LA beat scene: batidas californianas
Nosaj Thing
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LA beat scene: batidas californianas
17.11.10 13:55
Ainda estava sob o efeito desintegrador dos raios cósmicos disparados no segundo álbum de Flying Lotus e tentando entender o pós-dubstep - o não-dubstep - quando comecei a dar atenção a algo não tão novo, a LA beat scene, ou no bom português a cena de beatmakers de Los Angeles. Não é a primeira vez que o rraurl publica algo do gênero, vide atenção dada neste texto publicado há exatos dois anos, mas vale dizer o quanto a cena tomou corpo, ganhando notoriedade e deixando de ter somente um representante - no caso Mr. Steven Ellison aka Flying Lotus.

Parte dessa amplitude alcançada mundo afora pode ser atribuída aos bons trabalhos de Nosaj Thing, em Drift (2009), Free the Robots, em Ctrl Alt Delete (2010) e Tokimonsta, em Midnight Menu (2010) - três nomes que representam bem a sonoridade ao mesmo tempo única e diversa da crew californiana. Ora mais próximo dos glitchs, ora mais próximo da sonoridade típica do hip hop, a identidade sonora dos trabalhos vindos de LA é marcada pela diversidade, mas também é fruto do desenvolvimento do hiphop enquanto gênero musical. Na maior parte, o que se ouve é algo relacionado ao gênero, mesmo que não necessariamente ligada a figura do MC - aqui as ambientações criadas por sintetizadores e samples tomam de assalto o papel do mestre de cerimônias.

[Preview] Lucid Waking (on Midnight Menu LP) OUT NOW!! by TOKiMONSTA

Além dos recentes lançamentos, grande parte do cenário hoje consolidado na cidade do pecado, se deve ao árduo trabalho de Daddy Kev. Produtor e engenheiro de som, em 2004 co-fundou o selo de gravação e distribuição Alpha Pup, o qual é responsável por grande parte dos lançamentos dos artistas locais e, em 2006 estabeleceu a noite que seria a vitrine de todos os nomes que hoje levam a marca da LA beat scene: Low End Theory.

Há quatro anos que toda quarta-feira ela recheia o club The Airliner com beats, glitchs, bass culture e o que mais couber nos cases dos residentes e convidados. A noite, que também acontece em Nova Iorque e em Tokio, disponibiliza mensalmente em seu site um podcast com set de um residente junto de convidados especiais como Nosaj Thing, Daedelus e Mary Anne Hobbs - esta última, em recente entrevista cedida ao XLR8R, disse ser essa a melhor noite pra se tocar no mundo e saber que a cada ida ela irá ouvir sons nunca antes ouvido.

Tal reconhecimento é resultado do time de residentes da casa. Já citado acima Daddy Kev é beatmaker oldschool. Suas produções autorais estão na linha de trabalho de DJs como Cut Chemist e Shadow, como na grooveada Rhythm, de Awol One (). Daddy também realiza trabalho de pós-produção, tendo masterizado álbuns de Flying Lotus, Daedalus e Nosaj Thing.

AWOL ONE - RHYTHM by Humanity

Gaslamp Killer, talvez o mais prolífico dos DJs da crew da Low End Theory, é natural de San Diego. Sua habilidade nos decks é caracterizada pelo excentrismo e ecletismo, característica também presente em suas produções. Foi co-produtor do seminal Los Angeles, álbum do Flying Lotus que mostrava já em 2008 a identidade múltipla que iria caracterizar a cena local e produziu o primeiro álbum do insano eremita Mojave, Gonjasufi, A Sufi And A Killer (lançado esse ano) além de ter diversas produções autorais lançadas pelo selo de Daddy Kev e mais recentemente pelo Brainfeeder (selo de FlyLo). Em seus sets, conduzidos através de duas pick-ups e um ipad, pode-se ouvir desde um dubstep com o grave expludindo tímpanos a qualquer coisa etno-lisergica do naipe de Mulatu Astatke ou Jimi Hendrix, como mostra o vídeo do seu explosivo set no Sónar 2009:



Ainda fazem parte da crew da Low End Theory, os djs Nobody e D-Styles, além do MC oficial da noite, Nocando. Não só a balada mais hypada de Los Angeles é o que torna a cidade um legítimo caldeirão de sonoridades. O selo Alpha Pup lança e distribui há mais de 5 anos artistas que oferecem algo de novo - ou seja, a vanguarda.

Dono de um catálogo de quase 150 artista, incluindo nosso compatriota M. Takara, a diversidade é algo comum ao selo e é nessa variedade onde encontraremos os beats trincados, glitchs saturados, synths futuristas e samples sincopados, elementos comuns ao já bem propagado chillwave, que não são muito estranhos ao IDM e tornaram-se figurantes, quando não protagonistas, no pós-dubstep ou no próprio dubstep. É interessante notar como dessa diversidade toda tem surgido um viés pelo qual alguns produtores estão encontrando um caminho legítimo, uma assinatura, por assim dizer, daquilo que já batizaram de LA beat scene.

