No dubstep os bolachões comandam, em busca da potência perfeita através da masterização. E discos de vinil fazem parte da cultura DIY de produtores caseiros
26.01.09 16:20
A saga da sobrevivência do vinil diante das tecnologias digitais já rendeu boas novelas. Normalmente o discurso de ambas as partes é carregado de sentimentos apaixonados, razões de ordem econômica e até mesmo valores ecológicos. No final das contas, ninguém ganha a guerra, mas o assunto rende Ibope.
Não seria preguiçoso ou apelativo ficar explorando o tema então? Alguns consideram o tópico pura falta de assunto. Mas um dado recente faz a discussão ganhar novos entornos. A Folha de S. Paulopublicou um artigo agora em janeiro dizendo que a venda de vinil cresceu 89% nos EUA em 2008 (saiba mais no Todo DJ já sambou) - um dado relevante para o eterno racha e um sinal inesperado para quem considerava a batalha consumada.
Colecionadores e fãs devem rechear a maior fatia das estatísticas. No artigo, são citados números do LA Weekly que reforçam essa especulação. O vinil mais vendido em 2008 foi o In Rainbows do Radiohead, seguido por Abbey Road dos Beatles e Chinese Democracy do Guns'n'roses.
Vinil duplo de "In Rainbows", o mais vendido: ajudando a impulsionar as estatísticas do bolachão
BASS, DRUM'N'BASS, DUBSTEP: ONDE O VINIL PROSPERA E na cena eletrônica? Quais gêneros da música dançante ainda usam o vinil como principal ferramenta de discotecagem?
Luiz Pareto, residente da noite Freak Chic no club D-Edge em São Paulo, não abandonou o vinil completamente. "Uso vinil, ou melhor, também uso vinil. O som é redondo, gordo e o manejo é muito bom. Foi assim que aprendi a tocar, né! Daí tem o lado afetivo da coisa. Fora isso, o vinil estressa menos os ouvidos", explica.
Greves: empecilho constante na distribuição
No entanto, quando o DJ entrega os números do seu case, o CD com MP3s e WAVs é usado para justificar a praticidade do negócio e viabilizar seu próprio trabalho. "Hoje em dia, bem mais da metade do meu set é feito com CDs de MP3s e WAVs porque a alfândega, o correio, a Polícia Federal e todo mundo envolvido na importação dos vinis vive em greve. Cada vez é um que entra em greve. Os discos atrasam muito e quando chegam já está todo mundo tocando as músicas em digital. Dá até raiva! Fora que com todo esse pesadelo da importação ainda se paga uma fortuna de taxa para proteger uma indústria de vinil nacional que simplesmente não existe", conclui.
"Dubstep, bassline garage e drum'n'bass ainda vendem bastante vinil, mas muitos DJs de breakbeat estão tocando apenas coisas digitais", explica Carl Loben, atual editor do Rivmixx e antigo editor da DJ Mag britânica.
"No drum'n'bass existem muitos produtores e selos, então o mercado fica saturado. Alguns títulos vendem menos de 200 cópias, outros vendem mais de 5.000", diz Chris
"No drum'n'bass existem muitos produtores e selos, o mercado fica saturado. Mas boa música vende bem em qualquer formato" CHRIS PARKINSON - ST Holdings
Parkinson da ST Holdings, uma das principais distribuidoras do gênero no Reino Unido. "Tudo depende da música. Boa música vende bem em qualquer formato. Alguns discos venderam muito bem em 2008, outros não", completa.
Entenda "boa música" como quiser. Quando o assunto é grave, o que conta é a escala Richter na frente do sound system. Esse é um dos principais motivos para DJs e artistas adeptos da bass culture permanecerem tocando vinil e cortando dubplates.
MASTERIZAÇÃO E PROCESSOS ANALÓGICOS: POTÊNCIA NA AGULHA No dubstep o grave desempenha um papel muito importante na dinâmica do som. O bassline muitas vezes é o principal condutor da produção, ultrapassando outros elementos percussivos no quesito ritmo. Estúdios como o Transition em Londres, o Dubstudio em Bristol e o Dubplates & Mastering em Berlim são requisitados para garantir o máximo poder de fogo nas baixas frequências do espectro sonoro.
Pinch, um dos principais expoentes do dubstep, não abre mão do vinil. "Nunca toco CDs e não uso Serato ou Final Scratch", polemiza. "Há uma compressão natural no vinil que deixa o grave mais quente. Não gosto do som digital frio e como faço música no computador o calor analógico do vinil é uma parte essencial do processo."
Grosso modo, o processo de masterização do vinil exige perdas de frequências - altas e baixas, cada uma na sua medida. No entanto é justamente a masterização que pode transformar uma faixa sem vida em algo extremamente poderoso. Para boa parte da Bass Culture, a masterização é um dos passos mais importantes na fabricação do vinil e no corte dos dubplates. Engenheiros de som experientes são a peça chave nesse processo. Aqui no Brasil, Xerxes de Oliveira - o XRS - é um deles.
"Se a gente fosse gravar um vinil com um sinal de linha, não haveria espaço físico suficiente no disco para comportar a música toda. Na gravação usam um processo que remove gradualmente freqüências em torno de 500Hz para baixo. Depois na hora de reproduzir o disco, um pré-amplificador específico restaura essas freqüências perdidas, com uma curvatura inversa à da gravação", explica Xerxes.
