Ikonika e Cooly G colorem selo londrino Hyperdub com ótimos climas e batidas
Kode9, The Bug, Burial, Mala, Zomby e King Midas Sound têm pelo menos duas coisas em comum: são produtores que foram consagrados no selo Hyperdub e são todos homens.
A presença masculina nas áreas de produção de música eletrônica e principalmente nos estilos ligados ao grime, 2-step e dubstep não é nenhuma surpresa e já nos acostumamos. Parece até que foi feito para ser assim.
A boa notícia é que o selo Hyperdub, fundado e administrado pelo escocês Kode9 está investindo em duas jovens produtoras: Cooly G, que já havia anunciado na mídia no primeiro semestre que iria trabalhar com o selo e logo depois lançou lá seu primeiro EP "Narst/Love Dub", e Ikonika, que acaba de lançar mais um EP ("Sahara Michael/Fish") pelo Hyperdub.
Cooly G, em todas as matérias em que aparece, faz questão de mostrar que sabe o que está fazendo (e bem). Seu tech-house com inspirações do dubstep e 2-step têm linhas de sua própria voz, além de ser totalmente programado e produzido por ela. A produtora de 27 anos que cresceu em Brixton sempre se gaba de seu conhecimento técnico e sua capacidade. Manobra estratégica? Sim e reconhecida. Ela até já ministrou um curso de música e tecnologia em uma faculdade inglesa depois de gravar diversos artistas do início da cena grime.
Faixa do primeiro EP lançado pelo Hyperdub:
A londrina Ikonika (a.k.a Sara Abdel-Hamid) utiliza o esqueleto do dubstep e faz um belo trabalho de timbres, harmonias e melodias, que às vezes parecem feitos de bleeps meio instáveis, meio derretidos. A menina com seu talento caiu nas graças de Kode9 em 2007 e agora da revista britânica The WIRE. Parece um ótimo começo, não?
Ikonika está preparando seu primeiro álbum que sai em 2010 e torce o nariz quando lhe perguntam sobre ser mulher no meio da cena "cueca"do dubstep. Ela diz que comparado ao metal, gênero que adora desde a adolescência, o dubstep é "um ursinho de pelúcia" e que não pensa nisso quando compõe suas faixas.
Mesmo que Ikonika evite essa discussão e Cooly G a utilize em seu favor, será muito legal ver essas meninas fazendo alguma diferença na cena. O documentário Dub Echoes do brasileiro Bruno Natal, apesar de ter conseguido (quase heroicamente) reunir pessoas-chave para falar do nascimento e consolidação do dub, não mostra uma mulher sequer para contar a história do gênero. O trailler já mostra o drama:
Tomara que com a história do dubstep seja diferente.
Uns dias atrás achei umas fitas-cassete perdidas dentro de um saco plástico esquecido no canto mais escondido da casa. Eram algumas fitas de rock empoeiradas e quando coloquei aquilo para tocar lembrei disso: o som de fita-cassete é ótimo! Muito menos irritante que o som do iPod ou do CD, que cansam rápido. Mas na verdade isso não foi uma experiência muito agradável: além da rinite, senti um arrepio do fantasma daquela época assombrando a casa pelo som gravado.
Essa sensação fantasmagórica que as gravações lo-fi dos anos 80 e 90 às vezes provocam na gente já é há um tempo inspiração de artistas pop jovens, algo que já foi chamado por Simon Reynolds de hauntology. O americano Ariel Pink é um dos principais nomes desse gênero. Imagine só uma mistura de Kurt Cobain com David Bowie e Ozzy antes dos 30 e vai ter algo próximo a aparência e performance de Ariel Marcus Rosenberg, que ainda pré-adolescente começou a compor e gravar suas primeiras músicas (que pouco têm a ver com os três crooners).
Essa faixa é de 2007, mas manteve as características do pop anos 80 já que foi gravada totalmente em fita-cassete. Daí essa textura ultrapassada. Ariel Pink ficou conhecido por se apropriar dessa técnica de transformar suas composições recentes em ruínas musicais das profundezas dos anos 80. Veja um dos clipes com a linda performance de Ariel, aqui parecendo o Bowie de "Life on Mars" com cabelo oleoso:
Eu poderia ficar falando de Ariel Pink por semanas (já fiquei), mas o post veio para falar do lançamento do álbum "Horribles Parade" de Gary War - ex-membro da banda de Ariel - que dá continuidade a essa simulação do desgaste de gravações dos anos 80 para criar pops impossíveis.