É justo dizer que lá a identidade surge com base nos beats; talvez seja esse o lugar-comum encontrado nas produções - característica sempre presente é o que a está diferenciando das atuais convenções da música eletrônica como o minimalismo enfadonho dos alemães ou o popularismo massificante do dubstep inglês.



Dos artistas lançados pelo selo do onipresente Daddy Kev, edIT, Free the Robots e Dibiase são os que expressam bem a linguagem do hip hop aliada aos elementos já citados.

Free The Robots - Orion's Belt Buckle by thebadmannered

Ainda pelo Alpha Pup teremos aqueles que se enveredam por sonoridades mais cabeçudas ficando próximo do IDM, mas que nem por isso deixam de usar de outras linguagens; feito imagens de um caleidoscópio os elementos se transformam e se fundem para novamente se transformarem, ficando um tanto díficil definir o estilo de um ou outro artista e isso acaba por dar o caráter singular dos beats de LA. São nos trabalhos de Nosaj Thing, Shlomo, Take e do já veterano Daedelus onde percebemos as ambientações criadas pelas infinitas possibilidades das frequências dos synths sendo mais exploradas que o ritmo.

Nosaj Thing - Light 2 by truant

Shlomo - Hot Boxing The Cockpit by TSDtracks

Dono de um prestígio alcançado pelo pioneirismo do álbum lançado em 2008 que carrega o nome da cidade onde seria revelada uma prolífica geração de produtores da qual ele se tornaria seu maior representante, Flying Lotus também é dono do selo Brainfeeder que vem lançando artistas que trilham o mesmo caminho que ele próprio abriu. Brainfeeder é também casa de Gaslamp Killer e Tokimonsta, já citados anteriormente, e Lorn e Samiyam - produtores que fazem o uso interessante de linhas de baixos gordos e densos que dão base a melodias que nos levam a territórios áridos povoados por andróides mercenários ou então nos fazem lembrar do quão fragmentada é a rotina cosmopolita.

Lorn - Brainwaves (Samiyam x Lorn) by BRAINFEEDER

Presente nos trabalhos de FlyLo - e de muitos outros produtores de diversos estilos - a música construída a partir de fragmentos é característica principal também nos trabalhos de Matthewdavid e Teebs. Este último teve o ótimo álbum Ardour lançado mês passado e já ganhou merecido destaque no Pitchfork, XLR8R e outros veículos de informação de novas sonoridades.

Teebs & Gaby Hernandez - Long Distance by risker

Ardour é mais uma figura de destaque no estandarte levantado por Los Angeles - o álbum - que vem sendo sustentado por uma geração de produtores os quais já estão assinando seus nomes em mais um capítulo da música eletrônica e, ao que parece, ainda tem muito para mostrar. Inovando ao utilizar a linguagem do hip hop como elemento norteador, a LA beat scene deve ser vista como mais que uma cena. Percebe-se que surge em Los Angeles uma identidade sonora (post-hiphop?) a qual deverá sinalizar os novos rumos das produções e alterar o mapa genealógico da música eletrônica.

Rodrigo Roman
Rodrigo Roman
comentários
5 comentários
Rodrigo Roman
Rodrigo Roman(23.12.10)
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@Fabio
Não, o Baths não faz parte. Ele é super tirado pelos outros beatmakers. Ele é o gordinho-indie-nerd-filhinho-de-mamãe q estudou em colégio particular e nunca pisou na perifa...os outros beatmakers são favela e aí ele fica de fora...nada contra o som dele, eu particularmente gosto bastante, quem não dá muita confiança são os caras de lá.
Fábio Bridges
Fábio Bridges (03.12.10)
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O Baths não faz parte dessa cena?
Dan Fervin
Dan Fervin(18.11.10)
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A matéria tá de parabéns!! Alguns artistas realmente inovadores e 'fresh' para seguirmos acompanhando.
Rodrigo Roman
Rodrigo Roman(17.11.10)
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Bem frisado a ausência do Ras G, Miguel...falha nossa! Mas quem se interessar pelo assunto vai acabar descobrindo.
Sobre a lenda da comunidade no deserto eu desconheço...mas junte as seguintes figuras: Gaslamp Killer, Ras G, Gonjasufi e Free the Robots...aí isso já começa a fazer um certo sentido!
Parabéns, excelente matéria!

Fui abduzido por essa galera neste último Coachella, onde foram responsáveis pelo Bass Face, espaço que funcionava meio que como um after do festival dentro do camping. Lá, vivi uma pista de outra galáxia, embalado por Gaslamp Killer, Daedelus, Take, Nosaj Thing (que de última hora substituiu Flyo), Mary Ann Hobbs e outros. Tudo num clima bem intimista (rolava de circular no meio dos caras, trocar idéia e tals).

Só penso que faltou mencionar um dos que, para mim, é um dos principais expoentes desta cena: Ras G. Citando release da própria AlphaPub: o cara faz música que estarão tocando nos ghettos de marte em 3014...

Não tem um lance tb de que vários destes artistas moram juntos numa comunidade no meio do deserto? Ou é lenda?