"O dubstep é feito da melhor forma para arrasar nos sound systems. Os produtores querem aquela potência que só pode ser garantida com uma boa masterização"
"A melhor regra, no caso dos graves, é a de que menos é mais: cortando freqüências abaixo de 20Hz - que movimentam os falantes praticamente à toa - dá para conseguir um grave mais poderoso. É recomendável também manter freqüências mais graves no centro da mixagem, sem efeitos estéreo do tipo chorus ou flanger - isso gera um movimento no sulco do disco que pode fazer a agulha pular", ensina.
"No caso dos agudos o processo é inverso. É preciso muito cuidado pois chimbais mais altos podem torrar uma cabeça de corte. A pré-amplificação corta essas freqüências e junto com elas some um pouco do ruído natural causado pelo atrito da agulha com o sulco do disco", finaliza Xerxes.
"Do ponto de vista sonoro, o dubstep é feito da melhor forma para arrasar nos sound systems. Os produtores querem aquela potência que só pode ser garantida com uma boa masterização. O dubstep também é uma cena muito DIY. As pessoas fazem a faixa, cortam o dubplate, prensam o disco, levam para o club, entregam na mão dos DJs, vendem algumas cópias e tentam ganhar algum dinheiro para construir algo", explica Chris Parkinson. Ele ainda indica o video archive de John Dent, da Loud Mastering, no site da Red Bull Music Academy, como referência para entender seu ponto de vista de uma forma mais abrangente.
John Dent @ Red Bull Music Academy: Por que masterizar?
Martin Clark, colunista do site Pitchfork e curador da coletânea Roots Of Dubstep, afirma que ainda há espaço para o vinil na cena. "É um mercado que se sustenta através da cultura do vinil, mantida pelos DJs através do corte de dubplates e pelos fãs colecionadores de discos", explica. "Os álbuns em vinil são raros porque o investimento é muito alto ou soam ruins com várias faixas prensadas no mesmo lado do disco. Os singles em CD nunca pegaram, porque poucos se interessam. Então se você quiser comprar dubstep, o vinil domina", afirma.
No dubstep, a bombação é outra: a pista só fica feliz quando o sound system explode no peito.
Hoje em dia é possível comprar faixas digitais de dubstep em sites especializados como o Bleep.com e o Dubplate.net. "O download legal representa aproximadamente 10% das vendas de um lançamento em vinil", diz Chris Parkinson. Tecnicamente a prova dos nove acontece na frente do sound system: se o peito tremer, está valendo, já se os globos oculares saltarem para fora do crânio...
CONVENIÊNCIA E ABUNDÂNCIA: NO BRASIL, COMPENSA A FAIXA DIGITAL Philip Sherburne - que em suas listas de melhores de 2008 apontou diversos artistas íntimos da gravidade máxima - diz que embora o download e a abundância de músicas no formato virtual hoje possam ser convenientes, elas não tornam sua atividade mais objetiva ou produtiva. Muito pelo contrário: Sherburne, que também produz seus próprios sons e investe
Reano: 95% de música digital
horas procurando a batida perfeita, fica se perguntando até que ponto isso ajuda em seu ofício como colunista e crítico musical. Ouvir sem escutar o que realmente está sendo tocado pode ser um grande problema. Nada melhor que o tempo, a pesquisa e o faro apurado baseado na experiência acumulada para separar aquilo que realmente veio para ficar daquilo que está apenas rendendo notícia no momento.
No Brasil, país onde a importação do vinil ainda é taxada, há quem prefira gastar R$ 50 em dez faixas no Beatport do que em um disco de 12". "Atualmente 95% do que compro é digital. O principal atrativo é o preço, mas há outras vantagens implícitas também, como uma maior abertura para os produtores nacionais lançarem suas faixas no mercado internacional", diz Reano, DJ que toca House e variantes.
No entanto Reano não abre mão do Serato e dos toca-discos. "Sempre preferi o vinil para tocar pois acho que o DJ tem mais controle sobre eles. O Serato proporciona a possibilidade de continuar usando disco sem ficar refém dos preços das bolachas", conclui.
"Com o preço do vinil importado, é possível comprar ao redor de dez faixas digitais.
DE QUE LADO VOCÊ ESTÁ?
Num disco, normalmente se aproveita uma ou duas músicas - é muito raro encontrar um vinil que tenha três faixas aproveitáveis. Comprando música digital você só paga o que interessa, logo que a faixa é lançada e por um preço justo. Apesar do vinil estar respirando novamente com diversos artistas bacanas voltando a lançar discos nesse formato, para o DJ brasileiro é muito mais vantajoso comprar música em formato digital", teoriza.
DIVERSIDADE É TUDO Para alguns, tocar os últimos lançamentos do momento é algo muito importante. Exclusividade é um ponto essencial para DJs que trabalham em residências disputadas e clubEs que são considerados lançadores de tendências musicais. Para outros, a relevância das sonoridades ofertadas é o que interessa, mesmo que isso signifique a compra de um ou dois bons discos por mês. Ao que tudo indica é a diversidade de opções no circuito que faz as coisas acontecerem por aí - seja tocando vinil, CD ou pandeiro.
terremoto no estrombago!......parabnes pela materia.....
.....aqui em brasília tem um pessoal que ta investindo pesado nisso......sábado agora teremos uma festa com uma pista "stop the war on vinyl".......depois te falo como foi.....
Gostei da materia e foi muito esclarecedora.
[]s
.....aqui em brasília tem um pessoal que ta investindo pesado nisso......sábado agora teremos uma festa com uma pista "stop the war on vinyl".......depois te falo como foi.....