Engraçado como alguns "veteranos" gostam de ficar no salto alto quando falam sobre a cena "nos bons tempos", desdenhando quem chegou há pouco tempo. Eu acho tudo isso uma grande besteira. Mas se for pra entrar nessa viagem, então tá, tem um cara aí que se entrar na sala põe todos nos chão. Afinal, Ippocratis Bournelis, o DJ Grego, ou Gregão, começou a tocar discos em 1973. Isso mesmo, há 33 anos atrás.
A partir daí começou uma carreira fenomenal, marcada por iniciativas pioneiras como o primeiro disco mixado por DJ do país (
Maestro Mecânico, de 1977), os primeiros discos com "edits" de músicas (um processo manual, usando gilete e fita adesiva, "os primeiros loops foram criados a partir da emenda de um compasso editado ao outro rolando em loop no gravador de rolo", como explica Grego) e os primeiros remixes para bandas de pop e rock nacionais ("Loiras Geladas", do RPM, só estourou graças ao remix do Grego).
Seria errado chamar Grego de monumento porque isso remeteria a uma estátua de bronze, imóvel, uma homenagem ao passado preservada para a eternidade. Quem conhece o "mans" (é assim que os DJs "old school" se chamam uns aos outros) sabe que ele está muito longe disso. Não só continua tocando em diversas festas como acaba de assinar mais uma produção: o primeiro álbum do cantor estreante Djong,
Masterpieces. Nesse projeto ele conta com colaborações de altíssimo nível: a dupla Junior Mendes e Lincoln Olivetti, músicos, produtores e arranjadores históricos da MPB. Na outra ponta da escala do tempo tem seu discípulo, o DJ Anthony Garcia, excelente DJ de techno que inclusive está no line-up da próxima SP Groove e tem produzido com Alex S.
O que o projeto Djong significa para você?É um projeto internacional 100 % nacional... senti muito interesse no projeto Djong, pelo fato de ser um artista virgem, uma nova proposta, uma imagem a ser criada, mas formado em musica, culto, toca, escreve e canta, aprovado pelos melhores, instrumentistas "groovemakers" do Brasil!
Junior Mendes é um clássico da produção brasileira, foi ele quem me indicou para dar ao projeto um caminho eletrônico... para mim significa muito como DJ estar abrindo novos caminhos, junto a esse time profissional e com a minha experiência.
Como você definiria o som desse projeto?Acústico de qualidade somado ao eletrônico atual, O som que chegou para mim dos estúdios do Junior Mendes & Lincoln Olivetti, aonde foi feita a captação dos sons analógicos, já veio aquecido com pré-amps valvulados da melhor qualidade.
No meu estúdio, junto com meu parceiro na programação, Anthony Garcia, e os plug-ins de Power Tools de ultima geração, demos toda uma sonoridade eletroacústica de alto nível.
Vamos falar de história. Como foi que você virou DJ?Desde pequeno adorava música, achava incrível a pick-up, na época em móveis enormes que acoplavam TV e radio... era o chic!
Você colocava pilhas de discos de carvão bem pesados, 78 RPM, eles caíam um após o outro e iam tocando como uma festa non-stop... era época de "Rock Around the Clock", "Let's Twist Again", Glen Miller e ainda assistia um tio louco, que dançava o Zorba e quebrava pratos na sala!
Comprei meu primeiro compacto em 68, "Vênus", do Shocking Blue. Fui do movimento Jovem Guarda, ia no cine Universo na Av. Celso Garcia, Brás. Comecei a dancar ao som de "Shaft". De Isaac Hayes. Fui hippie e rodei a Europa de carona. Woodstock years!
Comecei como sonoplasta em outubro de 73. Em 74/75 foi o início da fase disco, virei "discotecário". Em 76/77 fui eleito pela
[revista "hype"
da época] Interview em 78 como melhor DJ da noite. Em 84, virei DJ produtor quando produzi o primeiro remix oficial do Brasil, "Loiras Geladas", do RPM.
Não sei dizer se foi sorte ou talento atravessar décadas mixando para o povo dançar,
mas fruto de muito trabalho, treino, dedicação e fé de ser profissional com o publico!
Existe muita diferença entre tocar para uma pista de hoje e uma de 30 anos atrás?Chegávamos uma hora antes e ligávamos o amplificador e o pré, ambos à válvula, e
esperávamos a válvula azular para dar um bom som.
