Apesar de poucos banheiros e forte calor, estrutura do festival repetiu o êxito de 2006. Impossível destacar uma ou duas atrações no line-up mais diverso do ano.
Com seu já conhecido esforço em promover "música de vanguarda" e arte multimídia, a quarta edição do Nokia Trends aconteceu este sábado num espaço inédito para festivais - o bem acessível Memorial da América Latina na Barra Funda. Foi uma festa de bons shows, alguns inesquecíveis para muitos, ficando difícil eleger um ou dois destaques únicos para tão dessemelhante line-up.
O Nokia foi um exemplo peculiar da tentativa de estabelecer a vanguarda não por pioneirismo ou revolução estética musical, mas pela mistura de estilos e vertentes musicais quase antagônicos dentro de um mesmo espaço. Não se trata de pretensão por parte da operadora de celulares, é um reflexo do emaranhado musical que é o pop em 2007.
Cena comum no sábado foram as diversas rodas de diferentes turmas dançando cada um com seu artista/estilo predileto: indies modernos pulando junto com Thomas Mars do Phoenix, clubbers no passinho do UR e garotas (e garotos) mais preocupados com o rostinho bonito do baixista do que com a música do Van She em si. Todas essas "variantes", no fundo, representam para a Nokia a fatia
trend de um jovem mercado que eles querem conectar (
connecting people é o slogan da operadora).
ATRAÇÕESPassou pelo palco bifurcado em "L" do Nokia o produtor Kassin e seus breaks de game boy; o rock baba e esforçado dos australianos do Van She; o techno jazz do histórico coletivo de Detroit Underground Resistance; a banda
cool de rock francesa Phoenix, para muitos uma grata surpresa; o empolado rock romântico e oitentista do She Wants Revenge, e a dupla carioca de electro The Twelves.
Uma idéia boa foi o palco duplo onde uma atração "menor" tocava enquanto o palco dos headliners era montado. Apesar de manter a mesma cara da edição de 2006, o Nokia foi e teria sido um pouco incoerente uma área independente para abrigar as outras atrações: músico M. Takara e seus convidados (um
blend de hip hop, IDM e breaks) e o mini-set do Van She Tech, uma simples reunião de remixes de hits de pop e electro-rock dos últimos dois anos. Veja os reviews.
KASSIN (ARTIFICIAL)
O produtor Alexandre Kassin só precisou de um game boy e um microfone para criar breaks funkeados com óbvia sonoridade
River Raid. Nintendo Punk na veia em batidas gordas de uma Björk animada jogando Lemmings. Umas dez pessoas, mascaradas, com leds e outras gracinhas dançavam no palco de Kassin, logo cedo, quando o público ainda chegava ao Nokia da Barra Funda.
(Jade Augusto Gola)VAN SHE
Com uma média de idade não muito além dos 23 anos, a banda australiana Van She entrou tímida e aplaudida para o primeiro show de rock da noite. A latente inexperiência de palco era compensada com rostinhos bonitos e alguma pose neo-Backstreet Boys, numa tentativa mais roqueira do pop rock modernete da banda. O sintetizador não era tão usado quanto uma segunda guitarra, e o vocalista demorou a engrenar. "Sex City" é das faixas mais bem elaboradas do único EP da banda e passou batida no começo do show.
Após surgir certa intimidade com o público o gogó melhorou e "Mission" e "Kelly" surgiram, exemplos promissores do bom rock aussie a la Midnight Oil: refrões fáceis e duas guitarras duelando com um baixo funkeado, bateria em construções humoradas levando o rock para o pop. Mais do que um New Young Pony Club viril, o Van She gostaria de ser o Genesis de Phil Collins, mas ainda é um Franz Ferdinand careta e de fraldas, sustentado por rostinhos bonitos que precisam de horas e horas de palco para se aprimorar.
(Jade Augusto Gola)Underground Resistance presents Univer 2 Universe
A apresentação do Universe 2 Universe tocando faixas do lendário coletivo de Detroit no Brasil estava cercada de expectativa. Nos primeiros acordes era fácil ver caras conhecidas das pistas da cidade, todas querendo começar a dançar. Mesmo que tenha seu ápice nos já longínquos anos 90, o techno-soul do Underground Resistance é atemporal, clássico no melhor sentido da palavra, e para muita gente foi a atração que fez o Nokia Trends valer a pena, em contraste com quem foi para ver Van She ou Phoenix. Outra geração, outra escola. Mas com uma sonoridade universal que, se não pretende ser fácil, tem a capacidade de pegar pelos pés e quadris. E emociona.
