2008: Gravidade máxima
faça login para votar!
Enviar esse texto
login para votar!
Enviar esse texto
social bookmarks
Digg
Mugg
del.icio.us
2008: Gravidade máxima
Retrospectiva avalia a importância e os rumos do dubstep em 2008
09.01.09 16:05
No ano que passou, falamos bastante do dubstep. Explicamos os pioneiros, apontamos destaques e acompanhamos, curiosos, a melhor parte desse gênero em 2008: a sua mutação em diversas sub-cenas prolíficas - tanto experimentais quanto dançantes - que traziam a cultura do bass como premissa essencial para este som que quando bate, machuca.

Falando de mainstream, a coisa tomou uma amplitude espacial a partir do segundo semestre de 2007, impulsionada pelo lançamento de Untrue, o histórico disco do produtor inglês Burial. Originário do 2-step e UK garage, é um som inglês, muitas vezes sisudo e cabeçudo, que segundo as palavras do experiente DJ Dubstrong, funciona mesmo é na cultura de países gelados. Observações sobre o andamento da púbere cena dubstep no Brasil estão ao final dessa retrospectiva, que aponta destaques, curiosidades e momentos relevantes para o gênero no ano que passou. Tanto na gravidade no bass ou na abstração dubstep, é uma sonoridade que segue 2009 para fechar a década. Confira, por tópicos, muitos links, fotos e áudio.


DUBSTEP NA MÍDIA
Mary Anne Hobbs ajudou a documentar as diversas nuances sonoras que marcaram o dubstep em 2008. Mais do que isso, a madrinha do grave na BBC Radio 1 ofereceu informação apurada em primeira pessoa e fez questão de seguir registrando os movimentos mais
Mary Anne Hobbs @ Sónar 2008
Mary Anne Hobbs @ Sónar 2008
relevantes do estilo em seu programa na emissora britânica - ela mesma foi a Bristol em novembro para falar sobre a crescente e agitada cena local. O Generation Bass, seqüência do histórico Dubstep Warz, surpreendeu quem esperava por sons novos e apresentou rumos inesperados para essa música mutante.

A nova geração levada ao ar por Mary Anne Hobbs foi representada por artistas escolhidos pelos veteranos da cena. Sikie e Quest vieram pela indicação de Mala. A dupla mostrou como soul e jazz podem fazer do dubstep um som amplo, capaz de absorver influências diversas e reinventar sua identidade a todo instante. Joker veio pelas mãos do mestre Kode 9; Skream escolheu Kulture e Starkey atendeu ao chamado do Vex'd. Para completar, Hatcha trouxe Chef, Loefah apresentou Oneman e Distance escolheu Cyrus.

Outros artistas que Mary Anne Hobbs ajudou a despontar foram Untold e Mount Kimbie. O primeiro trouxe faixas muito interessantes e cheias de personalidade pelo Hessle Audio e pelo seu próprio selo, o Hemlock. O segundo é uma das próximas apostas do Hotflush Recordings e se aproxima de Burial e Flying Lotus em termos de ousadia e criatividade sonora. Para os fãs que acompanharam de perto cada lance do jogo, o processo foi bem agitado.

TUMULTO NO MUNDO VIRTUAL
A grande soma de newbies que procuraram o Dubstepforum.com para se informar e se aproximar do assunto causou tumulto e provocou confusão. Os moderadores da comunidade virtual mais expressiva do estilo tiveram de suspender as atividades do site temporariamente para colocar ordem na casa e conseguir lidar com a crescente demanda de novos usuários. A empreitada - originalmente fruto de uma boa intenção - ficou por um fio, quando cogitaram restringir a incursão de novatos ao sistema por motivos que não se justificavam. Por sorte o fórum voltou ao ar sem censura e de quebra seus frequentadores ganharam um mix em celebração ao seu terceiro aniversário.

Chase, Status & Wobble Bass
Chase, Status & Wobble Bass
WOBBLE BASS GENÉRICO
Como acontece com todo estilo musical em evidência, produções pouco articuladas que nada agregam ao espírito inovador de seus pioneiros fizeram o dubstep inchar. Distribuidoras se apressaram para inventar selos pouco consistentes e dezenas de discos suspeitos surgiram nas prateleiras das lojas. O wobble bass genérico produzido e tocado por oportunistas de plantão foi pauta de diversas críticas.

