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Poltergeist Anos 80
18.11.09 11:57

 

ariel pink
ariel pink

 

Uns dias atrás achei umas fitas-cassete perdidas dentro de um saco plástico esquecido no canto mais escondido da casa. Eram algumas fitas de rock empoeiradas e quando coloquei aquilo para tocar lembrei disso: o som de fita-cassete é ótimo! Muito menos irritante que o som do iPod ou do CD, que cansam rápido. Mas na verdade isso não foi uma experiência muito agradável: além da rinite, senti um arrepio do fantasma daquela época assombrando a casa pelo som gravado.

 

Essa sensação fantasmagórica que as gravações lo-fi dos anos 80 e 90 às vezes provocam na gente já é há um tempo inspiração de artistas pop jovens, algo que já foi chamado por Simon Reynolds de hauntology. O americano Ariel Pink é um dos principais nomes desse gênero. Imagine só uma mistura de Kurt Cobain com David Bowie e Ozzy antes dos 30 e vai ter algo próximo a aparência e performance de Ariel Marcus Rosenberg, que ainda pré-adolescente começou a compor e gravar suas primeiras músicas (que pouco têm a ver com os três crooners).

 

Flash Content
ariel pink - credit (mp3)

 

Essa faixa é de 2007, mas manteve as características do pop anos 80 já que foi gravada totalmente em fita-cassete. Daí essa textura ultrapassada. Ariel Pink ficou conhecido por se apropriar dessa técnica de transformar suas composições recentes em ruínas musicais das profundezas dos anos 80. Veja um dos clipes com a linda performance de Ariel, aqui parecendo o Bowie de "Life on Mars" com cabelo oleoso:

 

 

Ariel Pink

 

Eu poderia ficar falando de Ariel Pink por semanas (já fiquei), mas o post veio para falar do lançamento do álbum "Horribles Parade" de Gary War - ex-membro da banda de Ariel - que dá continuidade a essa simulação do desgaste de gravações dos anos 80 para criar pops impossíveis.

 

Flash Content
Gary War - Healthy Living (mp3)

Flash Content
Gary War - See Right Thru (mp3)

 

A diferença é Gary War é às vezes mais punk que Ariel no álbum anterior:

 

Flash Content
Gary War - Obscure Preferences (mp3)

 

Repare que Ariel e Gary conseguiram a textura de som mais macio da fita-cassete, mas que ao mesmo tempo cria um efeito meio histérico já que as variações de velocidade da fita desestruturam o som, deixando-o com uma cara derretida:

 

 

Gary War

 

"Horribles Parade" foi muito elogiado pelo revista WIRE de Novembro e é cheio de excelentes faixas que remetem a Suicide, a psicodelia de United States of America e um pouco de Bauhaus.

 

isawjohnmaus

John Maus é outra figura que gravita à volta de Ariel Pink e Gary War, com quem colaborou no passado. É uma espécie de neo-Ian Curtis - lindo e louco como ele - com uma performance de palco perturbadora.

 

As poucas pessoas que foram ao show do Chairlift no SESC Pompéia (SP) na quinta passada puderam ver que a vocalista bonitinha estava com uma camiseta escrito "I Saw John Maus Live". Veja um pouco do nóia em ação:

 

 

 

 

 

 

John Maus

 

Algumas ideias aparecem pensando em Ariel Pink, Gary War e John Maus (e ignorando que o ar de velharia sufoca um pouco). A primeira é que isso não é um simples revival. O trabalho dos três é um trabalho sobre a mídia e a gravação analógica e seus limites. E são vários os limites que aparecem no trabalho deles: as restrições estéticas da indústria musical do passado, o limite entre a cópia e a expansão das fórmulas pop ultrapassadas... A tal hauntology no fim pode ser também um problema de lógica: esse pop que já nasce demolido pelo tempo só faz sentido quando percebemos que ele é na verdade, recém-lançado.

 

 

 

 


Vivian Caccuri
Vivian Caccuri
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