A diferença é Gary War é às vezes mais punk que Ariel no álbum anterior:
Repare que Ariel e Gary conseguiram a textura de som mais macio da fita-cassete, mas que ao mesmo tempo cria um efeito meio histérico já que as variações de velocidade da fita desestruturam o som, deixando-o com uma cara derretida:
"Horribles Parade" foi muito elogiado pelo revista WIRE de Novembro e é cheio de excelentes faixas que remetem a Suicide, a psicodelia de United States of America e um pouco de Bauhaus.
John Maus é outra figura que gravita à volta de Ariel Pink e Gary War, com quem colaborou no passado. É uma espécie de neo-Ian Curtis - lindo e louco como ele - com uma performance de palco perturbadora.
As poucas pessoas que foram ao show do Chairlift no SESC Pompéia (SP) na quinta passada puderam ver que a vocalista bonitinha estava com uma camiseta escrito "I Saw John Maus Live". Veja um pouco do nóia em ação:
Algumas ideias aparecem pensando em Ariel Pink, Gary War e John Maus (e ignorando que o ar de velharia sufoca um pouco). A primeira é que isso não é um simples revival. O trabalho dos três é um trabalho sobre a mídia e a gravação analógica e seus limites. E são vários os limites que aparecem no trabalho deles: as restrições estéticas da indústria musical do passado, o limite entre a cópia e a expansão das fórmulas pop ultrapassadas... A tal hauntology no fim pode ser também um problema de lógica: esse pop que já nasce demolido pelo tempo só faz sentido quando percebemos que ele é na verdade, recém-lançado.
Como meninos das fronteiras entre México e EUA estão reinventando seu pop.

myspace.com/unsexynerdponi
Estereótipos do México correm soltos nos filmes, comerciais e imagens sem darmos muita bola para o que significam. De vez em quando até nos fazem achar que conhecemos alguma coisa daquele país. Mas como estamos longe de saber tudo sobre o México, deixamos essas imagens de lado para conhecer um pouco de sua música independente.
Esses são alguns artistas que fazem um som dançante e semi-eletrônico em uma das áreas mais interessantes da América: as cidades entre México e Estados Unidos. Tijuana, Chula Vista e Jalisco são lar de uma juventude que não ignora mais sua cultura popular. Pelo contrário: quer misturá-la com tudo que existe de legal na música indie e eletrônica.
Mexicanos Legais

Ser autêntico é vital para as bandas pós-internet que querem durar mais que um hit. Aquilo que é "novo" ou "do momento" pode até dar uma boa popularidade para um artista ou banda por um tempo, mas falar em "autêntico" é outra coisa. Como é que um artista hoje pode buscar "originalidade"? Pergunta que dá para quebrar a cabeça.
Já faz alguns anos que se falam naqueles novos gêneros de música eletrônica: baltimore club, dubstep, baile funk, cumbia, kuduro, bubbling. Eles foram várias vezes colocados em uma só categoria chamada "globaltech" ou "ghettotech" ou até mesmo "global ghettotech" (!!), você escolhe qual a menos pior. O que os artistas desse artigo não gostam de "globaltech", explicam, é que o conceito soa como um deja vu da "world music". Aquela ideia da world music nos anos 80 era simples: tudo que não era da indústria fonográfica principal ( então norte-americano ou europeu) podia talvez (e põe muitos talvezes) encontrar um lugar no mercado como "world music".
Mas - como tudo não é 100% ruim - essas categorias podem abrir algumas portas. Foi procurando ritmos locais reinventados como música eletrônica para dançar que Los Macuanos e María y José nos chamaram atenção na rede. Os dois projetos são formados por meninos de entre 20 e 22 anos com algo em comum: são tanto do México quanto dos Estados Unidos. Moisés Horta, Moisés Lopez e Marco Antonio Jimenez nasceram e foram criados nas cidades próximas ã fronteira entre os dois países na região da California. "Nåo somos de lá, nem de cá" nos disse Moisés Horta por MSN.