A dupla Chase & Status, bem conhecida no Drum'n'bass, trouxe o que há de mais manjado em termos de produção para o Dubstep com sua "Eastern Jam": breaks infinitamente longos, estrutura rítmica engessada e linhas de baixo barulhentas do tipo mid-range bass. O resultado foi um pastiche de originalidade duvidosa, que fez o som regredir ao seu nível mais baixo em termos de criatividade e inovação. Ao menos esse disco chegou às prateleiras pelo Ram, selo expressivo e com boa distribuição, que certamente movimentou uma parte do seu público em outra direção musical.


Chase & Status - Eastern Jam

O excesso de letargia rítmica também incomodou muita gente, principalmente por se tratar de uma solução sonora simples, superada há tempos e que não exige muita personalidade, pesquisa ou referência mais apurada. Caspa aproveitou a boa onda do estilo e produziu um remix para "Where's My Money" de TC (ouça aqui), abusando de linhas de baixo oscilantes mas esquecendo uma importante lição de casa: o groove. Vale lembrar de seu FabricLive 37 em parceria com Rusko, autor de "Jahova", hitaço presente na coletânea. Apesar do sucesso sintomático da época dubstep pós-Burial, esse disco da Fabric não foi uma unanimidade crítica (leia aqui a resenha do rraurl).

Flash Content
Rusko - Jahova (mp3)

A VOLTA DO GROOVE
O dubstep veio do UK garage e para lá ele se voltou inúmeras vezes ao longo do ano. O groove socorreu o estilo em momentos de emergência, fazendo o som marcar presença na pista de dança, longe das viagens mentais e introspectivas que muitas vezes o hype ajudou a propagar. Em busca de sons dançantes, alguns artistas como Kode 9, Geeneus e D1 procuraram o funky house da Rinse FM como forma de reciclarem seu som, incorporando elementos mais convidativos para os ouvidos e os joelhos alheios. A mistura de rítmos caribenhos, percussão latina, atmosfera calcada no Soul e vocais femininos provou ser uma boa saída para quem já demonstrava pouco apreço pelo excesso de experimentalismo na cena. Sobre o funky house, dois podcasts aqui do rraurl ajudam a ter uma noção do gênero: o Vigilantes do Peso e Taken by Surprise.

Flying Lotus fez geral dançar
Flying Lotus fez geral dançar


DUB TECHNO E WONKY BASS
O dub techno se firmou como principal influência na discografia de artistas como Headhunter de Bristol e o holandês 2562. O selo 7even da França apresentou uma seqüência de títulos impressionantes, conjugando o melhor da sonoridade jamaicana com o aspecto sintético da música eletrônica alemã. Não à toa, Pole e Basic Channel (re)lançaram coletâneas essenciais, e artistas do 4x4 como Claro Intelecto e Thomas Fehlmann devem muito de sua capacidade experimental a Jah.

O Wonky Bass de Flying Lotus, Joker, Harmonic 313, Rustie e Zomby também ajudou a variar o panorama musical da cena, estendendo as sonoridades de dubstep para um compêndio de bass inescapável, ainda mais numa pista com sound system nervoso e afiado. George Clinton e Herbie Hancock foram inspiração certa para essa turma que investiu em basslines tortos e samples bem colocados. Nunca o dubstep e o grave foram tão tocados mundo afora.

BURIAL: CAIU A MÁSCARA
Burial teve de se entregar para não dar crédito ao The Sun e sua incondicional fixação paparazzi. O tablóide inglês ofereceu uma recompensa para quem identificasse o artista que, mesmo sendo indicado ao Mercury Prize, ainda mantinha sua identidade em segredo. A entrevista concedida à revista The Wire, pouco antes do episódio, se preocupou em discutir o aspecto criativo do artista, sem se envolver em tópicos íntimos ou bisbilhoteiros.

Findado o mistério, outra faceta de Burial foi revelada: a de enrolado. A coletânea DJ-Kicks com o produtor, programada para 2008, acabou numa novela de anúncios, desmentidos, pré-vendas oficiais e nenhum lançamento. No fim das contas, Burial não fará mais o CD - quem deve comandar uma edição da famosa coletânea é Flying Lotus. Depois de inesquecíveis edições em 2006, 2006 e 2007, não houve nenhum DJ-Kicks em 2008.

