O que São Paulo e Florianópolis têm em comum? Não faço ideia da resposta. Mas têm dois caras aí que apareceram com uma opção inesperada: nu disco.
Rotciv, também conhecido como Victor A (que eu conheci nas boas raves dos anos 90), e Davis, vivem na rota Floripa-SP. Os dois são de São Paulo, mas moram na capital de Santa Catarina. Eles estão direto na Freak Chic, Victor como convidado regular e Davis como residente. Também tocam em festas no Vegas e Tapas, em SP, e na Contents, que Davis organiza em Floripa.
Discretamente, sem muito alarde fora desse círculo mais restrito de festas e DJs, Rotciv e Davis vêm lançando boas faixas, mandando bons sets e disseminando o evangelho da "boa música de todas as épocas" (vulgarmente conhecido como "nu disco").
"Frequentemente tocamos juntos na noite paulistana e de Floripa, conversamos muito e trocamos informações sobre músicas novas, artistas, selos etc", conta Victor/Rotciv. "E ... pretendemos em breve produzir um EP juntos", completa Davis.
Se a incipiente cena nu disco nacional já anda bem de noites e DJs, ainda carece da fartura de produções e edits que se vê na gringa. Mas Victor e Davis estão correndo atrás do prejuízo.
O selo digital de Victor, Mister Mistery, já está no oitavo release, entre produções, remixes e re-edits. No label, produções de caras como Pejota, Ledgroove, Minima, Pareto (como Coringa) e, claro, Davis. "As faixas são tocadas por mais de 30 DJs aqui no Brasil e vários outros no exterior", diz o DJ. Ele também mantém o projeto Giorgio Vokoder, com o músico Pedro Zopelar.
Aqui dá pra ouvir uma de suas músicas e um edit que ele fez para um hit menos conhecido do mestre da disco Peter Brown.
Peter Brown - Love is Just the Game (Rotciv Edit)
E aqui uma faixa própria do cara.
Rotciv - Victims of the New World
Davis lançou o EP Commited pelo Mister Mistery. Além de usar o nome próprio, ele agora começa um novo projeto chamado Dos and Don't's. Ele aguça nossa curiosidade: "Tenho 3 novos EPs prontos. Aguardamos os remixes dos artistas (nacionais e internacionais) que toparam participar do trabalho, para organizarmos as datas de lançamentos."
Davis - Nautica
Uma palavra final de cada um:
Victor: "Acredito que as pessoas estão se ligando que, depois de tantos modismos, distorções, barulhos, tendências e estilos, a boa música dance está prevalecendo finalmente. Música no sentido de ser musical, harmoniosa, rica em instrumentos e referências, música que nos remete à infância e também às décadas passadas."
Davis: "A atual fase é excelente. O público quer mais house, mais disco, mais groove, mais funky, mais harmonia e uma volta às origens. Acho extremamente importante olhar para o passado, conhecer e buscar a origem daquilo que ouvimos e tocamos hoje em dia. Muitas propostas musicais nos últimos anos buscavam ser tendências, a música do futuro, mas sem um lastro, sem uma origem."
MySpaces e blog listados aí do lado, é só ir atrás de mais coisas dos dois!
Confirmado no fim do mês de junho no Brasil uma dobradinha groovística muito firmeza.
O americano Prince Language e seu chapa, o inglês Maurice Fulton, tocam na Freak Chic, D-Edge (São Paulo, 26/6) e na Moo Discoland (Rio, 27/6).
O prisma é disco, mas o alcance desses dois vai bem mais longe, incluindo experimental, world music, new wave, electro e mais. Sempre carregado por um groove sólido.
http://www.myspace.com/mauricefulton
http://www.myspace.com/princelanguage
The Droyds - All I Ever Wanted (Prince Language remix)
Ahmed Fakroun - Sahranin 12" (Prince Language Re-edit)
Maurice Fulton - Gigolo
Crazy P - Lie Lost (Maurice Fulton Remix)
A cada faixa nova que eu ouço dos belgas do Mugwump, eu fico mais feliz por eles existirem. Pois os caras, individualmente conhecidos como Geoffroy e Kolombo, têm conseguido fazer a ponte perfeita entre dois gêneros que estão entre os mais ativos da atualidade: tech-house e nu-disco.