O trânsito entre México e Estados Unidos trouxe algumas peculiaridades ao gosto musical dos meninos. Enquanto moravam nos EUA, assistiam MTV, gostavam de nu- e death-metal, house, trance e indie rock. Marco Antonio disse que seu irmão mais velho ouvia muito hip-hop e rock e Moisés Horta conta que sua irmã mais velha o apresentou à música eletrônica. No México ainda estavam em contato com a cultura pop norte-americana, mas com um detalhe: a forte presença da música popular mexicana na cidade, nas festas, na rádio e na TV. Parece o Brasil?
Ritmos como cumbia e banda sinaloense aparecem meio espectrais na música de Los Macuanos, que mistura house, ambient e climas aéreos. É muito mais legal ouvir isso no som que com fone de ouvido e ainda mais legal com muitas pessoas junto. É um som que convida para uma experiência mais coletiva.
Um pouco diferente é o María y José:
Marco Antonio Jimenez a.k.a. María y José - com quem falamos também por MSN - é o mais novo do três (20), é quase nunca dá uma resposta séria. Fazia sempre piadas com Moisés H e L, sempre incendiando. Sua música tem uma personalidade parecida:
Outro grupo, Los Amparito aparece sempre relacionado a Los Macuanos e María y José. Lindíssima é essa cumbia com colagens de accordeon e uma voz lá longe:
A experiência multi-cultural sempre esteve presente nas vidas dos meninos dessas cidades-fronteira. Mas o que surpreende é que Los Macuanos e María y José afirmam que sua música é uma continuidade possível da música popular do México, e não uma apropriação dela. "Autênticos" ou não, os grupos mostram como cada vez mais o valor do "local" acompanha o "original" na lógica da música pop independente.
Por mais que eu tentei perguntar de diversas formas como acontece de fato a mistura do México-Estados Unidos no trabalho deles, ficamos sem uma frase que dê conta. "É por isso que nós fazemos música." explica Moisés Lopez.
myspace.com/losmacuanos
Para saber mais acesse os blogs:
Pretensiosas elas até prometiam, mas não tiveram muita vida após o hype.
Tem algo de fascinante quando o pop dá errado. Imagine aquela banda bonitinha, engraçadinha, que tem quase tudo para dar certo e aí....FAIL. Ninguém se interessa ou perde o interesse rápido demais.
Nessa enxurrada de bandas que estão se multiplicando aos montes com todas as facilidades da era digital que já estamos cansados de saber, a crueldade da seleção natural do pop fica mais evidente. Mais evidente e mais rápida. Muitas bandas aqui tiveram um belo destaque na mídia, tocaram em festivais e criaram expectativa, mas tiveram uma carreira meteórica (para baixo) que durou poucos meses. Os motivos são muitos: um clipe horroroso, um show frouxo, um vocalista feio, mas o mais engraçado é perceber aquela frustração que vem depois que tudo foi pelo ralo.
Para calcular essa quantidade de frustração, usamos uma fórmula bem prática:
Quanto mais próximo de ZERO, mais bem-sucedida é a banda. Conforme o coeficiente de FAIL vai subindo, é melhor se cuidar e mudar de estratégia o quanto antes.
10. Spleen United
Megalomania made in Denmark. O som do Spleen United quis ser grandioso e um pouco dark, mas faltou carisma (e um rostinho bonito). O álbum não tem hits bons para uma pista hype e também é delicado demais para uma cena mais gótica. E também não chega a ser emo. Acabaram como troncos sem braços e pernas nesse clipe ultra cafona que ninguém entendeu direito.
9. Clor
O Clor é uma banda inglesa que chamou atenção por essa misturinha de rock eletrônico em 2005, mas não deu em nada. Acabou no ano seguinte. Esses caras deveriam entender uma coisa: só artistas muito bem estabelecidos podem querer parecer "descartáveis". Se você não tem nada, não tem público, não tem grana, nem uma agenda lotada de shows, não caia na roubada de fazer um clipe ridículo desses. Foi total suicídio de carreira, antes dela sequer começar.
