Produtor islandês cria ambient e dub techno inspirado na calmaria da natureza molhada
De
Dominik Eulberg a The Orb, de
Low Motion Disco a Vangelis, a natureza pode ser representada pela música eletrônica por sua infinita capacidade de abstração. Desta maneira, elementos orgânicos do mundo e do homem podem ser tema e também pequenas inserções sonoras numa faixa, set ou peça sonora eletrônica. E um jovem artista islandês insere-se muito bem, com ótima música, dentro destas três nuances - abstração/elementos/temática. É Aðalsteinn Guðmundsson (lê-se como no inglês - Athalsteinn Guthmundsson), que produz desde 2002 sobre a alcunha Yagya.
Ele lançou em janeiro o álbum
Rigning (chuva, em islandês) pelo selo holandês Sending Orbs, em que a água que cai do céu é tema e ponto de partida para ambient/dub techno em dez faixas numeradas como "Chuva 1, 2, 3, etc", tudo em islandês (
veja no Discogs e aproveite para descobrir como contar até dez em islandês).
Aðalsteinn Guðmundsson

"
Rigning é um trabalho sobre a tranquilidade, sobre o silêncio que vem junto com o som da chuva", explica o produtor em conversa pelo MSN. "Sei que soa um pouco pretensioso, mas é sobre a chuva e também sobre coisas pessoais", explica, humilde.
O disco é continuação de outro trabalho,
The Rythm of Snow, lançado em 2002 com certo alarde entre os amantes do dub techno, os incansáveis fãs da sonoridade Basic Channel. E mesmo que o som de Yagya esteja mais perto do ambient techno do que o 4x4
dubbed explicitamente jamaicano, o modo como Guðmundsson enxerga o silêncio como elemento sonoro é puramente música dub.
Flash Content
Yagya - Rigning Tvö (mp3)
Em seu trabalho de "sonorizar" a neve com techno, o esforço de abstração foi maior, e para tal o produtor usou barulhos da chuva, que ele focou agora como tema agora em
Rigning. Os sons de chuva não foram capturados na natureza, mas apenas retirados de outros templates de barulhos naturais. "Eu não teria tempo para isso", lamenta Yagya, que além de fade ins/outs de chuvas, garoas, granizos e ambientações espaciais úmidas pela chuva, insere pequenos bits musicais de animais, barulhos de ruas vazias e movimentadas, além dos intermináveis ecos e atmosferas sensoriais. Isso exige abstração também por parte do ouvinte, que é literalmente pregado à música quando o hipnótico e preguiçoso beat 4x4 entra, seduzindo os ouvidos de forma instintiva.
Não à toa, este islandês de 32 anos aponta a tranquilidade como mote de seu trabalho. "Aqui (em Reykjavik) costuma chover muito, mas é como dizem: 'espere cinco minutos e você verá o tempo mudar completamente'", explica, sem saber apontar se isto é uma tendência natural do céu islandês, ou se é culpa do quecimento global. Esta direção naturoterapêutica de sua música também não é ao acaso pelo fato dele ser islandês, já que foi na estranha geografia da terra dos gêiseres que Julio Verne buscou os caminhos ao centro da terra, e foi de lá que surgiu Björk, criatura eletrônica que volta e meia também tenta desbravar os mistérios da natureza. Neste contexto, vale de novo a abstração, quando seu interlocutor pergunta como seria o som da neve, já que como grande parte dos brasileiros este nunca presenciou o gelo caindo do céu. "Não há um som muito claro da neve, talvez quando você pisa nela", explica. "Ou quando você escorrega e cai!".
Flash Content
Yagya - Snowflake 1 (mp3)
Aðalsteinn Guðmundsson produz há mais de dez anos, tendo um projeto mais voltado à deep house desde 1997, o
Sanasol. Feito em parceria com Thorhallur Skulason, este vai bem até hoje agraciado pelos carinhos e por tracklists do Deep Dish e seu selo Yoshitoshi - dá para perceber nas camadas de efeitos atmosféricos sua sonoridade. Como
Yagya, expressão em sânscrito que designa um ritual para agradar aos deuses e que na cultura hindu é usada diariamente para o curandeirismo pessoal e espiritual, o islandês diz produzir por hobby,
Neve desconstruida em música

já que por ser um projeto de pequenos lançamentos (mas sempre bem avaliados, que o diga os comentários onipresentes em
seu Discogs e
outras resenhas).
"Sei que não vou vender muito, é um lançamento modesto e prova de que não vivo da música que crio", diz o produtor, sem deixar muito claro se isto é uma constatação resignada ou uma lamúria. Para se manter, ele é programador há anos e, mais do que um músico-biólogo ou produtor eletrônico inveterado, ele descobriu o gosto pela música eletrônica através do seu conhecimento por computadores, bits e softwares - hoje em dia ele utiliza o software
Cubase. "Quando comecei eu não sabia nada, aí de repente fui criando coisas que pareciam música para mim, e assim segui em frente e descobri vários truques, tanto para criar quanto para ouvir a música, como coisas que podem ser utilizadas para criar efeitos e afetar o ouvinte."
AMBIENT TECHNO LIVEAo vivo o Yagya é mais upbeat, algo que ele diz ser necessário já que sua música não é muito para as pistas. "Eu já toquei as músicas do álbum algumas vezes, na Dinamarca e na Letônia recentemente. Fiz uma apresentação aqui em Reykjavik, mas pouca gente apareceu (risos)", brinca, explicando que esta necessidade de beats mais intensos para as apresentações ao vivo (laptopt + MIDI controller) é por vezes um tormento pessoal, já que ele tem noção de que suas músicas lançadas em álbuns são melhores que as batidas dançantes que cria.
Constatação esta que não é um problema, já que com a eletrônica no topo do mainstream, sobram faixas boas e descartáveis para dançar. E tanto na espiritualidade de sua música ou em seu jeito caloroso e simpático, que deseja "God bless you" (Deus te abençoe) quase toda vez que encerra um papo, Aðalsteinn Guðmundsson tem seu valor por provar a força da musicalidade eletrônica e de como beats e camadas criadas por computadores podem ser puramente humanos e naturais.
Flash Content
Yagya - Rigning Fjórir (mp3)
Curti a resenha e ja estou na caça destas faixas, vlw Jade!
pra quem quiser conferir:
www.sutemos.net
http://www.archive.org/download/sute008/02_Yagya_-_We_Reject_The_Now.MP3
só pra relembrar, o cd mix do Joris Voorn tbm tem algumas faixas do Yagya , resenha sua aqui mesmo no rraurl.
http://rraurl.uol.com.br/cena/6054/Joris_Voorn__megamix_de_102_faixas
Abraço