Ouça o EP deles que saiu pela Kompakt ano passado, Meditation. A hipnótica "Ignored Folklore" chega a soar como prog do começo dos anos 90, com aquele teclado oscilante que parece ter vindo de um dos primeiros singles do Underworld ("Dog Man Go Woof"). No mesmo EP, "Reverse the Curse" parte para uma direção bem mais disco-funk espacial, sem nunca esquecer que está saindo pela Kompakt (ou seja, é mais Gui Boratto do que Prins Thomas).
Mugwump - Ignored Folklore
Os desgraçados têm uma faixa que tocaram no programa Beats In Space chamada "Tellakian Circles" que é o encontro tech-disco retratado à perfeição. A faixa ainda é para poucos. O site do selo Mule Musiq informa que ela sai só para o público no final de junho.
Mas, em se tratando de Mugwump, tem música boa sobrando por aí.
Vai ouvir Yajna, épico de mais de dez minutos com um groove ultra-arredondado que leva você embora até cair num dos breakdowns mais surpreendentes dos últimos anos, quando entra uma banda de metais de baile da saudade e confunde todas as cabeças.
Tem mais: "Boutade" pelo selo Misericord, do Ewan Pearson, "Fears Inc", também pela Kompakt, "Mindflexes", pela Cocoon.
Não é à toa que, de Sven Vath a Aeroplane, de MANDY a Mr. Scruff, todo mundo hoje em dia tem um pouco de Mugwump no seu case.
Corre no MySpace deles pra conhecer mais.
"Abraçar o presente, olhando para o futuro, mas com um pé sempre firme no passado. Issso serve para minha música quando estou produzindo ou escolhendo música para meu selo e para meu set como DJ."
David Wolencroft, que conversou comigo via email, é um produtor de mão cheia. Com seu projeto Trus'me ("confia em mim"), ele liga os pontos entre funk, disco, house e deep techno. Não só no estúdio: ele é um excelente DJ, um inglês com uma residência na capital disco do universo, Nova York, e é dono do interessantíssimo selo Prime Numbers (além do material do David, cheque os impressionantes lançamentos de Linkwood e Wireman).
O talento de David ficou evidente já em seu primeiro álbum, Working Night$, um dos melhores de 2007.
Trus'me - At the Disco
Álbum no sentido "jornada" do termo: em vez de uma coleção solta de faixas, fluidez e sequência lógica de ideias musicais.
NOVO ÁLBUM
Em 2009, ele lanca seu segundo, In The Black. "É o próximo estágio, com bastante coisa feita ao vivo e, como sempre, muita coisa de estúdio." Participando de alguns vocais, Amp Fiddler, cantor que já trabalhou com George Clinton, Carl Craig e Jamiroquai.
No seu primeiro álbum, David recebeu nada menos que Norman Cook (o tal Fatboy Slim). "Ele fez uma participação na bateria. Cheguei e pedi pra ele fazer um groove comigo e ele veio."
Pergunto o quanto ele se beneficia com todo esse papo de nu-disco. "Nem tenho certeza se sei o que quer dizer nu-disco. Mas se, de alguma forma, ajuda as pessoas a descobrir as raízes da verdadeira disco, então tem meu total apoio."
Cite três produtores em quem você sempre pode confiar: "Peppe Bradock, Kenny Dixon Jr e Jay Dee."
DISCO 3000
David aka Trus'me também está envolvido na organização do festival Disco 3000, que rola em setembro na Croácia. A ideia é congregar DJs de house, disco e techno que não tem medo de arriscar ou de variar. Além da bagunça em terra, inclui duas festas em barcos.
Leia mais aqui, no Resgate, o ótimo blog do DJ Ezy, de Brasília.
Na página do Trus'me do Soundcloud dá pra ouvir faixas dele e de artistas do Prime Numbers. No MySpace tem mais.
Minha teoria é a seguinte: ouvir música velha eletrônica muitas vezes é como ouvir música nova.
A história do rock já foi passada e repassada tantas zilhões de vezes por artigos, revistas, livros, coleções, enciclopédias, programas de TV e especiais de rádio que a probabilidade de algo ter passado despercebido a esse constante e detalhado estudo é muito remota. Da mais secundárias das bandas de garagem dos anos 60 à mais insignificante banda new wave, tudo já foi devidamente analisado.