8. New Young Pony Club
New Young Pony Club está numa posição mais baixa porque ganhou atenção da mídia por mais tempo do que deveria, portanto seu coeficiente de FAIL desceu. New Young Pony Club é o tipo de trilha para desfile de moda de estilista universitário. Ao ouvir essa banda pela primeira vez, ele deve ter imaginado uma coleção inteira de saias de cintura alta. Estilistas estudantes, de uma coisa vocês podem ter certeza: escolham uma banda dessas para trilha e se arrependam no futuro (principalmente se seu futuro for promissor).
7. Delays
Essa dá um pouco de pena porque é uma banda que gostamos muito, mas é um clássico caso de revival antes da hora. "Estar certo antes é estar errado". Foi o que aconteceu com os bonitinhos Delays. Eles fazem revival de um estilo de bandas inglesas como The LA's que tiveram seu ápice nos anos 90. O problema é que os Delays já estavam revivendo essa onda em 2003, 2004. Muito cedo e não colou.
6. We Are Scientists
"My body
is your body
I won't tell anybody
If you wanna use my body
go for it"
Rimar body com body já é ruim o suficiente. Mas repetir a palavra QUATRO vezes no refrão parece alguma coisa do David After Dentist. Essa banda também está no páreo pelo quesito pretensão. Cientistas de quê? De rock é que não é porque o som não tem absolutamente nada de inovador.
5. To My Boy
Essa dupla inglesa fez muita força para parecer nerd e acabou faltando um certo...pau-duro. A libido para To My Boy não existe; eles só querem saber de computador e raio X. Até o Kraftwerk é mais sexy que isso (na verdade Kraftwerk é MUITO sexy!). O álbum é divertido, dá um barato parecido com o de quem come muito açúcar.
4. The Long Blondes
Tentar domesticar a mal-criação tradicional das bandas inglesas de menina como Delta 5 e The Slits não é uma boa ideia. The Long Blondes abusou da maquiagem e ficou no meio do caminho na música, fazendo um soft-brit-pop...de menina de família. Ainda tem muitos fãs por aí, mas a banda já acabou.
3. Black Strobe
Essa coisa de fazer música falando que está tendo relações íntimas com uma celebridade é uma estratégia bem passé. Até o Léo Jaime já usou o truque "comer a Madonna" que o Black Strobe usa nessa música. E nem a ajuda de uma celebridade como Asia Argento ajudou a banda. A doida passou um tempo dizendo que AMAVA Black Strobe. Será que esse tesão todo continua?
2. Does it Offend You Yeah?
Resposta: Yeah. Se a sua criatividade se resume a ser um filhote vira-lata do Daft Punk com o Justice, isso ofende sim. Mas a pergunta que não quer calar mesmo é se a banda não passa de um plano de algum executivo da EMI querendo explorar o mega-nicho dessas bandas. Aliás, obrigado EMI por bloquear o vídeo da banda para o Brasil, como quem clicar abaixo vai notar. A filtered disco já viveu dias melhores.
1. The White Rose Movement
É disso que estamos falando. The White Rose Movement tira as palavras de nossa boca, ganhando o primeiro lugar pelo fator "pretensão" com uma releitura circense dos anos 80. Eles surgiram junto com outra banda parecida, a "She Wants Revenge" (que por pouco não entrou aqui). Estava tudo certinho, bem amarrado, a música até que é legal, mas...nada aconteceu e The White Rose Movement foi engolida pela cruel seleção natural do pop pós-internet.
O fim de um dos blogs mais brilhantes que já apareceram nas internetz
Você pode nunca ter ouvido falar de Momus e muito menos de seu blog ClickOpera. Mas é muito provável que ele tenha pensado nas coisas que você gosta e costuma fazer em sua cidade antes de você sequer ter se interessado por elas. É por isso que muitos blogueiros (inclusive nós!) ficarão órfãos com o fim do ClickOpera, anunciado essa semana pelo escocês radicado em Berlim. Momus fechará seu blog em Fevereiro, no dia de seu aniversário de 50 anos.

Não ache que o tapa-olho é estilo. Momus realmente não tem um olho debaixo da cortininha preta. O músico, artista, escritor, crítico e apaixonado pela cultura japonesa, perdeu seu precioso olho direito na Grécia por conta de uma infecção por uso de lentes de contato, o que estranhamente criou uma aura (ainda mais) cool em torno dele.
