Segunda pele da raposa

Parece que não faz muito tempo - na verdade, cinco anos - que o CSS surgiu. Ainda sob a alcunha de Cansei de Ser Sexy e com oito integrantes, a banda mal conseguia tirar som de seus instrumentos e por isso sua sonoridade se aproximava ao punk, mas pavimentada pelo sintético caminho do electro. Entre shows regados a álcool e festinhas animadas do hedonista mundo fashion paulistano, o grupo decidiu se profissionalizar e o mundo conheceu o álbum
Cansei de Ser Sexy, em que a banda entra em um estúdio profissional pela primeira vez e despeja toda sua imaginação e influências em sons que, por mais que fossem forte separados, não se conectavam entre si.
A crítica internacional aprovou. A exuberância estética das personalidades das garotas rodeando entre o
mau-humor posado do líder e produtor Adriano Cintra foi a cereja no bolo exótico de uma banda do terceiro mundo que conseguia fazer um som tão atual e internacional que, dois anos após ser lançado, foi tragado numa prateleira chamada new rave. E sim, as meninas se vestiam coloridas (mas quem não se vestiu em 2006/2007?) e tinham certas influências eletrônicas em sua música, mas se tem algo que o CSS nunca conseguiu mascarar é que eles são um update (cheio de atualizações, é verdade) da cena riot grrrl que rodeou os anos 90 (Babies in Toyland, L7, Hole). Onde as mulheres só andavam em grupos e tinham catarro bastante para cuspir na cara das pessoas.
ROCK GRRRRRRRRRRRRRRLSE se em suas demos você conseguia ouvir a fúria na voz de Lovefoxxx e os acordes sujos na mão de todas as meninas que tentavam dominar seus instrumentos, no álbum ela aparecia contida. Mas com os shows dava para perceber que eles tinham energia suficiente para iluminar Londres por todo um inverno. E então para onde foi parar todas as guitarras? Direto para o coeso e seguro segundo álbum
Donkey, agora com
duas meninas a menos e produção a mais.
"Jager Yoga" abre com um esperto jogo de guitarra e o suave rap rasteiro irresistivelmente pop da hiperativa japonesa fãs de catsuit que canta sobre querer te levar para uma festa. Nem o cowbell e o sintetizador - ambos carne e unha da música eletrônica - conseguem afastar o gosto rock'n'roll da faixa mais longa do álbum. "
Rat Is Dead (Rage)", a primeira faixa liberada pela banda, mostra que a produção do disco está polida, porém sem correr muitos riscos. As chuvas de riffs, muito bem espalhadas, são sujas como o rock pede, mas não a ponto de espantar ouvintes mais sensíveis (como o pop pede). É o CSS em sua representação (inofensiva) dos anos 90.
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CSS - Rat Is Dead (Rage) (mp3)
Apesar de sempre presente,
Donkey tenta não ser somente sobre guitarras. Sintetizadores new wave batalham por atenção, mesmo que as percam as numa média de 4/5. Estranhamente, numa dessas vitórias, o CSS escolhe seu primeiro single, "Left Behind". Lovefoxxx, que no passado só variava entre o grito e o sussurro, demonstra que viajar o mundo em turnê a deixou mais cantora do que nunca. Ela consegue mudar de nota agora tão naturalmente que só me leva a pensar que todos os erros anteriores foram propositais e sobre afirmação de estilo.
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CSS - Left Behind (mp3)
NA PISTA, SÓ "MOVE" SALVAE por falar em estilo, cadê aquele CSS essencialmente dançante que dispensava os remixes para entrar na pista de dança? Bem, ele quase desaparece no álbum dois, porém o último suspiro ganha ar de hit imediato. "Move" é um filho bastardo de ítalo-disco new wave de deixar Debbie Harry, sua provável mãe, corada com o feito. É só diminuir o alcance vocal, acelerar os bpms e jogar os synths mais cheesy que você encontrar e pronto, você terá uma nova versão de "Rapture" do Blondie. Tem até espaço para o rap branco de base toda grooveada fazendo papel de break!
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CSS - Move (mp3)
Uma faceta pouquíssimo explorada pelo quinteto em sua curta carreira foi a de fazer baladas de amor. Se em sua estréia eles tentam cruzar o caminho do fofo apenas uma vez (com a irritante "Poney Honey Money"), em
Donkey Lovefoxxx descobre o amor e quer que todos saibam disso. "Air Painter", uma declaração para seu noivo (Simon, da banda inglesa Klaxons), soa pessoal e delicada, porém falta tempero para atiçar uma segunda audição. "Beautiful Song" tem um bom jogado de vocais, mas que falha ao entregar algo que a aproximasse de um single (ou a afastasse do fantasma de ser um filler).
CRÍTICAS: NO BRASIL, BLINDARAM A VIDRAÇAÉ engraçado que grande parte das críticas que o CSS sofria aqui no Brasil, era pela imaturidade de suas letras (referências a celebridades trash como Paris Hilton) e despretensão musical (sintetizadores pré-programados faziam o grande parte do trabalho), e que esses foram exatamente os elementos que eles deixaram de lado no segundo álbum. E foi aí que a crítica internacional, onde o CSS sempre foi destaque, desaprovou.
Certamente as pessoas crescem, amadurecem e são apresentadas a novos sentimentos (e relacionamentos), mas uma banda não pode perder aquela sensação de estar sempre arriscando, a beira de um precípicio, ainda mais quando é isso que, no caso do CSS, os levou a se destacarem no empoeirado e monótono cenário do semi-mainstream. Quando alguém muda de electro-rock para rock com condimentos eletrônicos, é bom que ele carregue pelo menos o ar vanguardista. Porque o rock, por mais fundamental que seja (ou tenha sido) quando se limita a sua forma primária, já conheceu os seus melhores. E entre tantos álbuns de rock, o do CSS soa apenas como mais um coeso e bem comportado álbum de guitarras.
O álbum está disponível de graça no site da TRAMA VIRTUAL.
Alguémpode enviar-me o albúm novo das css pelomessenger?
sou português e naoposso sacar pela trama virtual.
aguardo respostano meu profile, deixa uma mensagem ou assim.
abraço, ró.
Além disso, a galerinha sabe do senso pop apuradíssimo do Adriano. Por que desperdiçar tanto talento para sustentar uma imagem que já não cabe mais à banda a essa altura do campeonato? Donkey tem muito mais músicas boas que o debut.
Acho que a aura 'party band' não condiz mais com o CSS. Quem assistiu, por exemplo, à Lovefoxxx se enroscando em várias camisetas e fazendo outras estripulias no palco há alguns anos e conferiu o show do Planeta Terra sabe que MUITA coisa mudou. O grande problema é que ficou o estigma do caos. Uma pena.
E que a banda continue trocando de pele no terceiro trabalho.
Acredito na música indie, na música dançante, na música deprê, na música purpurinada... é questão de ser open minded.