
Jaguariúna é uma das capitais nacionais do "entretenimento" medieval conhecido como rodeio, onde brasileiros imitam cowboys americanos e a graça toda está em assistir, com uma cervejinha na mão, a tortura e humilhação de animais.
Basta uma "googlada" rápida para a gente constatar a deprimente folha corrida do tipo de festa que as autoridades de Jaguariúna preferem ter na sua cidade. Vale ressaltar que foi na saída de um rodeio que aconteceu um dos crimes mais chocantes do ano, quando um peão arrastou por 15 km e matou um cabo do exército que ficou preso na parte de baixo de sua caminhonete. Aí vai uma pequena seleção de fatos:
Vale Paraibano - junho de 1999
A dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano vai ser chamada à delegacia seccional de São José dos Campos para prestar depoimento nas investigações sobre a morte da estudante Regiane Maria de Souza.
Ela foi vítima de uma bala perdida durante a invasão da arena do Vale Rodeio Show, minutos antes do show da dupla, no último dia 20.
O tumulto foi incitado pelo cantor Luciano, que pediu para que o público - estimado entre 40 mil e 60 mil pessoas - invadisse a arena em função do atraso do espetáculo.
Folha de S. Paulo - abril de 2007

A Polícia Civil de Taubaté (130 km a noroeste de São Paulo) abriu inquérito para apurar a morte do peão de rodeio Rogério dos Santos Machado, 26, morreu no domingo (14). Ele foi pisoteado por um touro após cair do animal durante um rodeio.
G1 - outubro de 2007
O peão de rodeio Virgílio Gonçalves, de 35 anos, atingido por dois tiros na quinta-feira (11), faleceu às 15h deste domingo (14). Gonçalves foi baleado no rodeio de Novo Horizonte por um outro peão, que está foragido. Tricampeão em montaria em cavalos em Barretos (a 424 km da Capital), ele era considerado atualmente um dos melhores do país.
Site Lê Ouvê - abril de 2008
Três jovens brigaram no Parque de Rodeios Antônio Dante Oliboni no último sábado. Com uma faca, um menor acabou atingindo uma mulher.
Diário de Cuiabá - junho de 2008
A Polícia prendeu em flagrante um homem acusado de estuprar uma menina de 11 anos, durante a exposição agropecuária da cidade de Poconé, realizada no último final de semana. O homem, de 35 anos, trabalhava como palhaço de rodeio na exposição.
Folha Online - junho de 2008
O Ministério Público de Mato Grosso do Sul ofereceu denúncia por homicídio doloso triplamente qualificado contra o peão Fágner Gonçalves, 26, que atropelou e arrastou por 15 km o cabo do Exército Leonardo Sales da Silva, 19, que morreu. O crime foi no último dia 7, na saída de uma festa de rodeio em Campo Grande.
Briga no rodeio de Mandirituba
Deu na Folha de S. Paulo hoje que a "[p]róxima novela da Record, Chamas da Vida, abordará... o consumo de drogas sintéticas em raves... As gravações começam na semana que vem."
A coisa fica melhor, veja só: "Na história de Cristianne Fridman, Dado Dolabella será 'Antônio, jovem desajustado, que tira racha e se envolve com ecstasy... A novela terá um ferro-velho, onde serão promovidas raves."
Gostei, em particular, da associação "tira racha" e se "envolve com ecstasy". Claro, raver não "acelera"?
Cristianne Fridman já escreveu e co-escreveu novelas como Bicho do Mato (Record) e Coração de Estudante (Globo), além do seriado Malhação. Não sei qual foi a pesquisa dela sobre raves e drogas sintéticas, nem o que ela acha da música eletrônica.
Como eu disse no meu comentário sobre o filme das raves do pessoal do Tropa de Elite, é claro que, para efeito de entretenimento, não teria a menor graça falar de raves e não falar de drogas e de situações dramáticas.
Mas, conhecendo a emissora do bispo Macedo, dá pra se preocupar com as tintas que serão usadas para retratar a coisa toda. Os precedentes são os piores: no jornalismo do seu canal, que chega perto da ficção melodramática no Cidade Alerta, raves costumam ser retratadas como território do chifrudo. E tempos atrás, deu que o bispo vetou cenas de uma novela de sua emissora onde um personagem vencia uma discussão sobre a descriminação das drogas. Ou seja, chavões e simplificações desinformadas estão dentro, debate e discussão fora.