Nascido em 1961, Nick Currie a.k.a Momus é uma espécie de maverick da cultura contemporânea low-brow com fascinação por culturas como a japonesa. Aqui relembramos uma pequena parte do que o multi-homem realizou (e ainda realiza) em sua carreira musical e em seu blog.
Se quiséssemos achar um denominador comum na carreira artística de Momus, ele seria o pós-punk. Momus começou a ganhar atenção com seu estilo musical durante os anos 80, explorando os limites de aceitabilidade das estruturas da música "pop"¹ com letras sombrias e moods estranhos, chegando a um som sempre desafiador mas sem nunca abandonar o terreno "pop". Ouça uma faixa do álbum Timelord de 1993:
Uma banda contemporânea a Momus que tem sonoridades parecidas é a anglo-holandesa The Legendary Pink Dots (sou suspeita porque é uma das bandas que eu mais gosto):
É engraçado porque esses dois artistas são uma espécie de aberração do pop britânico que enveredou para o experimental (mas nem tanto), criando algo que pode ser chamado de "avant-brit-pop". Veja só uma das faixas mais espertas do álbum mais recente de Momus, de 2008:
Na mesma medida em que Momus não obteve grande popularidade com sua música, seu blog criado em 2004 já mostrava a capacidade de seu autor em tecer comentários que englobam seus assunto de interesse, sua música e sua vida pessoal.
Um dos posts mais geniais que Momus já escreveu é sobre o "Anxious Interval", um conceito sobre o revival na cultura pop:
O intervalo ansioso seria o passado recente, que nessa foto é representado pelo neo-hipponga neo-folk Devendra Banhart. O passado recente é uma "distância desconfortável", uma distância suficiente para dizer que estamos em um outro período, mas não grande o bastante para nos sentirmos à parte. É por isso, segundo Momus, que o revival somente acontece na faixa do "The Goldmine".
Nosso "Goldmine" agora são os anos 80. O "Battlefront" é talvez a faixa mais interessante para o "revival de vanguarda". É o limite entre o período que está sendo revivido e o passado recente. Um exemplo disso são os anos 90. Já estamos sentindo que um revival dos anos 90 vem aí, mas não vemos ainda toda sua força na moda, por exemplo. (aliás, tenho uma suspeita que uma difusão do revival do heavy metal pode dar vazão de vez ao revival dos anos 90).
Entre o pop e o difícil
Dar atenção a assuntos que não são tradicionalmente entendidos como "elevados" ou dignos de estudo aprofundado, é o que eu entendo como low-brow. Por essa foto você já pode ver que Momus não é nenhum intectualóide que discute a cultura sob um ponto de vista inacessível para quem não está versado em uma ou outra teoria. Assim como sua música, o autor sabe encontrar seu "Battlefront" que o posiciona nos limites entre o "popular" e o "difícil".
Para isso obviamente Momus desenvolveu algumas estratégia para discutir assuntos sérios como a imigração na Holanda e manter a fidelidade de seu público. Como? Analisar o impacto da imigração na Europa também pelo ponto de vista da MODA:
Essa foto tirada pelo autor, é parte do post onde Momus elogia a onda de imigração de muçulmanos, africanos e asiáticos para Europa como uma solução parcial à monotonia estética e falta de criatividade que associa aos europeus nas últimas décadas. Essa monotonia, segundo Momus, pode ser encontrada nos looks totalmente pretos dispostos na loja supra-sumo Colette em Paris nessas últimas semanas:
Inversamente proporcional é seu entusiasmo com o Japão. Em especial, a música e a moda. Com muito esforço de pesquisa e de escrita, Momus inventou uma cena japonesa chamada Matsuri-kei, que consiste em um gênero musical de bandas só de meninas que gritam acompanhadas de tambores e outros tipos de percussão e ruídos eletrônicos:
Pesquisando os cinco anos de publicações é perturbador perceber que Momus já falou de praticamente tudo. Acho que por aqui você já pode ter percebido o drama que foi escrever sobre ele, já que seu encanto é irredutível em um post. Recomendo para quem se interessar, gastar bastante tempo nos arquivos do ClickOpera para aproveitar um pouco de seus últimos meses de vida.
Da música à moda, o heavy metal surge reinterpretado
Como metaleira de coração, esse post me dá uma certa consciência pesada. Gastei finais de semana demais durante a adolescência na Galeria do Rock odiando posers, trocando tablaturas de bandas com os amigos e criticando tudo que não era o "verdadeiro metal". Águas passadas. Depois de um tempo, o mundo metaleiro passou a ser sufocante.
