Em uma noite, três experiências: Bajofondo Tango Club, Mad Professor e Satoshi Tomiie
Inspirado pela Virada Cultural, que proporcionou bons momentos de reggae, eletrônico, jazz, MPB brega e rock durante poucas horas em uma dúzia de palcos no meio de 4 milhões de pessoas, o
rraurl.com espanta a preguiça, manda ver no energético e encara uma Mini-Maratona, resumindo em apenas uma noitada as nossas conhecidas sagas pelo agitado roteirão do sudeste.
A correria rolou em três eventos nesta última quinta-feira, dia 07/mai, em São Paulo. Primeiro com a simpática apresentação do Bajofondo Tango Club no Via Funchal. Depois, pausa para o abastecimento seguido de mergulho nos speakers na apresentação de um dos ícones do dub no Jive: Mad Professor. E a poucas quadras dali, no D-Edge, a noite foi encerrada com uma rápida conferida no set do japonês Satoshi Tomiie, que foi da house music ao prog num bongô assanhado.
Como sempre acontece no espírito das Maratonas Rraurl, o rolê é intenso. Acompanhe a partir de agora.
22H - BAJOFONDO TANGO CLUBVIA FUNCHALRUA FUNCHAL, 65 - VILA OLÍMPIA
O Via Funchal já é uma instituição paulistana, casa de shows que mantém identidade e tradição há dez anos - e tomara que dure outra década. Não é fácil achar hoje em dia casas de shows em formato
stadium, de boa visão, decoração ultrapassada-mas-ainda-charmosa e outros detalhes sutis como ingresso com impressão própria, que na indústria cultural tão corporativa do Brasil fazem uma boa diferença. Para o show dos sulistas do Bajofondo Tango Club, cadeiras dispostas em aros na diagonal e um clima cool, quase requintado, de um público em sua maioria na casa dos 30 anos para cima.
Quando surgiu o octeto de músicos argentinos e uruguais (teclados, bandoneón, violino, violoncelo, bateria, guitarra e bases - todos chamados de "maestros), veio junto uma lua no telão e um bass de techno encapsulado e envolvente, que dava um clima eletrônico empolgante, a marejar os olhos assim que a batida (quase sempre um house funkeado e de bumbo pesado) arrepiava a pele detrás da orelha. O 4x4 é dilacerado pelos rasgos do violino e do bandonéon (primo grande do acordeão), uma dupla que no tango é tão essencial como beat e loop são no techno. Junto, bateria é acelerada e roqueira, dando a levada pop tão comum à banda.

O multimúsico argentino Gustavo Santaolalla, dois Oscars na manga, é que comanda a patota, ele e sua gesticulação italiana e voz de visigodo latino bêbado, simpático e canastrão à frente da guitarra, que arrepia mais alto que o baixo emanado pelo cello. Nas bases, uma bonita guria baixinha e elegante em seu salto, mas tensa na manipulação de knobs e do laptop, fazendo par com outro controlador das bases, um grandão e empolgado
maestro que pelo porte lembrava o Tropeço, da Família Adams.
Os telões revezavam imagens de trens antigos que, pelo sol escadante na película sépia, devia ser o registro antigo da evolução industrial na região do Prata, ao lado de narrações de futebol, design em vetores (uma obsessão do design argentino), e um curioso momento em que um caminhão antigo e sua radiola emanavam samples de rádio antigas. O show foi dividido em três blocos: um inicial e mais techno, onde o baixo e as batidas disputa a potência do volume com a dupla violino-bandoneón; outro mais calmo, em que Santaolalla destilou um par de suas composições para os filmes
Linha de Passe e
Diários de Motocicleta. Neste instante houve o ponto alto, o melancólico e lindíssimo solo do bandoneonista Martín Ferres, em que a contração tensa da caixa sanfonada de madeira emana ruídos quase vivos, a dizer lamúrias sopradas e um pouco sensuais.
O encerramento catártico se deu com o tema de
A Favorita, a canção "P'ra Bailar", que representa toda uma nova relação da banda com o público brasileiro e paulistano - "aqui foi nosso primeiro show internacional", relembrou Santaolalla -, e as incisões medidas e cirúrgicas da canção que embalou os rumos de Flora e Silveirinha já é um novo marco no tango eletrônico desde que o
Gotan Project explodiu ao mundo com La Revancha del Tango. Sob o efeito de taças de vinhos servidas o show inteiro, teve quem bradasse "Bravo!" ou se levantasse para dançar, e o telão de presença integral e o som límpido da banda no Via Funchal fizeram ser uma noite deliciosa, certamente inesquecível.
PS: Não consigo lembrar a última vez que um tema de novela global marcou tanto.
Tieta?
Tropicaliente?
Fera Ferida?
Fotos: Stephen Solon/Via Funchal01h50 - MAD PROFESSORJIVEALAMEDA BARROS, 376 - SANTA CECÍLIA
Reinaugurado recentemente, a incansável balada Jive já passou pela Consolação e nos últimos anos era um raro reduto noturno na região Centro-Higienópolis, que em anos mais distantes já foi protagonista da noite paulistana. Com um clima Vila Madá que arrasta desde mauricinhos descolados e jovens urbanos ao porão do caquético (e ainda charmoso) Clube Piratininga, o Jive é um porto seguro para quem quer se contagiar pelo grave esfumaçado do dub e ritmos similares como ska, calypso, reggae e afins.
Ontem o clube recebeu Mad Professor, um dos principais programadores do dub, ele que com sua técnica e origens caribenhas fez história em Londres como um dos artistas mais prolíficos do gênero, tanto por seus remixes quanto suas produções. Dado o calibre do artista, era hora de conferi-lo ao vivo, eu que pessoalmente havia me decepcionado em 2007 com o show quase circense e de celebração excessiva do malucão Lee Perry, também no Via Funchal (na época o então editor do rraurl, Camilo Rocha, gostou muito,
relembre).
