Claro Intelecto e a evolução
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ficha técnica
Nota: 4.4 / 5
Ano: 2004 / 2008
Selo: Ai Records / Modern Love
Estilos: Techno, minimal, house, dub techno, experimental, electro, Detroit
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Claro Intelecto e a evolução
Dois pontos cruciais da carreira do produtor inglês de techno Mark Stewart: sua louvada estréia em CD (2004) e seu recente approach com o dub techno (2008)
18.12.08 16:35
A cena a seguir é íntima e pessoal, carregada de romantismo clubber: quase oito da manhã na úmida e conturbada pista do Panorama Bar, a mais concorrida de Berlim. Entre doses de Malibu a €3, italianos efusivos e cacos de garrafa de Beck's, um DJ solta bases de electro comungando techno acinturado e loops uplifting (termo chique para "bombação"). Mãos para cima, gritos e emoção, ao mesmo tempo em que as persianas do clube abrem e fecham dando espaço a raios solares que parecem dançar freneticamente.

Não era DJ algum na verdade. Tratava-se do live do Claro Intelecto, pomposo nome para o projeto de techno do produtor de Manchester Mark Stewart. Frente a tamanha amplitude ao vivo, corri atrás de seus lançamentos. E entre EPs diversos - o cara é bem prolífico -, descubro a preciosidade Neurofibro, CD em que mais do que electro Detroit e techno melódico, há infinitas sensações minimalísticas e experimentais quase dopantes, cheias de adjetivos que poderíamos listar para dezenas de boas resenhas. Acontece que o Deus do tempo é justo e este ano o Claro Intelecto lançou seu segundo álbum, Metanarrative, e vem para o Brasil, onde é talvez o live mais bacana da festa D-Edge Concept, em São Paulo. Aproveitando a ocasião resenhamos agora esses dois discos, preciosidades evolutivas do techno que não devereiam passar batido para ninguém que já se viu feliz (ou transtornado) no escuro de uma boate às nove da manhã. Segue.

NEUROFIBRO
(AI RECORDS) - 2004
Nota: 4.9

Neurofibro é grandioso em sua essência. Trouxe à tona um produtor que tinha um só EP lançado até então, mas que de repente compilou 13 faixas que parecia com várias coisas e nada ao mesmo tempo, agradava a vários públicos, e ainda tinha um caldo grosso de identidade que não enjoava.

"Peace of Mind" foi a precursora de tudo, um electro de notas sentimentais e teclado onipresente, dando base a uma quebrada macia à medida que você dança e pensa na vida, tudo ao mesmo tempo. "Back" traz esse mesmo contraponto entre electro cavernoso e preguiçosas bases melódicas, um contraste simples na essência mas que soa rico quando amplificado.

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Claro intelecto - Peace of mind (mp3)

Ainda na seara do electro, "Mono" é o ápice dançante do disco. Um electrão em que a hipnose angelical dá lugar a assombros industriais, entrecortados por fantasmas encapsulados de minimal. Fechando a receita, o break old school que não para de cair na orelha. Tão gordo que faz Juan Atkins parecer uma menininha indefesa, chorona.

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Claro intelecto - Mono (mp3)

Apesar da referência a grandes nomes do techno - "Back" lembra Jeff Mills e Robert Hood; "Section" é refinado como Carl Craig -, o Claro Intelecto fez fama em Neurofibro por fundir tão bem essências que ainda soavam futurísticas no minimal de quatro anos atrás com as fórmulas e sonoridades infalíveis do 4x4 norte-americano.

O CRÈME DE LA CRÈME
As sonoridades citadas acima são familiares, e dão sustância ao disco. Mas o sabor desse álbum está em poucas faixas que utilizam desses elementos para criar algo novo, disforme de tão único. O adjetivo podem ser exagerados, mas muitos leitores hão de concordar comigo ao ouvir a batida luxuriosa de "Percentages", um minimal-funk-robótico. E "Chicago", cujo nome resume referências (ou homenagens?) que o break entra na pele? Foi a única faixa que reconheci após o live de Mark Stewart, é íntimo e pessoal como já dito, então não sei como descrevê-la nem o que analisar. Apenas ouça.

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Claro intelecto - Percentages (mp3)

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Claro intelecto - Chicago (mp3)

Tudo isso fora o clickhouse retorcido de "Nobody", e o jeito Rephlex de ser em "Baudrillards Supper". Claro Intelecto é um incansável, e como é dezembro e só pensamos em listas de melhores, Neurofibro já entra bem posicionado como um dos maiores discos de eletrônica da década.