Mas ultimamente para minha surpresa, parece que o estilão metaleiro está voltando na música, na moda, nos assuntos. Enfim, parece que o metal voltou a receber atenção e um certo hype nas capitais.
Um trabalho emblemático dessa volta triunfante é o incrível livro de fotos "True Norwegian Black Metal" do fotógrafo Peter Beste, lançado no primeiro semestre. O livro recebeu reviews acalorados ao redor do mundo, esgotou nos primeiros meses de venda e demorou a chegar aqui em casa. O livro mostra fotos membros de bandas, fãs e shows da cena de black metal na Noruega, um dos estilos mais agressivos e polêmicos que já apareceram no metal.
O black metal tem regras muito bem definidas. É quase atonal, as guitarras e baixos são ultra-distorcidos e a bateria é veloz, quase sobre-humana. Ideologicamente, é contra o cristianismo e a favor das tradições "pagãs". Quase todos os clipes tem uma característica desconcertante de serem filmados em florestas e pedreiras.
Um estilo homogêneo como esse é um material incrível para desconstruir. É o que fizeram os americanos do grupo Sunn O))) (pronuncia-se somente "sun").
Os americanos de Seattle fazem uma espécie de meta-metal, explorando sonoridades e timbres do black metal com o dark ambient, drone music e noise. A performance também impressiona, com muita fumaça artificial, capas tipo monge misteriosas e locais conceituais como uma igreja na Bulgária.
Sunn O))) é talvez a banda que mais defina essa onda reinterpretativa do metal na música. Mas junto com ela, vêm outras bandas recentes como Kylesa de Savannah, Georgia:
E Boris de Tóquio:
Nova Iorque está abrigando essa onda muito bem em clubes e casas de show como ABC no Rio, Irving Plaza, Europa Club e The Charleston. É cada vez mais comum ver noites dedicadas a bandas de metal nesses lugares. O público varia e abrange também a classe hipster, sempre louca por horizontes menos colonizados pela mídia, o que contraditoriamente faz com que as novidades sejam rapidamente difundidas, gastas e logo depois odiadas pelas mesmas pessoas que as hyparam.
Um sintoma disso é como a moda acompanha essa cena (ou talvez como essa cena acompanha a moda). Veja como a it girl Alice Dellal sintetiza essa tendência:
Blogs como Glamour Paraguaio estão dando uma atenção especial a essa tendência e fazendo uma bela compilação de fotos de belas na rua e editoriais de moda lotados de tachas, couro, correntes e jeans rasgado:
Difícil é saber como essa tendência irá pegar, se vai se espalhar e quanto tempo irá durar. O que é interessante - pensando como metaleira de coração - é como a mídia, a moda e a música conseguiram criar uma perspectiva em relação ao heavy metal para se apropriar dele e expandir suas duras estruturas estéticas, mesmo que seja só pelo hype.
"Dupla Incorporação Oral" essa sexta no Plano B
Nessa sexta apresento (eu = Vivian) o meu trabalho de performance mais recente, chamado "Dupla Incorporação Oral", no (micro)(nano) templo carioca da música experimental, Plano B.
Para essa performance, programei um patch que transforma o timbre da minha voz em tempo real, e com ele posso simular vozes masculinas e femininas. A partir disso vou usar dois microfones preparados com esse simulador de timbres para reproduzir alguns diálogos de filmes pornôs brasileiros. Farei as personagens femininas e masculinas.

Uma enorme inspiração para chegar nessa ideia, foi as performances da heroína Laurie Anderson:
Ela é aquele tipo de artista que me dá alegria só de saber que ela realmente existe, e que faz tudo o que faz. Agora, também gosto da atitude da mal-educadíssima Karen Finley:
Essa outra artista americana surgiu no ápice da club performance, a performance que migrou dos museus e galerias para os clubes punks dos EUA, Europa e também daqui do Brasil durante os anos 80. Na club performance, os códigos da cultura pop, do rock e comportamento punk se misturam com a linguagem das artes visuais. O Fausto Fawcett foi um dos artistas mais importantes no Brasil nessa linha e outro ídolo que tive o prazer de conhecer pessoalmente aqui no Rio.
