Minha teoria é a seguinte: ouvir música velha eletrônica muitas vezes é como ouvir música nova.
A história do rock já foi passada e repassada tantas zilhões de vezes por artigos, revistas, livros, coleções, enciclopédias, programas de TV e especiais de rádio que a probabilidade de algo ter passado despercebido a esse constante e detalhado estudo é muito remota. Da mais secundárias das bandas de garagem dos anos 60 à mais insignificante banda new wave, tudo já foi devidamente analisado.
Dance music/música eletrônica é outra história. É um passado mal registrado, mal conhecido e mal compreendido, salvo nobilíssimas exceções. É um passado de singles de 500 cópias de projetos que nem chegaram a lançar álbum e que raramente viram a luz do dia.
E é por isso que tem tanta gente dedicada a escarafunchar essas cidades perdidas de música antiga. Coisa que tantas vezes prova ser mais divertida e interessante (e surpreendente) do que conferir os últimos charts de tech-house.
Nada contra descobrir o novo que saiu esta semana. Eu adoro ouvir e descobrir o novo. Mas nos anos 00, a busca frenética e fanática pelo novo deixou de ser o dogma que era nessa cena nos anos 80 e 90. Este blog acredita piamente nisso. E alguns dos DJs que mais respeito nos dias de hoje também.
Enfim, uma intro digna de progressive house para "reafirmar nossa missão" (como diz o pessoal de firma) e para chegar em...
ARPADYS
Esse pessoal da França é do tempo em que os primeiros posters de Luke Skywalker começaram a aparecer nos quartos da molecada. Do tempo em que heroínas do espaço se vestiam de branco esvoaçante e usavam botas de cano alto prateadas com pistola combinando.
O Arpadys foi tirado do limbo recentemente pelos incansáveis missionários disco Bill Brewster e Frank Broughton (o livro mais conhecido deles aqui; o ótimo podcast que Bill acaba de fazer para o Resident Advisor aqui). Brewster e Broughton, jornalistas e DJs, colocaram os caras para se apresentar ao vivo pela primeira vez na história. Será na festa Cargo, em Londres, dia 30 de abril.
Arpadys - Funky Bass
Em 1977, eles lançaram um álbum que foi para o altar da space disco clássica, chamado Arpadys e que contém as faixas que coloquei aqui. Uma cópia original em vinil vale umas 300 libras (cerca de R$ 1.300,00)
Arpadys - Monkey Star
Arpadys - Mystery Rock
Aprecie cada timbre e efeito. Sabendo como eram essas coisas nessa época, cada um deve ter demorado semanas pra ficar bom. Os grooves são disco music de propulsão, com linhas de baixo infalíveis. Funky e transcedental de verdade.
Acaba de sair a coletânea Vol 1 Spacial French Disco 1975-79, pelo selo Tubetracks, reunindo faixas do Arpadys e de outros projetos envolvendo seus músicos.
O pessoal do Arpadys fazia parte do cast da gravadora Tele Music, que no fim do ano passado teve faixas remixadas pela elite da nu-disco. Outra empreitada de Brewster e Broughton.
Outro detalhe importante é que dois membros do Arpadys fizeram o projeto Voyage, que tem uma música que você certamente já dançou com um sorriso no rosto.
Voyage - Souvenirs
Quer fazer amizade?
Continuando com sua missão incansável de manter viva a rica história da dance music e dos clubes, a dupla Bill Brewster e Frank Broughton (autores do essencial Last Night a DJ Saved My Life) nos preparou mais um presentão.
Eles vão lancar um livro compilando textos do jornalista Vince Aletti.
Com olhos e ouvidos bem atentos ao underground noturno de Nova York, Aletti foi o primeiro jornalista a jogar luz sobre um novo fenômento musical e comportamental: DISCO. Foi num artigo para a Rolling Stone, em 1973.
Aletti continuou a ser o porta-voz na imprensa musical do novo movimento na revista Record World, para quem colaborou de 1974 a 78. Era aqui que ele publicava charts dos DJs da época, caras como Nicky Siano, David Mancuso e Larry Levan.
A coletânea de 500 páginas que Brewster e Broughton prepararam promete artigos, entrevistas, pensatas e resenhas de Aletti (incluindo tudo que ele soltou na Record World). E os charts também!
No blog deles dá pra baixar um PDF com 16 páginas do livro.

Há que se tirar o chapéu mais uma vez para Bill Brewster e Frank Broughton pelos serviços que prestam à cultura da pista de dança.
Primeiro, eles escreveram um dos livros definitivos sobre a história da dance music, Last Night a DJ Saved My Life. Emenderam com outro que conseguiu a proeza de ensinar a arte de discotecagem de maneira divertida e acessível, How To DJ Properly.
Um tempo depois, lançaram o site DJ History onde o conteúdo faz qualquer fã de boa música gastar horas de navegação. Exemplos: um artigo sobre o nascimento da rave na Inglaterra, de 1989; uma entrevista de Sasha, publicada pela Mixmag em 1992; mixes "misteriosos" onde DJs tocam faixas obscuras e desafiam os ouvintes a dizer o que é o que; ótimas dicas de livros; e um fórum de gente que sofre de TOC musical séria, onde é comum ver nomes como François Kevorkian, Darshan Jesrani (Metro Area), David Mancuso, Prins Thomas e Greg Wilson postando.
GARIMPAGEM ONLINE
E é dentro do djhistory.com que vem a mais nova empreitada da dupla. É uma loja de
música digital dedicada às raridades da música de pista, coisas que você nunca acharia no Beatport, muito menos em lojas físicas.
A idéia é disponibilizar, a partir da coleção da dupla e da de outros DJs, música de várias épocas que geralmente só viu a luz do dia sob a forma de vinil já deletado há muitos anos. Como definiu Broughton em entrevista para o site do The Guardian, "a gente faz a garimpagem pra você."
A loja começa com pouca coisa, mas o que tem já estimula as glândulas salivares. De disco rara tipo Atmosfear e Raw Silk a peças house esquecidas como (muitas) faixas do Swag e um remix nunca lançado do Royksopp. Além do seminal álbum da Incredible Bongo Band que contém "Apache", faixa que contém um dos breakbeats mais sampleados do universo. Todas as músicas estão disponíveis em MP3 e WAV.