Mudemos o canal para a Austrália. Lá tem xenofobia, violência de gangues, os aborígenes são cidadãos de segunda classe e o primeiro-ministro diz que não tem aquecimento global, beleza. Mas existe uma contra-partida que não permite que a barbárie dite as regras do jogo.
Veja o que está acontecendo lá essa semana. Por causa de fortes enchentes, umas 1000 pessoas que participavam do Freakreation, um festival de música eletrônica no campo, ficaram ilhadas. O festival começou sexta passada (4/1) e estava previsto para terminar segunda (7/1). Mas, como a estrada de acesso, segundo o chefe da defesa civil local, "virou mingau" e uma ponte caiu, eles só vão conseguir retirar os baladeiros a partir desta quarta (9/1). É quando, se o tempo permitir, máquinas terminarão de jogar cascalho sobre a estrada prejudicada.
Enquanto isso, um helicóptero visita o local três ou quatro vezes por dia para levar comida, água e cobertores. Cinco pessoas foram evacuadas: uma por estar ferida, outra doença e três menores, "sem preparo" para enfrentar a situação.
Ah sim, o helicóptero da defesa civil também tem levado combustível para o gerador da festa. Afinal, já que tem que ficar lá, a galera resolveu prosseguir com o som. E ninguém vê mal nenhum nisso. Mr. Steve Martin, chefe da defesa civil da região, disse: "Eles tem suprimentos suficientes. Estão calmos e felizes. A música ainda está rolando e eles estão se divertindo no molhado."
Alguém consegue imaginar a mesma boa vontade por aqui?

Usando bandas como Arcade Fire, Pavement e Decemberists, o crítico não se conforma como "o ritmo passou a ser descartado [justamente] numa expressão artística que nasceu como uma celebração das possibilidades do ritmo". Em outras palavras, o rock havia perdido seu elo com a música negra, com o groove e a com a emoção à flor da pele. Frere-Jones arremata, declarando que o rock optou pela "fraqueza e pela monotonia, confundindo isso com autenticidade e significância."
Essa falta de groove no rock certamente explica minha enorme preguiça com 90% das bandas desse gênero dos últimos dez anos (15, na real, lembrei que detesto grunge no geral). E, se o rock está com esse problema, me solidarizo com o colega escriba. Porque na dance music de 2007 estivemos passando por esse mesmo problema da falta de groove.
Sempre teve música eletrônica ou de pista "sem groove", ou seja, absolutamente cortada da raiz de música negra que foi a sua matriz rítmica: EBM, hard techno, psy-trance e gabba são alguns exemplos bem conhecidos. Mas esse ano, dois dos gêneros mais em evidência na mídia e nas pistas se caracterizaram por erradicar qualquer exercício rítmico que fosse um pouco mais maleável que uma colher de pau ou um poste de concreto. As metáforas já entregam: é o minimal techno e o electro-rock-noise-new rave.
Exemplares recentes de faixas de Bruno Pronsato, Pheek, Marc Houle, Gaiser e Barem

Na outra ponta, temos o barulho das serras elétricas e das furadeiras tentando compor uma levada que é como alguém marchando com paralelepípedos presos nos pés. Pense em certas faixas de Justice, Yuksek, Erol Alkan e DatA. E Boyz Noise: alguém já tentou ouvir seu álbum inteiro? É exaustivo. O remix do Soulwax para "Standing in the Way of Control", do Gossip, é um exemplo primoroso de excesso da estética barulhenta: toda a força soul e o balanço pontudo do original acabam soterrados por distorção e sons picotados ad infinitum.
Como reflexão para 2008, vale o que já dizia o Chic, em "Everybody Dance": "And it don't mean a thing if it ain't got that swing." (e não significa nada se não tiver aquele suingue."