Depois da minha performance, quem se apresenta é a MC Xuparina:
Marcella Maria "era Xuparoca, virou Xuparina e seu mundo se abrir". A MC carioca tem uma presença de palco de tirar o fôlego e brinca com a sexualidade do funk carioca para montar seu comportamento lésbico e incendiado. Moana Mayall será sua VJ, com vídeos de comerciais, novelas e filmes onde a MC aparece como figurante.
Vai ser no mínimo divertido me apresentar com a MC Xuparina para falar de gênero em um lugar que gosto tanto, como o Plano B. Quem estiver pelo Rio, apareça!
O que rolou de legal pelo Ars Electronica!
Resumir o Ars Electronica em um post não é nada fácil. Mas como todo blogueiro brasileiro é herói, vamos contar um pouco do que vimos do dia 3 a 7 de Setembro na Áustria caipira-tecnológica, nada a ver com o hype de Viena.
Em Linz, um querido amigo catalão que trabalha para o Sónar nos disse que o austríaco é um alemão latino. Se usarmos o alemão Felix Kubin como o anti-latino absoluto podemos até acreditar nisso! Essa espécie de andróide neo-Kraftwerk fez nossa primeira noite ser inesquecível. Veja nossa gravação:
No dia seguinte um choque cultural. A incrível G.rizo uma gata negra furação de figurino à la Rihanna programava seu som e fazia um rap sozinha no mesmo palco que Felix Kubin havia arrasado corações e tímpanos. Foi engraçado como ali os Estados Unidos assumiram uma cara "exótica" para mim. Estranho? Leve para os confins da Áustria uma afro-americana ultra-carismática mega-talentosa que faça os europeus dançarem até morrer para entender!
Uma exposição inteiramente dedicada a mostrar obras de som nas artes tomou as galerias do Lentos Museum. Com minha humilde câmera consegui fazer um pequeno vídeo de um dos trabalhos mais fotogênicos da mostra:
Essa peça, que é na verdade enorme, faz um jogo de ondas eletromagnéticas sonoras e ferrofluid; esse estranho material escuro. Tudo é feito de lixo tecnológico e o resultado é uma mistura de caos e organização em vibrações bem graves.
Mais colorido e inocente é o trabalho do japonês Yuri Suzuki que estava no OK Center:
Sua criatividade em vinil gerou meta-vitrolas: agulhas móveis ou instaladas dentro de carrinhos e LPs modulares que podiam ser montados e desmontados pelos visitantes. Era uma obra divertida mais no sentido do entretenimento e uma das mais movimentadas de todas as exposições do Ars Electronica.
A noite musical de gala do festival era o evento "The Pursuit of the Unheard" que apresentou vários artistas que inovavam tanto em seu material sonoro como no formato de performance. Já de cara, a noite ganhou um tom irônico e bem-humorado com o concerto dos coelhos franceses Nabaz'mob; uma espécie de toy-art polifônica que pode ser "regida" por um computador:
Logo mais tarde, a coisa não era mais tão boazinha. A compositora Elisabeth Schimana propôs a peça mais pesada da noite, usando o ancestral do sintetizador Moog, chamado MaxBrand. A coisa era um "monstro tecnológico" operado pela fantástica pianista Manon Liu Winter e Gregor Ladenhauf que fazia os controles dos milhões de botões, chaves, cabos e válvulas.
Não se preocupe se você não apreciou, não era para apreciar mesmo. Schimana propôs uma "trip to hell with no return ticket" que fez até algumas pessoas passarem mal e sairem da sala. Nos divertimos moderadamente graças aos protetores de ouvido dados pela organização.
É legal ir a esse tipo de evento para entender como artistas e músicos estão se comportando frente à uma tecnologia pervasiva, que está em tudo e em qualquer lugar, sugando boa parte de nossa atenção e desejo. Sejam críticos ou entusiastas, sérios ou irreverentes, os artistas que trabalham com tecnologia estão com uma batata quente na mão, buscando meios de legitimação de seu trabalho com algumas estratégias bem-sucedidas e outras nem tanto. De qualquer maneira, vale a pena acompanhar para dançar ou para passar mal.





















