradas que existem em sua cultura. Ou seja, mandou bem.
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Misstress Barbara - I'm Running (Feat. Sam Roberts) (Radio Mix) (mp3)
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Misstress Barbara - Etna (mp3)
DAMIAN LAZARUS
Smoke the Monster OutGET PHYSICALNota: 2.9A missão para o britânico Damian Lazarus não era descomprometida, afinal ele é bom DJ, já fez
boas coletâneas (aka bom repertório) e comanda o ótimo selo
Crosstown Rebels. A imparcialidade se dá pelo fato de que seu primeiro álbum,
Smoke the Monster Out, foi lançado pela poderosa Get Physical, mas Damian - que chegou a
se jogar de varandas para promover o disco -, sofreu do mal da falta de coesão.
Inspirado talvez pelo sabor
tolkieniano de Björk, ele propôs um álbum literário, mas que não consegue sair dos chavões da eletrônica. Não chega a ser algo fatal, mas traz uma levantada de sobrancelhas permanente, do tipo "o que esse cara quis com isso?".
São 13 faixas cheias de interlúdios em violino e arpejos, faixas mais dançantes, abstrações etéreas e cantaroladas de apelo pop porque, afinal, fazer um disco custa caro. É o caso de "Neverending", que tem balanço legal mas apela ao autotune, já que a voz de Damian não chega a ser muito empolgante
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Damian Lazarus - Neverending (mp3)
A melhor de
Smoke the Monster Out é "Moment", que resume em uma só faixa tudo que eu disse que Damian buscava: é literária, bem cantada e cai num techno alemão curioso, perfeito para podcasts. De qualquer modo, desde a primeira vez que ouvi não consegui pensar em outra inspiração a não ser na maravilhosa "
Take my Soul", hitaço do projeto Bergheim 34. Pena que a boa impressão é cortada pela já cansativa sonoridade Underworld que todo mundo acaba fazendo (caso de "Memory Box", que tenta ser nervosa, mas é bobinha).
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Damian Lazarus - Moment (mp3)
"King of Fools" tenta ser tão
Supermayer que dá nos nervos. Vamos combinar que Michael Mayer é um produtor muito mais calibrado, e Damian só se equipara um pouco a ele e a Superpitcher na safada "Come out and Play": clima de cabaré, suingue gordo e boa orquestração das camadas.
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Damian Lazarus - Come And Play (mp3)
Talvez se ele tivesse seguido a estética dessas melhores faixas, seria um puta disco. Mas enxertos contemplativos soam como pura masturbação sonora, e o disco acaba com aquela sensação de que o cara queria porque queria lançar um mega trabalho autoral, mas só conseguiu fazer uma boa faixa ou outra e reuniu tudo logo de uma vez. Quantas vezes já editei entrevistas aqui em que o pessoal dizia "
se você não tem certeza que uma faixa não é perfeita,
não a lance". É deste tipo de cuidado e ansiedade que falo.
STEVE BUG
CollaboratoryGET PHYSICALNota: 4.4Como ser simples e efetivo sem ser simplório. Como ser intenso e atual, sendo atemporal com o minimal techno. Steve Bug responde a todos esses desafios em seu novo álbum, um reunião de deep microhouse feito em parcerias vocais e de produção. O clima geral é deep house, que te pega pela panturrilha mesmo que em algumas faixas dê para ouvir as camadas de software dançando - é o
techno-afogador, que demora pra esquentar, mas tem ótimo rendimento urbano.
Collaboratory tem o mais do mesmo da última década do techno: duelos com a house music em clima de pista esfumaçada (aka tech-house?), sensualidade deep com obscuridade
under fazendo com que, mesmo housy e cantada, não caiba num programa de lounge FM. Vamos começar pelo melhor, "Strong Moment", faixa que eu queria ter feito se fosse produtor: o vocal de barítono de
Cassy é entubado num funk a la Junior Boys e notas de piano que são revezadas com pinceladas de acid. As tags são #lowbpm, #technoadulto.
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Steve Bug - Strong Moment (Ft. Cassy) (mp3)
"Month of Ship" é boa para entender como o techno berlinense, tão comentado, na verdade é famoso pela sua forte presença na capital alemã. Ao lado do produtor Clé, é uma faixa comum a todo o planeta: tem groove, chimbal carimbado por estalos de dedos robóticos e efeitos pipocando ali e aqui. Com o ótimo Donnacha Costello em "Still Music", Steve Bug atinge o momento mais minimal do disco, o que significa basicamente a mesma descrição das faixas acimas de uma maneira enxuta: o beat é mais presente, os efeitos menos espaçados e mais repetitivos.
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Steve Bug & Donnacha Costello - Still Music (mp3)
Mas o ponto alto do disco é de fato as faixas cantadas por boas moças, além de Cassy, tem Virgina canta a confiança em "Trust in Me", mas seu tom cristalino e as bases opacas e sussurradas levam o clima para a cama. E "Like it Should Be". Sensações estrangeiras ao techno são adquiridas em "Trees Can't Dance" (disco) e "Cherry Blossom", que tem percussividade jazz e seria a faixa do ano se tivesse vocal.
Collaboratory mostra o techno em síntese: enxuto, simples, funcional e sem pretensões e incoerências. A sensação deep house constante e as abstrações minimais tiram um pouco a cobrança do techno
ipsis literis, mostrando que no fim das contas música eletrônica é isso:plataforma 4x4 para viagens íntimas e sonoras por onde a mente do ouvinte mandar.
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Steve Bug - Trust In Me (Ft. Virginia) (mp3)
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Steve Bug - Cherry Blossoms (mp3)
DJ T.