A AUSÊNCIA DO DMZ
Embora Coki tenha emplacado o hit "Night" em parceria com Benga, Mala não lançou títulos pelo aclamado DMZ em 2008. Todo seu esforço foi concentrado em inúmeras gigs históricas e seu novo selo, o Deep Medi. Com dezenas de dubplates ainda inéditos, Mala não se preocupa em gravar mixes e raramente é visto em radio shows. Sua ausência no mundo virtual é quase uma opção religiosa e sua postura diante da música soa como um manifesto criativo que privilegia o artista ao vivo e o trabalho mágico de engenheiros de som que forjam verdadeiras armas sonoras em forma de discos de acetato.

Flash Content
Benga - Night (Ft. Coki) (Prod. By Benga And Coki), Night (mp3)

O FIM DA SKULL DISCO
Appleblim e Shackleton decretaram a morte súbita do Skull Disco de uma forma muito produtiva. A dupla ofereceu os últimos remixes do catálogo num double pack em vinil marmorizado, muito disputado por colecionadores e amantes do formato. Appleblim inaugurou o Applepips, catálogo focado em sonoridades além do dubstep. Shackleton apareceu algumas vezes em público ao longo do ano, apresentando seu live pa para uma audiência curiosa e ávida por novidades. A festa de Natal do Resident Advisor teve a dupla em seu line-up, e, ainda mais significativo, Shackleton se apresentou em dezembro ao lado de Ricardo Villalobos no clube berlinense Berghain, meca mundial da eletrônica, que há meses vem investindo com pompa no dubstep (em dezembro, ; agora em janeiro tocam The Bug live, Kode9, Martyn, Scuba).

Skream e Benga, destaques absolutos
Skream e Benga, destaques absolutos


SKREAM E BENGA: O ANO FOI DELES
Ninguém melhor que Skream e Benga para definir o espírito sonoro da cena em 2008. Ambos muito jovens e prolíficos em estúdio, lançaram dezenas de faixas pelo Tempa e ilustraram a capa de revistas como DJ Mag e XLR8R. Suas músicas foram licenciadas para figurar em CDs promocionais de grande circulação internacional. Sem medo de experimentar, provaram a articulação do dubstep com a música pop. Skream foi convidado pela Nike para fazer a trilha do projeto Run, por onde já passaram LCD Soundsystem, Cassius, Crystal Method e Simian Mobile Disco. Os dois também foram atração do Best Of British, evento promovido pela DJ Mag inglesa, e indiscutivelmente os dois grandes nomes individuais do dubstep em 2008.

Flash Content
Skream - Midnight Request Line (mp3)

Flash Content
Benga - Crunked Up (mp3)

BRASIL: O DUBSTEP ENGATINHA, MAS SEGUE

É importante falar do dubstep como atual e efervescente expoente da bass culture atual no Brasil, já que grime praticamente inexiste, drum'n'bass permanecem em estado vegetativo e o dub em si é associado à farta (e distante) cena reggae. Mas há alguns meses a informação e a curiosidade entorno dessa sonoridade estão aumentando, principalmente pelo esforço de portais como Tranquera.org, de Bruno Belluomini, que escreve as linhas dessa retrospectiva. Bruno gravou um podcast para a revista americana XLR8R ano passado, e informa sobre novidades em seu Tranqueira toda semana, além do podcast Vigilantes do Peso aqui no rraurl, site que você já percebeu estar comprometido e entusiasmado com o dubstep.

Belluomini: baixaria brazuca
Belluomini: baixaria brazuca
Ainda sobre a imprensa, foi em 2008 que as primeiras matérias sobre o gênero começaram a aparecer em gigantes como a Folha de S. Paulo, mas não houve sinal do dubstep em grandes e significativos eventos, como festivais de músicas (Skol Beats? Nokia Trends? TIM Festival?). À boca pequena, o dubstep foi tocado em sound systems urbanos e sets pontuais, e por DJs versáteis como Dubstrong e Léo Madeira, VJ da MTV que provou ser bom DJ.

Em São Paulo, onde a eletrônica 4x4 ainda reina grandiosamente, as festas começam a sair do gueto de poucos connoisseurs. Um exemplo é a festa Baixaria, mensalmente no Vegas, que mistura o bass com outras sonoridades como maximal, entre outros. No Brasil, onde a cultura eletrônica é abastecida em ricas cenas urbanas de animação calcada no techno e afins, o dubstep soa como um bicho estranho. Logo, as possibilidades da internet são hoje seu principal emanador de informação. É o mesmo que acontece na América Latina, onde, por exemplo, um mix para XLR8R (sempre eles) sobre o continente destacou dois produtores venezuelanos, Pacheko e Cardopusher, hoje com relativo destaque.