Depois de 30 minutos de fila para entrar no estreito e bem decorado Jive, Mad Professor entregou o que eu buscava. Pouca falação, alguma celebração justificável de sua figura na presença de um MC/DJ extra e as mais elásticas e acachapantes possibilidades dos ecos eletrônicos do dub. Deixando de lado apologias militantes à Jamaica e os dogmas de Jah, dá para entender na discotecagem de um figura desses como vem do Caribe - o estômago musical do mundo - a origem de quase tudo na música moderna. Os vocais luxuriosos e safados, tanto feminino quanto o patuá dos homens que gerou vocalidades tão distintas quanto a house music e o ragga; a manipulação de velocidades e reverbs elípticos que, tocados de forma impulsiva geram o mais puro drum'n'bass ou beat quebrado e os refrões irresistíves de Bob Marley, pop em estado bruto.
Com pinta de Todd Terry (só faltou a toalhinha branca no ombro), o Professor falava pouco e soltava demais os dedos, parando a hipnose de uma frequência de bass em mixagens feitas pela consistência gelatinosa do baixo, sempre em contraponto a sapecos de percussão orgânica, vocais entubados e público com o sotaque de Montego Bay afiado. A casa lotada e de teto baixo adquiria um clima viscoso e aconchegante de suor com marofa onipresente, dado à imensa quantidade de ganja que adquiria vida própria e ia percorrendo rodinhas e dedos amarelados. Quando a pista relaxava na letargia excessiva, uma cascata monolítica e lateral de baixo era soltada em volume maior pelo Professor, sapecando as cinturas amolecidas. É só imaginar a bolha proxêmica do techno de um Surgeon, só que sem os loops e amansado pela erva. This is techno.
O DRAMA DA COMANDA (357)O ponto ruim dá noite foi o atendimento do Jive. Apesar de ser fácil pegar bebidas no bar, quem arriscou enfrentar a fila de saída lá pelas 03h30 da manhã esperou no mínimo 40 minutos para carimbar a comanda gigante do clube e sair. Mesmo quem não tinha consumido nada era obrigado a passar pelas três ou quatro carimbadas de apenas dois atendentes, tensos e um pouco desorganizados e que traziam um desnecessário clima de repartição pública desfuncional à uma balada esfumaçada, que obviamente exigia o respiro do ar para quem já estava cansado.
Enquanto nada for feito em relação ao péssimo sistema de comandos, tão estabelecido na noite de São Paulo, toda uma geração de notívagos cansados e irritadiços irá surgir. Exemplos de fim de festas surreais e atrapalhados não faltam, e se as casas sabem fazer com que o público seja atendido rapidamente na hora de gastar, é hora de liberar a saída mais rápido. Assim não dá!
PS: Para não ficar pagando de VIP, nem mencionei a confusão da comanda que era zerada e no fim das contas foram cobrados 30 reais de entrada. Mais dez minutos de papo tenso com o caixa - quem já passou por isso sabe como é chato e desgastante, mesmo que no fim das contes a noite será lembrada pela experiência sonora intensa.
04h25 - SATOSHI TOMIIED-EDGEALAMEDA OLGA, 170 - BARRA FUNDA
10 minutos andando do Jive e caio ali no Memorial da América Latina, onde fica o D-Edge. Casa cheia e público já saindo, foi fácil entrar e gostoso perceber uma saraivada tropical de bongôs, bumbo redondo e BPM médio-baixo, embalado em atmosfera houseira séria pelo famoso DJ Satoshi Tomiie, que está no top 10 da última pool da DJ Mag e, apesar dessa informação remeter a uma idéia de som progressivo e escalante, fácil de pender para o farofa, Satoshi tem raízes fincadas na house music de Chicago, ele que foi apadrinhado por Frankie Knuckles em 89 com a faixa "Tears",
um clássico.
De fato sua amplitude musical esbarra no prog, assim como no minimal, que surgiu logo depois dos bongôs e de uma faixa tão latina que eu lembrei da cumbia que tanto ouvi esta semana. Ao invés de conta-gotas, os blips do techno contido vieram numa goteira incessante e que contaminava o passo pelo bass amplo - fato que meus ouvidos já estavam abertos demais para as frequência mais graves depois de ouvir tango housy e dub.
A pista vazia, tarde da manhã, e com remanscentes bêbados de uma noitada que já se seguiam há horas criavam um conforto quase caseiro, aquela sensação que uma pista eletrônica traz quando é o último refúgio
p'ra bailar de um rolê longo. Na hora e pouco em que conferi o set, a história toda seguiu por um 4x4 sem paradinhas pentelhas e sempre pipocantes, que não chegava a uma catarse de gritaria e mãos pra cima, mas mantinha todo mundo aceso. Mas surge aquela hora em que o joelho pede arrego, a festa fica estranha com gente esquisita e não se aguenta mais a birita, e é hora de ir para casa.
Nessa mesma hora o
instant messaging do celular dá a notícia via amigos de que a Torre estava cheia e com direito a policiais civis à paisana. Passei o bastão dos 500m clubbers para os amigos maratonistas por pensamento e vazei, dado satisfeito e agraciado por apenas 10 minutinhos de muvuca na saída. Ufa!
Nem tem o que falar do som dele - muito foda, os estilos importavam menos que os graves!
Quanto å saída do Jive... teve seus picos. Também era VIP, mas fiz questão de pegar um autógrafo de um dos donos antes de encarar a fila, isso agilizou. E o problema é que todo mundo quis sair imediatamente ao final do MP, aí complica mesmo.
Me leva Jade!