Casas como o Cave tinham dois amps, um entrava em ação no meio da noite, pois depois de algumas horas já esquentava demais e o som começava a rachar. Era como um trem a vapor! Mas uma verdade eu garanto! Os graves valvulados no concreto dos nightclubs, Cave, Tom Tom Club, Playboy, Plug, nunca mais eu ouvi!
Não tínhamos mixers, passávamos fitas de rolo para um toca-disco sem pitch, que dava de duas a três voltas para entrar na rotação certa. Ia baixando o som na chave de corte, phono/tape, sem fone nem monitor, só ouvindo o barulho que a agulha fazia ao entrar na faixa.
Como se fazia para mixar disco music, sendo que a bateria era tocada por gente e variava?Bem, graças ao Bozak CMA 10 2 DL e aos toca-discos Technics a vida melhorou. Mas tecnicamente mixar não era para qualquer um. Vi muitos DJs mais velhos não segurarem a onda e desistirem.Você soltava o disco e corria a mão no pitch rapidamente e em fraçõs de segundos já estava corrigindo as variações, às vezes para frente às vezes para trás, puro malabarismo... durante as viradas para a primeira nota [do compasso], as bandas sempre davam uma variada terrível! Tinha que decorar tudo compasso por compasso, onde atrasavam, onde adiantavam, precisava muita concentração, feeling e sensibilidade.
Você fez remixes para nomes como RPM, Kid Abelha, Titãs, Barão Vermelho, Gilberto Gil, Leo Jaime e Cláudio Zolli. As bandas gostavam dos seus remixes?Não tinha como não gostar, meus remixes fizeram o rock brasileiro trilhar as pistas dos DJs. Usamos muito das técnicas de remixes das ondas new wave e dark, era época de Madame Satã, Marquinhos MS in memory! Remixes do Arthur Baker, Chep Nunez, Latin Rascals e Mantronix [que usavam muito sampler e efeitos eletrônicos] nos piravam. Corríamos atrás das máquinas para importar.
Além disso, o RPM era um projeto travado há meses e depois chegou a vender três milhões de cópias. Eu fazia um tipo de remix que seguia a tendência mundial, editando fitas, potencializando o groove original para torná-lo mais dançantes com máquinas como a Linn 9000, a vovó das baterias eletrônicas.
Quais as características do bom DJ na sua opinião?Por existirem muitas tribos hoje...
A- Aquele que lota a pista e agita a galera!
B- Aquele que lota a pista e não incomoda a galera.
C- Aquele que agrada o publico, transmitindo cultura musical.
Alguma vez já lhe passou pela cabeça pendurar o fone de ouvido (parar de tocar)?Nem quero pensar, sai pra lá, mans!
Olhando para tantos anos de carreira, tem alguma coisa que vc fez que não faria de novo e que gostaria de oferecer como conselho para os mais novos?O errado e o certo andam juntos, então julgue o certo como óbvio, então quanto menos você errar mais você acerta.
Dê o nome de cinco monstros da música na sua opinião e explique porque em duas frases.James Brown: o papa soul.
Alec Costandinos: por tirar as bandas do cheek-to-cheek a la Glen Miller e
por o bumbo e prato da batera a tocar direto, criando assim a disco music.
Quincy Jones: por trazer a riqueza do jazz ao mundo pop.
Leon Huff & Kenny Gamble: o Philly sounds, com "Love is the Message", do MFSB, glorificou o início da disco.
Kraftwerk & Giorgio Mororder: apesar de vertentes diferentes, esses iniciaram a música computadorizada...
Dee Jay School...valeu Gregão!!!
É importante ressaltar a relevância das contribuições do Man's para a cena e cultura DJ nacionais. INDEPENDENTEMENTE do estilo musical executado por qualquer profissional DJ do país, é de suma importância reconhecer e valorizar as dificuldades que outros enfrentaram no passado para que o mercado de hoje pudesse existir.
É isso aí GREGÃO: LET'S GROOVE !!!
Parabens Camilo pela matéria ,
saudades do meus irmãos Gregão
Greguinho pôr tufo que trilhamos
em nossas vidas Profissional e
pessoal .
Big Respect...
Big Respect...