Dance music/música eletrônica é outra história. É um passado mal registrado, mal conhecido e mal compreendido, salvo nobilíssimas exceções. É um passado de singles de 500 cópias de projetos que nem chegaram a lançar álbum e que raramente viram a luz do dia.
E é por isso que tem tanta gente dedicada a escarafunchar essas cidades perdidas de música antiga. Coisa que tantas vezes prova ser mais divertida e interessante (e surpreendente) do que conferir os últimos charts de tech-house.
Nada contra descobrir o novo que saiu esta semana. Eu adoro ouvir e descobrir o novo. Mas nos anos 00, a busca frenética e fanática pelo novo deixou de ser o dogma que era nessa cena nos anos 80 e 90. Este blog acredita piamente nisso. E alguns dos DJs que mais respeito nos dias de hoje também.
Enfim, uma intro digna de progressive house para "reafirmar nossa missão" (como diz o pessoal de firma) e para chegar em...
ARPADYS
Esse pessoal da França é do tempo em que os primeiros posters de Luke Skywalker começaram a aparecer nos quartos da molecada. Do tempo em que heroínas do espaço se vestiam de branco esvoaçante e usavam botas de cano alto prateadas com pistola combinando.
O Arpadys foi tirado do limbo recentemente pelos incansáveis missionários disco Bill Brewster e Frank Broughton (o livro mais conhecido deles aqui; o ótimo podcast que Bill acaba de fazer para o Resident Advisor aqui). Brewster e Broughton, jornalistas e DJs, colocaram os caras para se apresentar ao vivo pela primeira vez na história. Será na festa Cargo, em Londres, dia 30 de abril.
Arpadys - Funky Bass
Em 1977, eles lançaram um álbum que foi para o altar da space disco clássica, chamado Arpadys e que contém as faixas que coloquei aqui. Uma cópia original em vinil vale umas 300 libras (cerca de R$ 1.300,00)
Arpadys - Monkey Star
Arpadys - Mystery Rock
Aprecie cada timbre e efeito. Sabendo como eram essas coisas nessa época, cada um deve ter demorado semanas pra ficar bom. Os grooves são disco music de propulsão, com linhas de baixo infalíveis. Funky e transcedental de verdade.
Acaba de sair a coletânea Vol 1 Spacial French Disco 1975-79, pelo selo Tubetracks, reunindo faixas do Arpadys e de outros projetos envolvendo seus músicos.
O pessoal do Arpadys fazia parte do cast da gravadora Tele Music, que no fim do ano passado teve faixas remixadas pela elite da nu-disco. Outra empreitada de Brewster e Broughton.
Outro detalhe importante é que dois membros do Arpadys fizeram o projeto Voyage, que tem uma música que você certamente já dançou com um sorriso no rosto.
Voyage - Souvenirs
Quer fazer amizade?
Tem tanto set por aí que é comum a gente ficar indeciso sobre o que baixar ou ouvir.
Seria bem mais fácil se, assim como nos filmes, existissem prévias do que eles contém. Tipo aquelas propagandas de discos que rolavam muito na TV nas décadas de 70 e 80.
Fiz uma experiência assim com meu novo set de nu-disco, house e clássicos, Full Circle.
No trailer abaixo tem trechinhos de várias faixas do set (mas não de todas).
Gostou? Baixe a versão integral aqui.]
Não curtiu? Ótimo, você não precisa perder tempo com ele.
Se você é daqueles que baba com o ecletismo e pesquisa dos sets de Todd Terje, Prins Thomas, Lindstrom, Optimo e Allez Allez aqui vai uma notícia pra deixar você salivando mais que um cão São Bernardo. O selo Strut, especializado em reeditar jóias e brilhantes do passado da pista de dança, foi ressuscitado esse ano.
O Strut originalmente funcionou de 1999 a 2003. Nesse tempo lançou uma tonelada de coletâneas fantásticas, abrangendo de disco underground a pós-punk a afrobeat a hip hop old school. Entre estas vale destacar:
- Larry Levan - Live at the Paradise Garage, aula do professor tido por alguns como o maior DJ de todos os tempos;
- a série Disco Not Disco, compilada por Joey Negro, depurando sons alternativos das pistas de outrora;
- os dois volumes de Club Africa, reunindo grooves polirrítmicos africanos;
- Black Rio - Brazil Soul Power, cheio de funk e soul dos anos 70 da gema.