O melhor do show foram os momentos mais techno, melódicos e viajantes. "Return of the Dragons", "Transition" e "Starlight" com as luzes baixas e o clima introspectivo que é tão caro ao techno fizeram contraponto à celebração de strings característica de "Knights of the Jaguar", que encerrou o show com gritos e abraços e é certamente a faixa mais conhecida do selo por aqui.
No palco, o grupo de oito pessoas, incluindo o lendário líder Mad Mike Banks, mais saxofonista, baixista, baterista e um MC que apresentava cada faixa pelo nome, em alguns momentos teve aquela atitude messiânica e auto-referente que é tão própria (e meio chata) dos adeptos do techno de Detroit. Mas era uma noite de celebração e, se no palco os caras comandam, na platéia havia fãs esperando exatamente o que foi apresentado, incluindo aí longas demonstrações de virtuosismo instrumental.
E tem que falar: não teve o tradicional biz com "High-Tech Jazz", do projeto Galaxy 2 Galaxy, que muita gente estava esperando e fez falta por que é o provável hino de toda uma geração techno paulistana. O show infelizmente acabou de sopetão com a equipe técnica entrando no palco e levando tudo embora - coisas de festival com horário apertado. E realmente, uma hora é muito pouco para um grupo/coletivo/banda/projeto com tanto a dizer e tocar quanto o Underground Resistance.
(Gaía Passarelli)M. TAKARA e convidados
Bateirista da banda de rock experimental Hurtmold, Maurício Takara fez três aparições no palco menor do Nokia. Na primeira, Carlos Issa - do Objeto Amarelo - assumiu laptops para um dub orquestrado em trompete por Takara. Depois, apareceu de novo com os rappers Akin e Rodrigo Brandão do Mamelo Soundsystem em estridentes militâncias "sangue, suor e lágrimas!". No final, clima inverso e mais convidativo com Kassin (baixo) e Daniel Ganjaman (teclados), misto de trip hop e dub. A ambientação promovida pelo break e outros conceitualismos de Takara já começa a ser
hours concours dos festivais brasileiros.
(Joaquim Lefévre)PHOENIX
A organização do Nokia por algum motivo inexplicável achou que aqueles poucos banheiros químicos fossem o suficiente para um festival com cerca de quatro mil pessoas. Resultado: passei o encerramento do show do M. Takara e o início do Phoenix numa fila gigantesca. Então, ali, da direita do palco, acompanhado de mais de cem pessoas com a bexiga cheia, eu ouvi "Napoleon Says" abrir de forma pomposa o show mais bem recebido da noite, surpresa principalmente para quem não conhecia o dinamismo do Phoenix - méritos nesse sentido ao bom bateirista da banda.
O que causou certo espanto até mesmo em Thomas Mars, vocalista da banda, "estou impressionado como as pessoas sabem a letra das músicas", disse, animado. E o rock inofensivo veio, ora em forma contagiante, ora muito açucarada. Os hits soaram muito mais poderosos ao vivo, "Everything Is Everything" e "Run Run Run" deixaram o quinteto com cara de superstar. "If I Ever Feel Better", hitaço, teve clima cool numa indefectível atmosfera dançante, quase um Jamiroquai francês.
E num momento "o público me contagia", o sr. obrigado-thank-you-merci Thomas Mars, pula no meio da galera para cantar a última música. Esta que foi estendia a espantosos dez minutos, onde solos cafonas de guitarra, baixo e bateria seguravam a melodia oriundos do temido rock progressivo, deixando apenas as pessoas em torno do vocalista em êxtase.
(Raphael Caffarena)VAN SHE TECH
Ainda acertando o volume das caixas de som, o Van She Tech iniciou sua discotecagem com "Saturate" do Chemical Brothers. A ótima música foi prejudicada pelas caixas de som que teimavam não se ajustar. No final, a "passagem de som" não chegou a lugar nenhum deixando o volume mais baixo que o normal acompanhado de um grave excessivo.
O que não atrapalhou a festa. Enquanto dois dos australianos cuidavam das pick ups, os outros dois pulavam com as groupies, subiam nas grades ou simplesmente desfilavam seu estilo entre a galera (o que rendeu o carinhoso apelido de Posh Spice, ou seja, aqueles que não fazem nada a não ser carão).
Contratados da Modular, o quarteto - ou melhor, o duo - fez um set muito parecido com as compilações de sua gravadora. Teve Bumblebeez, New Young Pony Club, Riot in Belgium, Klaxons (aqui em remix próprio), Gossip e outra do Chemical Brothers. Tudo de maneira semi-profissional, mas divertida. Quem ficou pela boca do palco aproveitou bem, mas para o resto do público ficou apenas parecendo música de ambiente para a chegada do She Wants Revenge, que passava o som de bateria e baixo sem se preocupar com o set deles.