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Claro intelecto - Nobody (mp3)

MINHAS REFERÊNCIAS
Já que falamos de Neurofibro acerca de várias referências do techno, melhor deixar que o Claro Intelecto fale por si só. Por e-mail, Stewart nos relembrou quais foram suas ligações primordiais com a dance music, que nem vão tão longe a Detroit, param mesmo nos artistas ingleses. "Minhas influências de Detroit são subconscientes, coincidências. Lembro de uma música que ouvia num bar de snooker que eu ia jovem, lá em 88, 1987, se chamava "The Dance" e tinha um baixo bem quadrado, cheio de bleeps. Ficou na minha cabeça. Aí veio o LFO e "Leeds Warehouse Mix", eu juntei as duas coisas e pensei ‘é isso que quero fazer'. Quem entender essa ligação irá fundamentalmente perceber quais são minhas origens."


METANARRATIVE
(MODERN LOVE) - 2008
Nota: 3.8

Em 2004 as coisas ainda eram mais fáceis de entender no techno. De lá para cá tudo mudou - a música como um todo é um gigante híbrido, o som 4x4 das pistas auto-fagocita suas fórmulas, elementos e hypes para se manter vivo, e uma ou outra sonoridade nova é adicionada ao menu.

Metanarrative, lançado no começo do ano, é um pouco o reflexo dessa suruba antropológica musical, e marca um ponto mais indefinível e abstrato da carreira de Mark Stewart. Mas vale dizer desconexo também. Ou talvez não seja apenas tão brilhante quanto Neurofibro. É fato: a expectativa após bons discos sempre leva à frustração.

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Claro Intelecto - Harsh Reality (mp3)

Arrisco dizer que aqui Stewart se influenciou (subconscientemente ou coincidências, não importa) com a estética dubby tão em voga esse ano no techno, mais precisamente no minimal e clickhouse experimentais. "Harsh Reality" é uma amostra atualíssima do apuro com que o inglês trabalha o silêncio. Não que o BPM ou os loops remetam à Jamaica, mas há ecos, efeitos em contraponto a uma camada hipnótica e cadenciada. É techno para ouvir no iPod e relaxar, dormir quiçá.

Sobre o dub techno, o próprio Stewart diz que "sempre somos influenciados com o que se houve, o que se gosta, por amigos e afins. Certamente elementos do dub têm sido uma referência mais aparente, dessa forma". Mas não que seja uma tendência, já que "eu diria que nos dois álbuns, no entanto, seja eletrônica ou 4x4, o lado melódico sempre esteve presente no meu trabalho."

O Claro Intelecto usa PC?
O Claro Intelecto usa PC?


Nesse recente CD esqueça o electrão oldschool e enriquecido de antes - agora é hora de contemplação. "Innocence" tem cordas e efeitos contando histórias intimistas, que são aprofundadas pelo obscurantismo de chimbals salpicados estrategicamente vez ou nunca. A base desta eletrônica não é o loop mas sim a narrativa harmônica e melódica.

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Claro Intelecto - Innocence (mp3)

"Gone to The Dogs" foi uma saída à direita mais fácil para o techno. Foi a primeira vez que senti Mark Stewart criar uma faixa que poderia soar como qualquer outro produtor. Mas esqueça o techno - prefira em Metanarrative a espacialidade tech-house de "Operation", ou a anulação existencial e os espasmos fantasmagóricos de "Beautiful Death", essas miscelâneas.

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Claro Intelecto - Operation (mp3)

O próprio Stewart resume o álbum apenas como um compêndio de criações dos últimos três anos, o que nos remete à discussão sobre a relevância de lançar música em formato álbum. Para um artista que desde seu surgimento nunca parou de lançar EPs (destaque para a série Warehouse Sessions), certas empreitadas fonográficas podem soar como a simples assimilação das regras do jogo. E para o Claro Intelecto, que reprocessou o techno fora de qualquer conduta pré-estabelecida, isso soa estranho.

Mas fica a expectativa para o live, e a celebração da potência musical desse artista.

LIVE WITH MISS KITTIN
Na D-Edge Concept o live do Claro Intelecto será após a apresentação de Miss Kittin & The Hacker, sonoridade bem distinta. Ele comenta como é tocar em line-ups específicos, como este. "Com todo respeito, eu não me preocupo com quem mais toca nas festas. Isso não altera o meu set, já que eu toco apenas a minha música. Um dos piores erros que já cometi no passado foi tentar entregar o que o público queria. Serei honesto, vou tocar o que acredito ser minha música e espero que todo mundo goste."

Jade Augusto Gola
Jade Augusto Gola
Ilegal, imoral e engorda
comentários
7 comentários
oxe... neurofibro foi bem marcante pra mim!
E-VOLVING
E-VOLVING(24.12.08)
0AprovadoQueima
gente, ouçam do Claro: When the time is right.

MTO BOA!!!!!
Michelle Fresteiro
0AprovadoQueima
Jade estava inspiradíssimo qdo escreveu este texto.
Nisek
Nisek(22.12.08)
3AprovadoQueima
Poisé.. pena que na sexta, foda mesmo
foi só no ** do público que esperava pela atração.

=(
CAio C B
CAio C B(19.12.08)
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UHm! E nao se esqueça de suas influencias no idm.