O Strut versão 2008 é subsidiário do selo !K7, responsável pela excelente série DJ Kicks.
Os selo recomeçou com dois lançamentos absolutamente essenciais: uma edição fresquinha de Disco Not Disco e o sensacional Funky Nassau - The Compass Point Story 1980-1986.
Esta última registra o legado do estúdio Compass Point, de Nassau, Bahamas. Montado por Chris Blackwell, dono da Island, lá foram gravados discos clássicos de Grace Jones, Ian Dury, Kid Creole e Talking Heads, entre vários outros.
O som do Compass Point típico era um pop-funk-dub cristalino e groovado que foi muito influente no começo dos anos 80 e que vem sendo revisitado pela galera da nu-disco como Brennan Green e Chicken Lips.
Saindo agora do forno pela Strut: Disco Italia: Essential Italo Disco Classics 1977-1985, organizada por Steve Kotey, metade dos Chicken Lips, e cheia de bambinos obscuros; uma compilação do lendário grupo Kid Creole; e uma seleção de funk africano chamada Nigeria 70.
O site deles também promete para breve alguma coisa do Grandmaster Flash, mas sem maiores informações.
"É escuro, triste, frio, não é cool, é o lugar perfeito para se produzir coisas industriais e barulhentas," diz Max (ou Maximilian) Skiba sobre Sosnowiec, o lugar onde mora no sudoeste da Polônia, perto das fronteiras tcheca e eslovaca. "Com certeza, não é lugar para se passar as férias."
De seu bunker na desolação pós-industrial, esse jovem produtor polonês está fazendo nascer belas, coloridas e vistosas flores. Como seus extraordinários remixes para "Bonaire", do Dutch Rhythm Combo, e "World of a Woman", de Naughty (Filippo Moscatello). Ou produções-solo como "Transcedental Dinkiness", "Rendez-Vous" e "Violet Violin (Apple of Disco)".
Disco, chegamos na palavra abençoada. Max faz disco moderna com sobretons de electro e funk, aliado a muita inspiração, atenção para o detalhe e melodias motivacionais. É música que te faz querer abrir a janela e chamar os amigos para tomar algumas e dar risada. Mesmo que lá fora o frio esteja abaixo de zero.
REMANDO CONTRA
De onde Skiba vem, só ele e "alguns DJs amigos" tocam mesmo sons funky e disco. "É tão pouca gente que dá para dizer que não existe uma cena disco na Polônia. Para muitos poloneses, quando mais 'hard' melhor". Apesar disso, para ele, "o techno já está morto por aqui".
Ele mesmo colecionou no passado um punhado de produções mais electro e techno. Como foi a transição para as produções mais orgânicas e melódicas?
"Eu comecei a ouvir música cada vez mais antiga e foi assim que aprendi a usar e construir estruturas de canção mais clássicas. Sempre adorei músicas antigas, a diferença é que agora eu tento fazê-las também. Mesmo assim, ainda faço algumas coisas de electro de tempos em tempos... por curtição."
Quando pergunto sobre seus produtores preferidos ele diz que a resposta é óbvia mas inevitável: "Giorgio Moroder, Nile Rodgers e Bernard Edwards, Gino Soccio e Prince. Difícil responder essa porque são muitos."

Max anuncia então uma parceria de fazer salivar os fãs do groove: "Estou muito empolgado, gravei duas faixas com Kathy Diamond (a inglesa de voz llimpa e robusta que está virando a principal musa da nu-disco: fez um álbum pingando funk com Maurice Fulton e tem uma colaboração com o majestoso Aeroplane a caminho)."
"Aí tem o projeto de um álbum infantil com uma conhecida cantora polonesa chamada Kora. Também estou concentrado em algumas colaborações menores e projetos de remix, assim como no meu EP solo! Falando nisso, meu remix para o Naughty acaba de sair."
Bom, agora corre e vai ouvir algumas coisas no MySpace dele.