The Inner JukeboxGET PHYSICALNota: 1.8Gosto da expressão em inglês "
i just don't get it!" ("não assimilei"). Porque i just didn't get esse
The Inner Juke Box, novo álbum de DJ T., o alemão Thomas Koch. Mas por que diabos ele saiu da perfeição electrohouse de faixas como "
Time Out" (2004) para um house chimbal-pipoqueiro? Sua sonoridade metálica e acelerada agora passa recibo para pinga-gotas de groove que acabam qualquer pista com um pouco de alma - coisa que em
coletâneas e em seus sets ele sabe criar tão bem.
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DJ T. - Bateria (mp3)
Já começa com "Bateria", brincadeira samba-Osunlade de tamborins sintetizados a la Luciano que é legal na idéia, mas tem uma banalidade pós-
Samim que soa oportunista. O disco inteiro parece se basear em estudos de percussão ou de variações imperceptíveis do pipoco 4x4 acelerado, tão espivetado que você só ouve o bate-estaca apressado, não se sente o sabor da composição
(
Alerta: esta análise pode estar influenciada pelo sensível disco de Steve Bug).
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DJ T. - Shine On (mp3)
A melhor faixa é justamente que lembra os bons momentos de T., como "Shine On" e seu climão Inner City, e a bicuda "Piano Hands", que funciona pelas paradinhas elétricas e a linearidade dopante. A idéia metalinguística de
The Inner Juke Box é um pouco vazia, soa como um agrupamento de presets que vez ou outra desembocam em house music audível e/ou dançável. ("Weirdo" segue eletrocutada igual "Shine On", mas tem espasmos vocais e pausas longas que trazem certo suspense e apreensão).
Taí o mal de se lançar um disco. Mais que Damian, que se propôs brincadeiras, o DJ T. abriu sua jukebox para música eletrônica "pura", e nessa hora o produtor há de ser efetivo, e não soltar uma série de punhetas travestidas de groove. Ao invés de lançar uma reunião de 11 faixas, era melhor ter estourado um EP ali, outro aqui, ou mexer bem seus pauzinhos e lançar uma coletânea do tipo
At the Controls e afins - ou mesmo mixtapes próprias como os belgas disco-synth pop do
Aeroplane tem feito tão bem. Fica a dica.
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DJ T. - Weirdo (mp3)
BLACKBELT ANDERSEN
Blackbelt AndersenFULL PUPPNota: 4.2Saindo um pouco da seara techno-house costumaz, vamos navegar de volta às frequências musicais norueguesas, já que a escola escandinava da space disco é uma realidade, e não mero hype. A dica veio do
cheekão, naqueles deliciosos momentos rraurles em que os leitores nos levam à boa música. Blackbelt Andersen é do selo
Full Pupp, empreitada de Prins Thomas, casa também de Diskjokke, Mental Overdrive e
Todd Terje.
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blackbelt andersen - sandoz (mp3)
Seu disco de estréia reagrupa faixas antigas e já bem tocadas (como "Sandoz", que esteve na definidora coletânea
Sunkissed em 2007), e prova que a space disco, graças aos deuses nórdicos, não se limita à interpretações da disco dos anos 70. Claro que esta é a referência primordial, e no disco homônimo do produtor a faixa "Sondag" não é nada além de "I Feel Love" sampleada e com bongôs sintéticos, mas aqui há aquele filtro norueguês baleárico, houseiro de um trance bem-educado que criam hipnoses e progressões dançantes.
As faixas longuíssimas são característica dessa turma - tudo bem que os patronos
Lindstrom e Prins Thomas exageram, mas assim como o techno-afogador que comentei no Steve Bug, a parábola dessa disco music requer tempo, e o bom é que o Blackbelt Andersen já não demora para entregar bons resultados.
A melhor faixa do disco, "Sirup", já começa com o suingue e o efeito espacial picotado, tirando um pouco o clima space, e um bongô bem orgânico e audível segue até o fim da faixa. Ao fundo, um diálogo travado entre um loop acid e a camada dos efeitos, que mudam de rota ao sabor dos pratos de bateria. Perfeito.
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blackbelt andersen - sirup (mp3)
São dez faixas e duas horas de música. E como é curioso perceber que esta música norueguesa abusa de elementos étnico-baleáricos e internacionais, como beats de bambu tailandeses e o feeling detroiteano do 4x4, que aqui não é base, mas sim um ingrediente apenas - acrescente aos que não entendem norueguês a curiosidade em faixas de nome "Kuk av Stal" e "Ditrait".
Merece destaque o low bpm de "Nattmanover" e as rajadas em sopro de "Sandoz", tão bem aplicadas aos efeitos e o a camada de fraseado. Boa produção musical em estado bruto, e no caso de Blackbelt Andersen, a feitura de um álbum é como um cartão de visita. Pois ele está imerso dentro de uma cena que tem apelo, e só precisa reunir as suas colaborações entre o que já foi lançado e novas composições. E no quesito da imagem, que não encontra lá muito abrigo em Lindstrom e Prins Thomas, nada mais interessante do que o grafismo de um cowboy em solo marciano.
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blackbelt andersen - nattmanover (mp3)
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blackbelt andersen - lordag del 2 (mp3)
Realmente nao da mais para achar que essa onda Disco seja apenas moda passageira.
São tantos bons produtores fazendo faixas ótimas, que dá para acreditar que essa galera ainda vai influenciar muito os gêneros visinhos....assim como já vem fazendo....
Já o Dj T...Ao escutar as faixas me veio a impressão de estar na The Week entre as barbies descamisadas ARRRGHHHH!! Xp
Steve Bug é fino, eu adoro!