
Já não é de hoje que eu falo sobre este tema no blog, mas agora descolei um bom desenho pra ilustrar o assunto. Aliás, deixa eu já agradecer meu amigo Xto pela ilustração.
O que você vê neste desenho é a maneira como eu percebo a música digital. Imagina você chegando à seção de chocolates de um supermercado. Em vez de embalagens, apenas o nome e o fabricante da guloseima. É claro, cada chocolate vai continuar tendo composição e sabor diferentes, mas o formato, a embalagem, o jeitão, isso não haveria mais.
O conteúdo da música digital e o da que se compra através de uma mídia (vinil, fita, CD) é praticamente o mesmo. Quer dizer, o formato digital, quando conseguido de uma fonte boa, não prejudica em nada a qualidade do som. Às vezes, ela é até superior àquela contida num CD (hoje é possível comprar músicas com 320 Kbps de bitrate, contra os 256 Kbps de um CD).
Mas a relação do ouvinte com a música está mundando. Há mais de meio século, a humanidade se acostumou a consumir música num formato que contemplava mais ou menos dez canções, embaladas por arte gráfica e um título, que faziam sentido como um todo. Agora, comprando música através da internet, a idéia de álbum se perde. A relação fica mais abstrata, menos presa, mas a verdade é que os artistas devem contar cada vez menos com o fato de que terão um grupo de músicas, numa seqüência determinada por eles, para contar uma história.
A música voltou para o seu estado mais básico, peladona. Com as implicações que nem eu nem você ainda conhecemos.
Clau é autora do livro Todo DJ Já Sambou, trabalha como editora de internet, toca discos por aí e prefere tintos suaves, mas potentes.

Recentemente li um texto incrível escrito pelo David Byrne (ex-Talking Heads) sobre a indústria fonográfica, publicado na revista "Wired", de dezembro passado, se não me engano. Ele, que já atuou em todos os papéis possíveis do maquinário musical, discorre com primor sobre como a música em si foi se afastando das mídias que a carregavam e que, por muito tempo, foram confundidas com ela própria.
Houve um tempo, ele diz, que o vinil, o objeto físico, era tão importante que se confundia com seu conteúdo, ou seja, a música. Certamente nenhum de nós terá idade para saber como as coisas funcionavam na época em que música era algo exclusivamente experimentado ao vivo. Ou seja, era a execução ao vivo e acabou. Música era uma experiência, e não um produto que se carregava embaixo do braço.
Depois de ler este texto excelente (que está inteirinho online, mas em inglês), comecei a repensar minha relação com a música. Será que eu não estava ficando muito apegada a mídias físicas, e não ao que interessava?
Pensei em parar de vez - atrasada, eu sei - com a compra de CDs e vinis e me jogar sem medo no universo digital, e apenas ele. Mas ainda não foi desta vez. Hoje depois de ler a crítica do CD "Disco Not Disco" vol. 3 no Pitchforkmedia, corri pra Amazon e comprei o desgraçado. Mas, juro, vou tentar parar depois deste. Será que vai ser mais difícil que largar o Marlborão - que jaz há quatro anos luz distante da minha pessoa.
Enfim, prometo que vou tentar.
Clau é autora do livro Todo DJ Já Sambou, trabalha como editora de internet, toca discos por aí e prefere tintos suaves, mas potentes.