Essa discrepância entre o que acontece em outras metrópoles e o Brasil deve seguir em 2009, mas esperamos que a cena se consolide, e o primeiro passo são o êxito de festas e a vinda de bons artistas internacionais para cá em 2009.

Bruno Belluomini
Bruno Belluomini
Jade Augusto Gola
Jade Augusto Gola
comentários
12 comentários
Renato M²
Renato M²(21.10.09)
0AprovadoQueima
Eu tenho usado capacete na baixaria, pq a primeira me derrubou.

Alias, acho que a tendencia é o dubstep começar a se firmar em sao paulo tb. Grandes remixes de dub tem saido em musicas que ninguem imaginaria. Alguns dj's ja arriscam a fechar o set com um dub ou fazer um breve 'mix' no meio do set com uma musica em dub. Acho que o Bruno deu o passo inicial ao erguer a bandeira, agora a coisa tende a fixar.
Mas claro, todos os parabéns ao Bruno que tem feito um ótimo trabalho com os podcast's e o tranquera.org
Salese
Salese(14.01.09)
1AprovadoQueima
Eu como Junglist nato, ao ouvir meu primeiro set de dubstep em meados de 2007 simplesmente achei uma coisa horrível, lenta, sem sentido nenhum. Acostumado com batidas muito mais aceleradas como do drum and bass e do jungle fiquei sem entender essa nova sonoridade. Só depois, na segunda vez que tentei ouvir esse mesmo set com mais calma e compreensão que comecei a entender o som.
Posso dizer que dubstep é o som que mais ouso nos últimos dois anos, e no início ainda resistia a artistas como Burial e Shackleton por achar "estranho", o que hoje mudou completamente.
O que pode deixar o dubstep cada vez mais popular é a mistura que ele traz a cada novo artista que aparece, trazendo influencias do house, techno, dub, drumbass, etc, assim diversos públicos acabarão se identificando com o som.
Em 2009 tenho certeza que o vírus do grave vai se espalhar, e que muitas pessoas conheçam e apreciem este som que faz suas tripas se revirarem dentro do estrombago!
E quem não agüenta, usa capacete! Hahaha
André Di Battista
4AprovadoQueima
Quanto a ser musica de pista ou não, acho meio relativo!!
Fui em algumas noites em que tocou Dubstep aqui em São Paulo
e transpirei muito mais que em muitas baladas que tocam aqueles
minimais manjados e chatos de trocentos e tantos bpms.
É só questão d o dj entrar em sintonia e a pista saber direito
o que vai ouvir , se não brocha mesmo porque com certeza a musica é diferente .Publico com certeza tem.
Dubstep vicia
Para começar é rapidinho e não tem breque não!!

Keyler Oliveira
Keyler Oliveira(12.01.09)
0AprovadoQueima
Discordo quanto a crítica a uma das únicas facetas q trouxe ao dubstep um pouco de 'dança', justamente aquela feita por caras como Caspa, Rusko e as poucas faixas da dupla Chase & Status. A propósito Eastern Jam é uma Puta faixa! com P maiúsculo

Pelo q me parece vc foi um pouco injusto com a representatividade que esses caras tiveram para essa cena, principalmente os dois primeiros. Acho que quando vc diz 'manjado' na verdade quer dizer pista além de que tem groove sim IMO. Na verdade, muito dos produtores citados são bons mas poucas faixas seguram uma pista de dança. Como eu saio de casa pra dançar, boa parte disso q vc falou na matéria fica no meu computador e eu até prefiro que fique lá. São faixas que fazem muito mais sentido no som do seu carro, no fone de ouvido...


Acrescento na lista dos melhores do ano com o Benga e o Coki, Caspa e Rusko sem dúvidas.
ah, e Crunked Up é FODA D+!

Vale ainda ressaltar a cultura dos discos de vinil sustendada por vários desses produtores!
CAio C B
CAio C B(12.01.09)
1AprovadoQueima
Otimo texto, o dubstep na gringa já esta muito foda, aqui no Brasil esta caminhando pra isso, graças ao Tranquera que levanta a bandeira dub aqui no Brasil, cada vez mais eu curto esse tal de dubstep.