Uma viagem pela obscura arte confessional de Karin Dreijer, a vocalista do The Knife
Fever Ray, álbum de estreia do projeto homônimo de Karin Dreijer, é um quebra-cabeça de dez peças. E a charada que estimula o ouvinte a conectar cada um dos pedaços gira em torno da pergunta:
quem é Fever Ray?
Somos apresentados a uma criatura sem gênero bem definido; um ser fantástico com vida e história próprias. Talvez seja uma sombra de Dreijer; espírito selvagem de cores folclóricas que vive em contos sussurrados no ouvido de uma criança assustada. Mas, a despeito de toda montagem cênica, Fever Ray também soa pessoal. Suas letras são declamadas em tom de confissão, como se este alter-ego exprimisse segredos compartilhados com a cantora. Declarações de amor e desilusão abafadas por fumaça eletrônica.

Este é um disco de estúdio e, por sua introspecção, precisa ser ouvido com cuidado. Não há melodias épicas ou rufares de tambores. A energia de instrumentos tocados por músicos de carne e osso também está ausente. Os arranjos emergem de intrincadas combinações de texturas, notas de teclados e efeitos de eco. Tudo se combina de maneira delicada, como num fractal sonoro de infinitas ramificações.
Mas, apesar do trabalho esmerado de composição, as bases servem apenas de moldura para o grande destaque do álbum: as confissões. Tome por exemplo a primeira faixa, "If I Had a Heart". Não há nada ali além de um ronco suspenso fazendo ziguezague infinitamente. Mas a pronúncia metalizada de cada um dos versos - cantados sob o peso do apocalipse - acende o desejo de voltar a ouvir a música outras vezes.
A todo o momento somos torturados pela dúvida: ter pena de uma criatura que não pode sequer amar (e em certa altura confessa desejar tocar o chão), ou suspeitar dela? Sem aviso, os versos infantis se tornam atos de uma missa macabra: "
This will never end / Cause I want more / More, give me more / Give me more".
Fever Ray - When I Grow Up Conforme as músicas terminam, os pedaços do quebra-cabeça se conectam e tornam mais clara a dimensão psicológica de
Fever Ray. Conhecemos os becos sentimentais de uma criatura desejosa pela vida adulta e que passa seus dias aprisionada entre paredes imaginárias. As letras revelam as múltiplas facetas da personagem confusa e fascinante criada por Karin. Desde a nostalgia pueril de "When I Grow Up", passando pela solene melancolia de "Concrete Walls" até a auto piedade da já citada "If I Had a Heart".
Karin Dreijer

Por fim, sobre os uivos de uma ave de rapina, a despedida vem com "Coconut" - talvez a menos emocional entre as faixas do álbum.
Apesar de toda a vontade de expiar seus segredos, este é também um disco de profunda introspecção, como já foi dito. O clima de isolamento contamina os arranjos instrumentais, que podem parecer repetitivos ou estéreis demais se não examinados de perto. A impressão é de que, apesar de ter concordado em exibir seu demônio particular, Karin Dreijer o fez da maneira mais hermética e discreta possível. Para que o ouvinte não note, talvez, que há o coração de uma mulher adulta batendo por trás do simulacro gelado que ela batizou de Fever Ray.
O Gibran citou minhas favoritas... hipnóticas, difícil não se apaixonar.
P.S.: Ótima crítica. É na simplicidade/minimalismo que está um dos trunfos desse disco. A complexidade não é condição sine qua non pra se fazer uma obra de arte, e esse disco mostra claramente isso.