O ano era 1.998. O bairro, Vila Madalena. E o espaço era o
Brancaleone. Uma das noites mais quentes de São Paulo,
onde você ouvia tudo de Black Music: Soul e Funk dos anos
70, Hip Hop, R&B, Samba Rock e Acid Jazz. Também posso
afirmar que era um dos poucos lugares que abriam espaço
para o DJ testar novos sons do Hip Hop nacional. Neste
clube, eu era residente e lá fazia meu mundo, meu universo.
Mas percebia que, entre o público que frequentava a casa,
tinham as pessoas comuns e artistas consagrados. Isso me
deixava otimista e feliz. Enfim, o público comum podia dividir
o mesmo espaço com os artistas de sucesso e assim dividir
suas experiências. Foi neste ambiente que conheci o Daniel,
que mais tarde seria conhecido como o rapper Cabal. Garoto
branco, classe média, mas detentor de um talento de rimar
importante, só visto por aqueles que vieram da velha escola,
a arte de improvisar em cima das bases, sem decorar letras.
Sempre que descansava do meu set, encontrava o Cabal
fazendo rimas com outros na pista de dança ou no bar do
clube. Foi então que, sentado numa mesa, como era de
costume, tomando uma gelada, o Cabal chegou e me pediu
para produzir um som. Eu falei: Qual estilo? Ele disse: O seu,
cara! Então produzi uma música para o PRO, antigo grupo do
Cabal. Depois disso, continuei minhas festas e shows e
fiquei um tempo sem cruzar o Cabal. Foi quando em 2.003 ele
me ligou e disse: DJ Hum, quero fazer uma produção com
você. Foi a hora certa, pois eu estava com uma música
pronta para o meu disco, mas não tinha letra. Falei com o
Cabal: Eu produzo o som, mas vou lhe enviar uma base.
Mostrei para mais de 10 rappers e ninguém queria rimar na
base com influência de Música Latina ("Senhorita"). Depois
de explicado tudo, passei por e-mail uma demo do som e no
dia seguinte o Cabal veio em casa e me mostrou a letra. Da
hora! Chamamos o Lino Crizz, negociamos a parada e o
resto vocês já sabem... Desejo a você, Cabal, muita sorte e
sucesso nesta sua nova jornada. Foi dado o início!
(DJ Hum - 20/12/2005)
Sobre o Album.
"PROva Cabal"
Qual o próximo passo na carreira de um artista quando sua primeira gravação como profissional ferve do salão de baile à pista do club? Um artista que com um único sucesso ganhou prêmios, reconhecimento e um contrato com uma grande gravadora? Se o mercado musical é uma selva, ele pode ter se lambuzado com a isca que o prenderia numa armadilha, a de ser artista-de-um-sucesso-só. Cabal transforma armadilha em rima. O MC natural de São Paulo, criado entre a Babilônia e o Brooklin nos EUA, é uma das vozes por trás do hit Senhorita, gravado em parceria com DJ Hum e Lino Crizz, sob o nome de Motirô e executado em todo o país durante o ano de 2.005. Agora é o teste que coloca seu talento na berlinda. PROva Cabal é o nome de seu primeiro disco.
Ele antecipa o julgamento popular para um tribunal, logo na vinheta de abertura: o rapper está no banco dos réus, acusado de ser um MC pop. O ator Paulo César Pereio faz a voz do juiz. Cabal se declara inocente. A estratégia da defesa é clara: manter as meninas na pista e acabar com a desconfiança dos manos. A sua história no ritmo e poesia começou nas festas que freqüentava, quando versava em cima de uma base tocada pelo DJ. Agora é hora de sair do lado da cabine: se o rap é a trilha sonora, é hora dela ser cantada em português. O grande público conhece o Hip Hop que canta a situação social, a periferia e as injustiças, que faz referência ao samba e a comunidade. O Hip Hop é isso e mais: Cabal respeita aqueles que abriram o caminho e fizeram história no gênero, mas sua trilha é diferente. Ele aborda os mais diversos assuntos nas 14 faixas que compõe o disco - incluindo vinhetas como a de abertura. Fala de amor, de diversão, da situação do país, dos amigos e inimigos que encontra no caminho. Trechos de músicas brasileiras foram sampleados - copiados e repetidos - permitindo, pela primeira vez autorizado pelos autores, que Erasmo & Roberto colaborem com a faixa Viver Bem e que Gilliard cante um trecho de Momentos (4 de Abril). Obra dos melhores produtores nacionais do gênero: Zé Gonzales, DJ Nuts, Mr. Bomba e DJ Cia, que colocaram seu talento em bases que não devem nada para os sucessos internacionais. Para acompanhar Cabal no microfone, são vários os aliados convidados, como é costume nesse estilo: Helião e Negra Li estão em Representa, Rhossi reclama da falta de organização do país ao seu lado em Org. & Progresso, Leilah Moreno suinga em Mexe seu Corpo e ainda há espaço para P. Rima, Bomba e J. Black rimarem também. São eles, junto com Rappin Hood e Primo Preto, as testemunhas de defesa desse julgamento. Da primeira á ultima música, o tribunal prossegue embalado por diferentes batidas, todas igualmente envolventes. Cabal é posto à prova por procurar abrir um espaço novo. Ele sabe que é culpado até que se prove o contrário, que muita gente não vai sequer ouvir seus argumentos antes de condená-lo. Mas a inocência de todo cidadão é garantida por lei. Então faça a prova: sente, ouça e dê seu veredicto.
(Renata Simões - 8/12/2005)