(Raphael Caffarena)SHE WANTS REVENGE
Headliner do evento, o SWR chegou queimando hits. "Red Flags and Long Nights", "These Things" e "Written in Blood", do novo album. Todas cantadas à exaustão pelo público que, se não proporcionou uma catarse coletiva, conseguiu ao menos expressar algum bom sentimento à banda californiana de electro-rock que teve a proeza de colecionar hits com apenas dois álbums em um ano e meio.
Electro rock naquelas, porque se no CD soa como uma tempestade de baterias eletrônicas, ao vivo é uma banda até simples, duas guitarras, teclados e, ao contrário do que foi visto no YouTube, não haviam os tais violinos no palco. "These Things" foi o ponto alto, letras cantadas no macarroníssimo inglês brazuca, o bateirista quase quebrou o pulso para dar um clima mais dançante para faixas tão acessíveis nas pistas. com "Tear You Apart", outro hit, não passou batido mas tinha um clima artificial, quase carnavalesco, compensado por, enfim, uma boa drum machine de Adam 12, que fazia as vezes do bass.
E a performance de Justin Warfield, o vocalista? Cheia de dancinhas, pomposa, afetada e quase dúbia sexualmente, algo estranho para uma banda que fala tanto em mulheres. O som do palco estava tinindo e sua garganta não chega a ser de um tenor gótico, como os CDs por vezes parecem mostrar -" ali há muito trabalho de produção. Mas por mais que sua pose Enrique Iglesias fosse divertida, não se pode resumir o show a um personagem: o She Wants Revenge tem culhão para encerrar um palco por seu bom rock, mesmo que seja uma apresentação burocrática.
Tanto é que no final, depois de lembrar em cinco momentos de egotrip o quanto as pessoas conheciam a banda, Justin pediu asses moving! para "Out Of Control", pedido prontamente atendido mas que foi por terra com a arrastada "She Loves Me, She Loves Me Not". O She Wants Revenge seria a banda da vida de muita gente se ao vivo fosse espetacular, se não ficasse na média do rock posudo.
(Jade Augusto Gola)THE TWELVES
A dupla carioca João Miguel e Luciano Oliveira teve um ano de ouro a frente de seu projeto The Twelves, apresentada ao mundo depois de um sensacional remix de "Boyz", da M.I.A. Música essa que entrou no rápido set de uma hora deles, que mostrou bem a capacidade desses jovens de inserir via laptops, sem muito segredos (e efeitos ou técnica monstruosa) versões, bootlegs e remixes de boas faixas de electro e dance mais pop que não se resumia ao óbvio - caso doVan She Tech.
"Dreamin'", do Les Rythmes Digitales deu boa atmosfera funky; "Stay With You" do Lemon Jelly foi o momento emoção complementado por Radiohead, lá pelas 06h11, quando a manhã chegou e o Nokia Trends 2007 acabou oficialmente. Podia ter tranqüilamente rolado até 08h30, 09h da manhã.
(Jade Augusto Gola)ESTRUTURA - PONTOS CRÍTICOSDe acordo com a organização do festival, cerca de 60 banheiros químicos foram instalados no ambiente que recebeu aproximadamente 4 mil pessoas. O que causou transtorno para aqueles que precisaram usar o banheiro nas oito horas de evento.
Outro ponto crítico foi a venda o de fichas em um dos dois bares de dez em dez reais, ou seja, se você precisasse comprar uma água, que custava quatro reais a garrafinha, teria que desembolsar dez reais, usar quatro e ficar com outros seis de troco. O bar mais afastado do palco vendia fichas picadas normalmente.
Outro ponto não favorável na grande estrutura montada no concreto do Memorial da América Latina, ao lado do metrô Barra Funda, foi o excessivo calor. O ambiente fechado não possuía saídas de ar suficiente, e o ar-condicionado não conseguiu vencer a essa noite de primavera, o que só ficou acentuado na medida em que a festa ia enchendo.
RRAURL LIVE @ Nokia by TwitterClique aqui e confira nossa cobertura feita em tempo real no Nokia Trends 2007, via Twitter.
Galeria de FotosVeja as fotos dos shows, do espaço e da atmosfera do nokia Trends 2007.
Por Alberto Boni.RRTV#10 - Nokia TrendsNossa câmera acompanhou desde a montagem do palco até o after oficial do festival no D-Edge, com DJ sets do Underground Resistance.
Por Igor Lopes.
Eu acho otimo, temos que poder escolher aonde ficar, mas nunca de black tie...
:)
fui esperando aquela estrutura impecável de 2006. me decepcionei.